Histórias de Moradores de Olímpia

Esta página em parceria com o Museu da Pessoa é dedicada a compartilhar histórias e depoimentos dos Moradores da cidade de Olímpia.


História do Morador:
Breno Augusto dos Santos

Local: São Paulo
Publicado em: 18/07/2008




História: A vida entre revoluções

História

IDENTIFICAÇÃO

Meu nome é Breno Augusto dos Santos. Nasci no dia 1º de julho de 1940, na cidade de Olímpia, que fica ao norte de São Paulo, entre Barretos e Rio Preto. Eu falo que Barretos e Rio Preto fazem parte da Grande Olímpia. Mas pouco morei em Olímpia. Em questão de menos de um ano eu mudei para São Paulo, e daí morei em São Paulo até os 23 anos.

FAMÍLIA

Origem da família

O nome de meu pai é Florindo Augusto dos Santos, filho de português. Meu avô paterno era da região de Coimbra, e minha avó da região de Trás-os-Montes. Vieram como imigrantes e trabalharam em construção de ferrovias, no interior de São Paulo no começo do século, e depois compraram uma pequena fazenda perto de Olímpia, com a economia feita. Olímpia foi fundada no início do século também, e lá eles tinham uma máquina de beneficiar café e uma serraria, e meu pai, como segundo filho mais velho, ficou como gerente dessa serraria e dessa máquina de café. Talvez a paixão que eu tenho por ferrovia e por natureza, tenha vindo daí e seja um pouco atávico. E meus avós maternos... meu avô foi imigrante italiano, era de uma família de Rimini, dizem que eram nobres em Rimini e foram contra a unificação da Itália, e na época da unificação, então, perderam. O rei tomou conta e tudo, então eles viraram migrantes no subúrbio de Roma, onde meu avô nasceu. Quer dizer, se não fosse Garibaldi, talvez eu não existisse. E é aquele negócio, a pré-história, alguma coisa sempre puxa um outro fato, e migraram justamente na época da “Terra Nostra”, no final do século passado para cá e por coincidência ele foi morar na mesma região onde se passa a “Terra Nostra”, que é a região de Espírito Santo de Pinhal, na fronteira com sul de Minas, e lá conheceu minha avó materna que era filha de português e brasileiros. Portugueses da ilha dos Açores, a Ilha de São Miguel que fica nos Açores. E casaram muito jovens, ele casou com 18 anos e minha avó com 15 anos. O primeiro emprego dele foi ser telegrafista da ferrovia, da estrada de ferro Mogiana, quer dizer, os meus dois avós trabalharam com ferrovia. E logo depois mudaram para São Paulo. Meu bisavô comprou uma chácara que, se tivesse guardado até hoje, estaria bem de vida, era a uma quadra da avenida Paulista, perto ali do Museu de Arte, no começo do século.

Atividade do pai

Foi tradutor público esse meu avô materno, até que chegou uma época que um parente da minha avó descobriu Olímpia, e foi trabalhar com algodão lá, e atraiu meu avô, na década de 30, para ir ter um negócio com beneficiamento de algodão, e ele pegou as economias e foi. Perdeu tudo, ficou na miséria quase total, mas lá minha mãe acabou conhecendo meu pai, indo comprar fubá na casa onde além deles terem café, parte de serraria também, tinham a parte de fabricar fubá, de moer o milho para fazer fubá. E compra fubá de lá para cá, acabaram se casando. Mas minha mãe não se acostumou depois que os pais voltaram para São Paulo, e meu pai sofreu talvez a maior violência da vida dele: foi ter que largar aquilo que ele gostava de fazer e ir para São Paulo. Meu avô, através de um cunhado que estava bem de vida, arrumou um emprego para o meu pai de caixa de banco, então meu pai deixou de ser gerente de uma serraria para ser caixa de banco, que acho que é uma violência terrível, uma pessoa que viveu com liberdade total ficar seis horas naquele guichê de banco, na Florêncio de Abreu, perto da Estação da Luz. Então a minha vida sempre esteve perto de ferrovias, sempre ligada a ferrovias.

Irmãos

Eu tive uma irmã que nasceu antes de mim, mas faleceu. Ela teria um ano a mais do que eu. E tenho um irmão que é arquiteto em São Paulo, trabalha na CDHU, que volta e meia está aparecendo aí nos jornais, mas não tem nada a ver com confusão que ele faz. Ele é arquiteto de lá, trabalha em urbanismo, se formou. É oito anos mais jovem do que eu, se formou na FAU.

A doença do pai

Minha mãe é viva, meu pai já faleceu, e de fato importante que teve, trágico, que houve na minha vida foi que o meu pai, quando eu tinha 15 anos, em 55, perdeu a visão com glaucoma.

Minha mãe, logo que meu pai ficou cego, ela tocava piano e dava algumas aulas, mas não tinha o conservatório. E ela já estava com quase 40 anos, 39 para 40 anos e ela daí foi fazer o conservatório. Se formou professora de piano, então ela passou a ajudar no orçamento doméstico, dando aula de piano e costurando. Ela costurava muito bem também. Meu pai, tinha o Instituto dos Cegos Padre Chico perto de casa, aí ele aprendeu a andar sozinho com a bengala e foi lá para aprender artefatos manuais. Porque os primeiros três anos ele pensava em se matar, só chorava... quer dizer, uma pessoa como ele, ficar totalmente cega é uma coisa muito difícil, e o pior é que quando ele ficou cego. A glaucoma vai gradualmente e, no último dia, é brusca. Nós fomos em São Vicente, na casa dos meus avós, e ele estava trabalhando como caixa de banco, até a véspera tinha trabalhado. E ele pegou o bonde do Ipiranga e desceu na praça João Mendes, do bonde, e na hora que ele desceu do bonde ele ficou cego. Imediata! Ficou cego! Daí o que uma pessoa faz? Chamaria um táxi, alguma coisa. Ele, com a naturalidade dele pediu que alguém o colocasse no bonde do Ipiranga de novo. Desceu no ponto final e pediu que alguém o levasse até em casa, de lá pediu para que a vizinha – na época nós não tínhamos telefone – avisasse a gente em São Vicente que ele tinha ficado cego. E nunca mais enxergou. Ele já sabia que não havia cura. Até hoje a cura desse tipo de glaucoma é difícil. Ele imaginava... mas a gente achava sempre que ia demorar. E depois então ele passou a também ter um pequeno ganho. Meus avós do interior deram um dinheiro para ele como adiantamento da partilha da herança, da fazenda etc. Ele construiu uma casa e alugou, e assim que a família se manteve, era o aluguel de uma casa, minha mãe dando aula e costurando, eu trabalhando como balconista e meu pai trabalhando no Padre Chico, ganhando também alguns trocados. Depois pegou aposentadoria do banco, que era o salário mínimo que minha mãe recebe até hoje. Meu irmão era novo, eu tinha 15 anos, ele tinha 7 anos, quer dizer, ele sofreu mais do que eu, porque eu convivi muito com meu pai ainda. A gente saía muito, passeava muito a pé e tal e meu irmão compartilhou menos com meu pai. Meu pai enxergando podia compartilhar.

INFÂNCIA

Casas e bairros de infância

Moramos no Belém – me lembro dessa casa em Belém, existe até hoje – e depois moramos na Avenida do Estado quatro anos. Essa casa existe, está em péssimas condições. Quem conhece São Paulo, Avenida do Estado, onde era a antiga Mesbla, aquela torre da Mesbla, a casa fica na Luís Gama, bem do outro lado. E eu, em criança, me lembro construindo aquela torre da Mesbla e calçando a Avenida do Estado, que era calçada de um lado e do outro lado era terra. Eu brincava na terra ali na avenida do Estado. O Tamanduateí não era tão ruim como está hoje. Da Moóca, daquela região, nós mudamos para o Cambuci, perto do Hospital Militar, na avenida Independência. E quando meu avô se aposentou ele foi para Rio Claro. Nós morávamos sempre com os avós maternos, até 49. Em 49 meu avô se aposentou, problema de coração, foi para Rio Claro, depois para São Vicente, e nós mudamos para o Ipiranga, onde minha mãe mora até hoje nessa casa.

Infância e amigos

Eu estava pensando hoje, quando vinha para cá, que eu tive a sorte de sempre ter um ambiente muito saudável, quer dizer, a família de um modo geral sempre foi muito família, muito! Se falava muito, na época não tinha televisão. Então tudo isso era muito ligado. O Ipiranga, quando mudei, era quase um interior. As ruas não eram calçadas, não tinha iluminação, terrenos baldios por todo lado, para jogar bola. As férias eram como as férias do interior. As férias passadas na casa dos parentes, ou na região de Pinhal, ou na região de Olímpia. Então as férias sempre foram muito boas. Depois, em São Vicente, quando meus avós moravam lá. Então foi uma infância muito boa e os tempos permitiam que as infâncias, mesmo sem ter muito dinheiro. Que a minha família era de classe média média para média baixa, talvez, de origem média alta para média baixa. E meus amigos, mesmo amigos que hoje seriam considerados muito pobres, tinham uma qualidade de vida muito boa, e tanto é que vários amigos dessa infância eu freqüento a casa deles, eles freqüentam a minha casa até hoje como se fossem irmãos. Então a infância permaneceu unida e muitos moram na mesma rua que minha mãe mora até hoje. Eles conhecem. Quando vou a São Paulo sempre encontro com eles e tudo. Então tive essa sorte. Na escola também vários amigos da escola ficaram para sempre. Principalmente da faculdade, a gente se reúne agora de ano em ano. Era de cinco em cinco anos, agora é de ano em ano porque o pessoal começou a morrer, então de ano em ano a gente já começa a se encontrar.

Viagem com o pai

Quando estava surgindo Londrina, um parente que era dono do banco tinha uma grande serraria de compensado na cidade de Londrina, no começo. E nós fizemos uma viagem uma vez de Olímpia, o irmão mais novo do meu pai foi montar uma fábrica de guaraná – essas fábricas do interior – em Maringá. E nós fizemos uma viagem memorável. Foi a última grande convivência que eu tive com meu pai, foi uns dois anos antes dele ficar cego. Nós fomos em Olímpia, por estrada de terra, até Maringá, 700 quilômetros num dia, cortando toda aquela parte de Marília, todo o noroeste de São Paulo, Londrina até Araponga etc., até Maringá, tudo quase como a Amazônia hoje. Com exceção de Londrina, que já era uma cidade grande, mas Maringá era uma cidade só de terra. Não existia nada. Era tudo casa de madeira, não tinha nada. E fizemos a viagem de carro, um Mercury importado 46. Marcava em milha ainda, uma viagem muito interessante. Atravessava o rio Tietê, o rio Paranapanema de balsa, como se estivesse atravessando o rio Amazonas, no meio de mata. Era mata dos dois lados, nos dois rios. Hoje não tem mais nada no Tietê, uma viagem muito espetacular. O que eu lamento é na época não fotografar como fotografo hoje, que seriam fotografias históricas. Era totalmente selvagem!

CASAMENTO

Os finais de semana eram difíceis. No começo, era só estudando na faculdade. De vez em quando o cinema. No cursinho o cinema era a cada seis meses. Era um prêmio que me dava de ir assistir um filme, alguma coisa, no tempo de cursinho. No tempo de científico também foi porque eu trabalhava e no fim de semana eu tinha que estudar. Foi muito difícil nessa época. Quer dizer, a maior parte dos meus amigos estava em festinha, namorando, e eu estava tendo que estudar, como sobrevivência, que eu sabia que a única chance de eu mudar de vida na época era com estudo. Hoje nem o estudo pode ser chance, mas naquela época era com estudo. E nessa época de faculdade, eu logo comecei a namorar com minha atual esposa, que era minha vizinha, e logo que a gente começou a namorar ela se mudou para Pinheiros, Vila Madalena, bem onde é hoje o murmurinho mesmo: Mourato Coelho, Fradique Coutinho, onde é o quente hoje da Vila Madalena. Onde começou a Vila Madalena, ali na Mourato Coelho e Fradique Coutinho, ela morava e mora uma irmã dela que até hoje está lá. Daí tinha um problema de ir para a Vila Madalena do Ipiranga. Eram duas conduções. Era na quarta-feira, no sábado e no domingo. Muitas vezes, como eu tinha que estudar, ela vinha passar o fim de semana em casa. Daí ela me ajudava a corrigir provas de ginásio, preparar testes para o cursinho, preparar matéria para o cursinho.

Eu conhecia ela do bairro. Ela fazia ginásio. Depois o pai morreu, ela parou de estudar e foi trabalhar, até ela se casar. Mais ou menos com uns 18, 17 anos, ela começou a trabalhar quando o pai morreu, e ficou até se casar... ela trabalhava. Trabalhou primeiro numa loja, depois num laboratório. Eu casei em 64, novinho ainda. Me formei e casei, tive a chance de casar porque eu fui trabalhar lá na Serra do Navio, e lá propiciava casa, assistência médica. Então isso permitia que a pessoa sem ter um tostão no bolso pudesse se casar. Casei três meses depois, porque havia necessidade de um período de experiência.

FAMÍLIA

A primeira filha foi planejada, totalmente planejada, porque nós tínhamos que fazer... tinha época de férias na Icomi. Na viagem, a minha mulher não podia estar com menos de três meses para viajar que era perigoso e não podia estar com a barriga muito grande. Então planejamos ela viajar com três meses. Foi tudo no figurino. A produção toda planejada. A segunda não. Como eu vivia em Carajás, a minha folga eu fazia com a tabela. Quando o Tolbert resolveu fazer aquele vôo de aerogeofísica e eu não sabia, eu cheguei no acampamento à tarde, de helicóptero, e estava um aviso lá que era para eu ir para Belém fazer um vôo com ele. Eu fui no período fértil e minha mulher ficou grávida, minha mulher ficou grávida da filha que mora comigo ainda, a Tânia, que é mãe da neta que mora comigo, a neta mais velha. Então, se não fosse esse vôo, não existia essa neta, não existia a filha. Carajás estava no auge quando essa filha foi nascer e eu não conseguia ficar junto a minha mulher. A primeira eu estava junto porque estava em Serra do Navio e não teve problema nenhum. Essa o Tolbert me quebrou o galho, no período que era para nascer, me arrumou um trabalho aqui no Rio para eu ficar de prontidão no Rio uns 15 dias e no fim de semana ir para São Paulo na data prevista para que eu pudesse estar em São Paulo. E, na data prevista, eu fui para São Paulo numa quinta-feira e era para nascer no máximo na sexta e não nasceu. Na sexta à noite, vinha um técnico de sondagem dos Estados Unidos, de uma empresa. Ele pegou um avião no Rio e eu vinha de São Paulo, pegava o mesmo vôo, e a gente ia se encontrar em Belém para no dia seguinte ir para Carajás. Se eu não viajasse nessa noite esse cara ia ficar perdido porque não ia ter ninguém para encontrar com ele. Ele ia chegar em Belém e não tinha ninguém. E eu de São Paulo na sexta-feira à tarde e na madrugada de sábado a minha filha nasceu, a Tânia. Eu só vim conhecê-la um mês depois quando fui para São Paulo. Um mês depois! Então ela teve dois incidentes que complicaram.

EDUCAÇÃO

Meu primeiro campo profissional, eu comecei com dez anos, e foi uma atividade marginal semi-remunerada. Eu estava no Colégio Marista, naquele tempo havia só quatro classes no primário: primeiro, segundo, terceiro e quarto ano primário. E estava na segunda metade do segundo ano e um irmão lá me chamou se eu não queria tomar conta do barzinho da escola. O barzinho era uma portinha com duas guaritas onde o pessoal ficava em fila e comprava coca- cola, doce – não tinha sanduíche. Doce, bala etc. E me colocou trabalhando lá e a minha remuneração era... eu tinha direito a um refrigerante e um doce por dia. E eu, muito altruísta, ao invés de pegar isso, eu pegava os doces no último dia da semana e levava para o meu irmão, que era pequeno, em casa, para a gente fazer uma festa no fim de semana. Então eu fiquei a minha infância toda fazendo isso. Houve até um incidente que um dia eu estava comentando com um amigo, um troço, que não sei o que me deu na cabeça. No quarto ano primário, último ano, não sei o que a classe aprontou, e nós tínhamos dois intervalos, um de vinte minutos e um de dez. À tarde que era o recreio e de repente a classe aprontou muito, o irmão chamou o diretor e a classe ficou de castigo, todo mundo em pé, sem abrir a boca, sem olhar para o lado, sem nada, aquele rigor bem do Colégio Marista da época. E tocou o sino do recreio, e daí eu fiquei no dilema: “O que eu faço agora?” Eu tinha duas atitudes rebeldes: uma era sair do castigo e atender o bar, a outra era falar: “O bar que se dane e o irmão agora vai ficar sem renda porque eu vou ficar de castigo e não vou atender o bar.” Mas daí a consciência profissional falou mais alto e eu simplesmente pedi licença e saí. Falei: “Bom, quando eu voltar vou levar a maior bronca porque saí do castigo.” Daí abri o barzinho, atendi, fechei, e voltei para o castigo, achando que ia levar a maior bronca. De repente, o irmão diretor falou: “Vocês podem sair do castigo porque tem alunos dessa classe que têm uma educação exemplar.” Eu não sabia que era eu. Eu fiz uma coisa para a sobrevivência, sem saber o que estava fazendo e aquilo foi considerado como um exemplo de educação pelo fato de eu sair do castigo e voltar para o castigo de novo. Então são coisas que marcaram, e a minha primeira atividade profissional foi essa.

ADOLESCÊNCIA

Eu tive a chance muito boa na formação e era uma época muito boa. Época da década de 50, foi o primeiro pós-guerra, quer dizer, o mundo achava que sem guerra seria uma maravilha, tinha o mal da Guerra Fria, que era um trauma, aquele negócio de comunista come criançinha e etc., aquela confusão toda, mas fora isso, fora esse conflito exacerbado entre leste e oeste, Ocidente e Oriente, a vida era muito boa porque se acreditava que a humanidade ia dar um salto porque não haveria mais guerras. E no Brasil era a época... se você olhar qualquer índice da década de 50, foram os melhores. O salário mínimo era quatro, cinco vezes maior do que é hoje. Era um salário mínimo de fato, decente. Na época do Juscelino se acreditava que o Brasil realmente ia dar um grande salto. Depois surgiu o período militar, que trouxe alguns avanços tecnológicos, mas um tremendo retrocesso político do qual nós não saímos até hoje. O que nós estamos pagando hoje, essa ausência de participação política da população brasileira é conseqüência direta dos anos da ditadura, porque na década de 50 se discutia no ginásio a política da União Soviética, política americana. No ginásio nós discutíamos no recreio. A garotada, no colégio, a discussão era com os professores sobre isso, sobre o general russo, se ele era melhor do que o Stálin, se era pior, o Krushev, tudo isso se discutia no dia-a-dia, fazia parte do dia-a-dia das discussões, de modelos econômicos, modelos sociais etc.

Não era tabu, se discutia abertamente todos os problemas e se acreditava que cada um conseguiria mudar o mundo. Hoje eu converso com meus filhos, minhas netas, eles não têm essa sensibilidade. Quer dizer, eles têm então uma posição passiva diante da realidade, ou seja: “Está feito e eu vou viver da melhor maneira possível, mas eu não vou mudar nada, porque eu sou impotente para fazer isso.” No nosso tempo não, a gente tinha certeza que ia mudar alguma coisa, infelizmente era uma mentira. Infelizmente! A gente tinha uma utopia. Nós vivemos um bom tempo acreditando nessa utopia. Então, aquela época, se analisar, é toda... até fazendo uma entrevista com um jornalista, amigo meu... uma entrevista que fiquei seis meses para responder o questionário, o Lúcio Flávio, de Belém, e ele faz essa pergunta sobre o que influenciou na minha formação. E acho que a década de 50 foi influência marcante na minha formação. Se pensar, tudo que existe hoje, surgiu naquela década de 50: o embrião, a pré-história, começou o computador, o avião a jato, a televisão, começou tudo naquela época. Tudo que existe até hoje: o vídeo tape, tudo foi nessa época. Houve depois um aprimoramento tecnológico, mas a idéia básica foi lançada na década de 50. A música, as transformações da música brasileira marcantes que vão ficar para sempre. Não isso que é música descartável de hoje, que dali uma semana ninguém lembra mais o que cantou, o que tocou, mas a música brasileira com transformações marcantes surgiu nessa época, década de 50, começo da década de 60. Gil, Caetano, Chico, Bossa Nova. A idéia de Brasília. Quer dizer, todas as transformações marcantes do Brasil. Então isso marcou muito essa geração.

A gente saía da escola achando que o mundo foi ruim até hoje porque a gente não estava jogando. E hoje o jovem sabe que talvez não vai ter chance nem de jogar, essa é a grande realidade. Eu tenho uma filha que mora na Suíça hoje porque ela se formou em hotelaria. Financiei pós-graduação dela na Suíça, e ela veio para o Brasil trabalhar nos melhores hotéis da região aqui, e ofereceram um salário de 150 reais! E ela hoje está trabalhando de baby-sitter na Suíça, morando com o namorado e ganhando lá 800 dólares. Então essa é a realidade que nós vivemos. E essa mudança, quer dizer, a chance que um jovem daquela época, eu tive naquela época, e o que o jovem tem hoje, apesar do volume de informação ser maior, a chance de viver naquela época era maior. Mais até que a dos nossos pais. Quer dizer, eles pegaram aquele pioneirismo, mas que tinha que dar um duro muito grande. A gente pegou um pioneirismo, mas um pioneirismo em que os caminhos estavam abertos. A gente saía da faculdade com cinco, seis empregos e iam bater na porta. A gente escolhia emprego. Eu estava empregado três meses antes de me formar e escolhendo emprego. Então, as chances de viver eram muito grandes. Isso dava uma confiança muito grande no jovem para o jovem se lançar à frente.

PRIMEIRO TRABALHO

Quando meu pai ficou cego, eu tive que abandonar o curso diurno e um primo da minha mãe, que era considerado como se fosse tio, ele era diretor de uma agência Ford em São Paulo, na Alexandre Warnistein, que ficava perto do Gasômetro e tinha uma filial na Silva Bueno, no Ipiranga. Daí eu trabalhei durante o curso científico, os três anos para poder ajudar em casa, e trabalhei como balconista de uma agência Ford e estudava à noite no Roosevelt. Eram peças de automóveis, agência, representante Ford, era só carro importado na época. E foi o primeiro trabalho, quer dizer, um trabalho que eu era balconista, mas no começo varria a calçada, limpava a privada, fazia tudo e com a maior naturalidade. Sem problema nenhum.

FORMAÇÃO EM GEOLOGIA

Opção por Geologia

Eu queria fazer Agronomia. Talvez porque duas coisas me marcaram muito a infância. Uma é a ferrovia, o trem. Tanto que o meu hobby, que eu estou agora começando a ter chance é fazer uma maquete de ferro-modelismo, porque é uma volta a origem. No Brasil isso é coisa de criança, mas nos Estados Unidos isso é coisa de gente grande. Tem 200 mil pessoas que fazem isso nos Estados Unidos. Tem revista especializada, livro especializado etc. Um hobby caro! Você mexe com eletricidade, com cálculo da engenharia para fazer a ferrovia, mexe com acabamento, com a decoração para fazer a paisagem. É um hobby muito diversificado que você mexe com várias coisas ao mesmo tempo. Mas são duas coisas que marcaram. Uma era a vida em fazenda, porque eram as férias. Primeira férias de infância até os 14 anos, principalmente na primeira infância, passei isso umas quatro ou cinco vezes, mas marcaram muito. Aquela vida ao ar livre, época feliz. Por quê? Eu estava junto com os pais, o tempo todo junto, então aquilo marcou muito, porque me deu a idéia de que se eu seguisse agronomia eu ia viver em fazenda e ia ser feliz. E outro é a ferrovia, porque a ferrovia era o que representa para o jovem de hoje o avião, que é a sensação de liberdade, deslocamento, era o trem naquela época. O trem era o que existia de mais grã-fino, de mais chique para alguém se deslocar. E os trens de São Paulo naquela época eram muito bons. Você saía nos trens no horário, você tinha um guia, um livro enorme só com o horário de todos os trens de São Paulo. Chamava Guia Levi, e marcava chegada e saída de trem. Chegava às 9 horas, 20 minutos 30 segundos e saía às 9 horas e 21 minutos, quer dizer, ele parava 30 segundos, o trem numa estação e aquilo era registrado no guia e se o trem atrasasse um, dois minutos era considerado um absurdo: “O trem está atrasado hoje.” Era uma coisa, um outro mundo que não existe mais. Mas ele tinha um significado muito grande, porque cada viagem, você ia para o interior de São Paulo, eram oito horas de viagem, equivale hoje a uma viagem para Miami de avião. Então você ficava oito horas no trem, vendo paisagens diferentes. E essas coisas, a ferrovia e a fazenda marcaram muito a minha infância, então por isso talvez eu quisesse seguir Agronomia. A Geologia surgiu porque foi a coisa mais parecida com Agronomia.

Quando meu pai ficou cego, eu, que pretendia estudar Agronomia na Esalq, em Piracicaba, e a situação econômica da família inviabilizou isso. Surgiram os cursos de Geologia no Brasil. E daí quem não mexe com a terra de um jeito mexe de outro. E isso era em São Paulo, eu podia fazer o curso lá. Daí optei pela Geologia, mas eu nem sabia o que era Geologia. Eu estava no Roosevelt, na São Joaquim, fazendo colégio e um colega meu falou desse curso. A parte de estudo eu fiz no Cambuci, no Colégio Marista, no Instituto Nossa Senhora da Glória. O prédio original não existe mais, o moderno que foi feito depois existe ali em frente à Igreja de Nossa Senhora da Glória, na Lavapés. E fiz o ginásio no Ipiranga, Ginásio do Estado Alexandre Gusmão, e colégio no Roosevelt. Depois fiz um cursinho de preparação e a faculdade, na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras na USP, curso de Geologia, que funcionava na época na alameda Glete, hoje está tudo na Cidade Universitária.

Depois fiz o cursinho, o colégio sendo feito nessas condições não me deu base, apesar de ser um bom colégio. O Roosevelt, na São Joaquim, era excelente, não deu base para passar no vestibular, eu nem fiz o vestibular, só fiz o exame escrito. Só para ter uma idéia, naquele tempo vestibular era escrito e oral, não era múltipla escolha não. Era escrito e oral também! E sabem o que é fazer um exame oral com quatro, cinco catedráticos na sua frente perguntando toda a matéria do colégio? É um negócio meio complicado. E aí eu conversei com meu pai. Eu trabalhava nesse período na agência Ford, e eu fiz uma negociação com o meu pai, se dava para ele me agüentar um ano sem eu trabalhar, porque se eu não fizesse o cursinho bem feito ia ser difícil. Aí fiz um cursinho que praticamente estudava dez horas por dia, porque o curso de Geologia na época do Juscelino ele foi considerado prioridade nacional, o curso de Geologia. Então criaram a Cag, que era a Campanha de Formação de Geólogos. Então o geólogo era o estudante rico do Brasil. Primeiro, estava isento do serviço militar, tanto que eu fiz o CPOR dois meses, passei no vestibular, cai fora do CPOR, não precisei fazer. Tinha bolsa, no começo os trinta alunos tinham bolsa da Cag e era uma bolsa fabulosa, uma bolsa equivalente hoje a uns mil reais mais ou menos.

O curso era integral, tinha um ônibus para excursões que foi dado para a Campanha dos Geólogos, tinha uma série de vantagens. Foi o Lott, que era o Ministro da Guerra, que tinha participado da elaboração junto com o Juscelino, etc. Foi um movimento de Presidência da República para criar os cursos de Geologia, porque antes a Geologia era feita pela engenheiro de minas, então os primeiros geólogos do Brasil eram na verdade engenheiros de minas que se adaptaram a Geologia, enquanto que nos outros países, na Europa e nos Estados Unidos, havia a Geologia desde o século XIX, no Brasil não havia curso de Geologia até a década de 50.

E o curso foi uma coqueluche para a época. Eram 30 vagas e 260 candidatos. Para a época era um absurdo! Hoje é normal essa relação sete para um. Hoje é 50 para um, 30 para um, mas na época, um curso vestibular com a relação de sete para um era um absurdo. Sete não, oito para um, e daí tinha que entrar entre os oito primeiros para poder conseguir. Na época, quando fiz o vestibular, só os oito primeiros que tinham direito à bolsa. Porque sem a bolsa eu não conseguiria me manter. E felizmente consegui passar entre os oito primeiros e permitiu que eu fizesse o curso de Geologia.

Cursinho

Foi uma influência grande também. Foi um cursinho que surgiu, ele chamava Centro de Aperfeiçoamento e Preparação Intelectual, CAPI. Se pegar as letras CAPI é a mesma letra de IAPC. Então, através de amizades etc., um estudante de física com outro, e um tenente do exército montaram esse curso preparatório, que eles preparavam também para cursos de oficiais, preparatório para sargento etc. E funcionava no viaduto Santa Efigênia, era o prédio do IAPC. Quem conhece o viaduto Santa Efigênia, saindo da São Bento, assim que acaba o Santa Efigênia, tem um prédio grande do lado. Naquele prédio funcionava... onde seria o salão de festas do prédio. Era uma maravilha, você tinha uma vista maravilhosa de São Paulo e eles inauguraram o cursinho. Eu fui fazer o cursinho e à noite havia oito alunos, de dia mais uma meia dúzia de alunos. Esse cursinho conseguiu – dos trinta aprovados – aprovar seis. Entrou com catorze aprovou seis na época. Foi uma coisa fabulosa.

O cursinho funcionou um bom tempo, depois ele mudou ali para a esquina da São João com o Anhangabaú, e a partir do segundo ano de faculdade eu fui convidado a dar aula lá no cursinho. Então, além da bolsa, depois a bolsa ficou congelada, a inflação começou a comer e eu fui dar aula no cursinho e um amigo meu arrumou também para que eu desse aula de Matemática, primeira e segunda séries, no Ginásio Perdizes. Ficava ali no início da Água Branca, logo depois que acaba o Minhocão. O ginásio não existe mais, era um ginásio particular, à noite, então eu saía de manhã, acordava às seis, pegava um ônibus, ia para a Glete. Tinha aula, era possível pegar um outro ônibus e ir almoçar em casa, ia almoçar em casa lá da Duque de Caxias até o Ipiranga, fazia em 20 minutos de ônibus, 25 minutos, atravessando a cidade toda. Voltava, tinha aula à tarde, pegava o ônibus de volta, tomava um banho, colocava paletó e gravata, pegava dois ônibus e ia dar aula em Perdizes. Às sete e vinte eu estava dando aula em Perdizes. Era possível fazer isso, tudo de ônibus! Saía, dava aula em Perdizes duas vezes por semana só. Saía às onze e meia da noite de lá, chegava em casa, dormia, acordava às seis horas e começava a rotina de novo. No cursinho eu dava aula na segunda e sexta, e nas quartas-feiras namorava. Eu tinha todo o esquema, não podia falhar nada. O ginásio foi uma experiência fabulosa também, porque era noturno e eu era o mais novo da sala. A maior parte eram pessoas que tinham atrasado o estudo, tinham muitas empregadas domésticas que estudavam à noite. Foi uma experiência fabulosa, foi muito interessante mesmo! Foi um ano que eu dei aula lá, no último ano de faculdade, e foi muito interessante mesmo, porque dar aulas para pessoas da mesma idade e ainda manter a disciplina. Tinham as gangues àquela época, mas as gangues eram completamente inocentes em relação às de hoje.

Era curioso, haviam alunas que iam assistir a aula e cruzavam as pernas para provocar o professor. E daí o professor ia lá mandar ela descruzar a perna. Ela perguntava se gostava ou não gostava. Você falava que gostava mas aquela não era a hora, então tinha todos esses macetes. De vez em quando tinha uma aluna que gritava: “Fulano me beliscou!” Então tinha que colocar o aluno para fora da sala de aula, negociar com ele o comportamento. Foi uma experiência interessante, porque você não podia negociar na base da autoridade, porque você tinha que negociar na base do diálogo, da razão, você tinha que convencer o aluno que ele estava errado, porque você tinha a mesma idade que ele. Eu tinha nessa época 22 anos! E poucos alunos tinham menos que 22 anos, numa classe de 50, 60 alunos. Foi uma experiência muito interessante!

Política Estudantil

Eu participei de uma maneira muito modesta no CEPEG. Era Centro de Pesquisas e Estudos Geológicos. É o centro acadêmico do curso de Geologia e foi mais uma participação quase simbólica. Eu não tinha uma atividade muito grande. Era mais organizar festinha, baile de formatura, baile de calouro, aquelas coisas todas. Mais atividade social do que atividade... mas a vida, por exemplo, era muito mais ativa... no meu primeiro dia de aula na Cidade Universitária, no curso de Geologia... porque tinha umas matérias básicas no curso de Geologia, então nós tínhamos que aprender Geologia, Botânica etc., que a formação do geólogo é mais para o cientista do que para o técnico. E nós estávamos entusiasmados, primeira aula na Cidade Universitária, com laboratório, parecia um negócio moderno, bonito, com campus etc., e entra um aluno do segundo ano e fala assim: “Gente, vamos embora porque estamos em greve!” E saímos da nossa sala de aula, que estávamos em greve. Mas qual o motivo da greve? Era necessário um laboratório para aulas práticas de Geologia, de Química etc., e não havia esse laboratório. Então a greve era para forçar a faculdade a construir o laboratório e o laboratório foi construído com a greve.

Então havia essa conscientização. Não havia greve nenhuma sem um motivo político muito forte e sem a visão de que aquilo que estava se reivindicando era possível. Por exemplo, quando o Jânio renunciou, eu devia estar no segundo ano. Quando foram feitas as passeatas porque não queriam deixar o Jango assumir. Foi a primeira vez que cantamos na rua: “O povo vai na rua, os soldados é no quartel.” Só que dali a três anos o povo ficou em casa e o soldado foi para a rua. E daí nós fizemos, imagine, na época, a Faculdade de Filosofia, que anos depois foi entrar em conflito com o pessoal do Mackenzie, ali na Maria Antônia. As reuniões foram dentro do Mackenzie! Foi dentro do Mackenzie e toda a Faculdade de Filosofia junto com o pessoal da Mackenzie, deputados, etc., fazendo um movimento para que o Jango assumisse. Aí o Carvalho Pinto mandou cercar com os “brucutus” todos. Nós ficamos e nos declaramos presos durante umas três, quatro horas dentro do Mackenzie e depois fomos liberados. Fomos até onde hoje é a prefeitura, a Assembléia Legislativa era lá, no Parque D. Pedro. E era o Abreu Sodré o Presidente da Câmara, nos recebeu, etc., tudo, para que fosse mantida a Constituição e o Jango pudesse assumir. Mas eram passeatas enormes, estudantes, o povo ia junto, então havia uma conscientização política muito grande da juventude e chance para que ela pudesse participar.

Faculdade de Geologia e o nacionalismo

Algumas matérias foram usadas dos outros cursos que já existiam. Já existia o curso de História Natural, que hoje é Biologia, mas que na época chamava História Natural, com professores de Botânica, Zoologia, que deram a parte básica. Matemática foram os professores da Faculdade de Filosofia; a Física também; Química também, que já existam os cursos. Então a formação básica do curso já existia, mas tinham as matérias especializadas, e aí havia um tal de Ponto Quatro, que era uma colaboração entre Brasil e Estados Unidos para a formação universitária, e muitos professores então vieram de fora. Era uma coisa surrealista, porque eu tenho até hoje dificuldade com a língua inglesa. Foi um cacoete daquela época porque naquela época não se podia aprender língua inglesa porque não podia se submeter ao colonizador: “Tem que dificultar a posse da terra, então nós não vamos falar a língua deles.” Essa era uma cultura que existia na boa parte da garotada. Alguns superaram isso! Eu levei algum tempo para superar, e hoje fiz vários cursos de inglês, até hoje leio, mas para falar eu tenho dificuldade, devido a esse trauma da adolescência. E os professores vinham de fora, tinha professores suecos, americanos que davam as matérias básicas do curso de Geologia, e alguns geólogos que já foram formandos da primeira turma. Fui a quarta turma de São Paulo. Alguns geólogos foram se formando, já entraram logo como professores. Então você assistia a aula em inglês, sem entender muito a língua. Entendia muito pouco, mas eles tinham uma didática muito prática, de aula prática, que foi uma formação excelente, e um desses professores passou a ter importância depois na descoberta de Carajás.

Havia uma consciência muito forte que o Brasil tinha que ter... não era um nacionalismo... a música era americana, o cinema era americano, quer dizer, a nossa formação romântica etc., todos os filmes. A gente ia assistir “Suplício de uma Saudade” e chorava com a namorada e aquele negócio todo. Então não tinha um antagonismo forte contra a cultura americana, mas a gente sabia que era um país colonizado. A gente sabia que tinha que mudar, que a América Latina toda era colonizada, tinha essa consciência. “Tudo bem, a gente gosta de vocês, mas vamos manter um pouquinho mais de espaço.” A gente tinha essa consciência. Não é que a gente era contra por ser contra: “Vamos fazer negócio, vamos trabalhar junto, mas sem um domínio, sem você impor sua vontade sempre.” Essa era a consciência que a gente tinha em relação ao capital estrangeiro. Que foi no passado, no início do século, em relação aos ingleses. E outra coisa importante, a cultura nossa na época, antes da reforma de base no ensino, não era a cultura americana que se aprendia na escola, era a cultura francesa. Então nós não tínhamos na escola a influência cultural americana, nós tínhamos no dia-a-dia. Muito menor que hoje, mas nós tínhamos no dia-a-dia, na música, no cinema, etc. Mas a influência francesa dava uma liberdade de pensamento muito grande. A nossa formação era muito mais universal do que aquela formação hoje do múltipla escolha e etc., que é aquela cultura imediatista. Era uma cultura muito mais ampla.

Eugene Tolbert

Eugene Tolbert foi um professor da última turma, ele veio para o Brasil na década de 50, na colaboração dos Estados Unidos nos estudos de mapeamento de Minas Gerais. Foi feita a colaboração com os Estados Unidos e a parte de minério de ferro interessava para os Estados Unidos. Então eles financiaram técnicos, cientistas para vir trabalhar aí, e depois acabou. Quando formou o curso de Geologia ele acabou sendo deslocado para dar aula lá. Ele falava muito pouco português, e ele, além de ser um professor que marcou muito, que ele dava aula de Geologia Econômica, que é a essência do profissional que vai trabalhar em empresa. Que tem profissional que vai trabalhar em pesquisa e tem o que vai para empresa. Quem ia para a parte econômica, Geologia Econômica era uma das matérias básicas. E ele foi esse professor. E nós, alguns anos depois, quando eu saí da Icomi ele foi contratado pela United States Steel para iniciar um programa no Brasil. Então ele formou esse curso e eu estava desempregado e acabei indo trabalhar com ele.

TRABALHO

Possibilidades de trabalho

Eram bem fortes os movimentos nacionalistas naquela época, tanto que o sonho de todo geólogo naquela época era trabalhar na Petrobras. Na época a Petrobras produzia 50 mil barris, alguma coisa assim. Uma coisa irrisória! Estava começando. A Petrobras tinha menos de dez anos e toda a Petrobras surgiu porque a quantidade de geólogos que se formou naquela época, que foi dando suporte técnico para que a Petrobras crescesse e acabasse sendo a companhia que é hoje. E o sonho maior ainda na época era Comissão de Energia Nuclear, porque eram técnicos franceses que estavam dando a cultura de pesquisa de urânio no Brasil. E aquilo a gente achava que ia ser a redenção do país. Urânio na época, na década de 50, se acreditava. Hoje se fala menos em urânio do que naquela época. Naquela época achava que tudo ia ser resolvido com urânio. Então o sonho era a gente procurar urânio para fazer a redenção energética do país.

Entrada na Icomi

Quando eu vim ao Rio de Janeiro, a primeira vez para procurar emprego... e não é como hoje, que você pega a ponte área e vem. Nós tínhamos mal o dinheiro para comprar a passagem de ônibus. Então nós saímos num ônibus da Cometa à meia-noite, chegamos aqui às seis horas da manhã e fomos na Comissão de Energia Nuclear para a entrevista, depois comemos um sanduíche e um dos amigos que até pouco tempo atrás foi Presidente da CPRM, Carlos Oiti Berbert, colega e amigo íntimo na época de faculdade, ofereceu um estágio na Icomi. Ele havia gostado muito de Serra do Navio, disse que lá a vida era muito boa etc. E daí nós fomos também lá na Icomi para ser entrevistados, mas eu não pretendia trabalhar lá. Imagina! “Eu vou trabalhar numa empresa ligada ao capital estrangeiro?” Era uma coisa que contrariava toda a minha formação inicial daquela época. E meu sonho era a Comissão de Energia Nuclear, mas eles falaram que tinham duas vagas. Um outro colega meu, Jorge Triguies, também queria ir para a Icomi, e eles insistiram que eu desse o currículo porque havia possibilidade de três vagas, e acabei deixando currículo. A Comissão não abriu vagas e a Icomi nos chamou depois, em São Paulo, num escritório que eles tinham em São Paulo, na Líbero Badaró, para dar o resultado. Nós fomos os três lá. Daí, no resultado, no dia da entrevista lá, da final, a secretária falou: “O resultado ainda não saiu, deve sair amanhã.” E na hora de sair do escritório, a secretária perguntou para mim: “Você é o Breno?” Eu falei: “Sou.” “Então o senhor me liga amanhã que amanhã nós damos o resultado, mas parece que é uma vaga só.” Então os outros dois falaram: “A vaga é sua.” E realmente daí eu fiquei profundamente constrangido porque eu não queria ir para a Icomi e eles estavam interessados, e eu ia tirar a vaga deles. Mas eles aí fixaram uma posição muito firme que se eu não aceitasse, eles também não aceitariam a vaga. E eu acabei indo para a Icomi, e eles fizeram a promessa que depois haveria chance e realmente, em maio daquele ano, surgiram as duas vagas e eles foram para lá também. Daí eu fiquei com a consciência tranqüila. Nesse período eles trabalharam na Petrobras e foi interessante que eu fiquei três anos na Icomi e eles ficaram só um ano e não se adaptaram, saíram de lá, e eu que não queria ir acabei ficando lá.

Expectativas e medos

Eu tinha aquela vontade do desconhecido. Eu sempre gostei muito de viajar e do desconhecido, era muito forte aquela vontade. Havia medos. Por exemplo, o primeiro medo básico era andar de avião. Eu andei a primeira vez de avião, foi uma experiência sui generis, que eu estava na faculdade e um amigo meu, que tinha feito cursinho, grande amigo que faleceu num acidente, eu era garoto, ele já estava na faixa dos 30, e foi meu grande amigo na faculdade porque era uma pessoa mais velha. E ele trabalhava na torre de controle, ele era tenente da Aeronáutica e era um dos chefes da torre de controle de Congonhas. Volta e meia a gente ia lá ver ele controlar os aviões. Na época não tinha radar, não tinha nada, era só no grito, só no rádio. Ele orientava os aviões, pousava só no rádio, falando para o piloto: “Mais para cá, mais para cá, etc., já apareceu a asa, pode baixar.” É um negócio terrível na década de 50, 60, começo da década de 60! E um dia, visitando lá com os amigos que gostavam muito de avião, ele falou para mim, já estava na faculdade nessa época: “Lá tem um avião.” Era da Perdigão, que depois deu origem, foi comprado pela Sadia e deu origem hoje a Transbrasil, mas a Perdigão tinha um DC-3 para transportar de Santa Catarina para cá os frios: “Vai fazer um teste de piloto, vocês não querem ir?” Aí entramos. Nunca tinha andado de avião! Entrei com meu irmão pequeno ainda, os amigos, num DC-3, em Congonhas, num sábado à tarde, e o avião não tinha banco porque era só cargueiro, então a gente tinha que sentar no chão. Quando olhamos a cabine, a pessoa do DAC da Aeronáutica, o examinador, tinha colocado um jornal na frente do piloto. O piloto ia ter que decolar num vôo cego, ele não estava vendo a pista! Isso o primeiro vôo, sem nunca ter voado! E depois começamos a andar em cima da Interlagos, voar ali fazendo tudo quanto era experiência com o avião: ligava motor, desligava motor, ligava motor. Isso então... nunca mais! E começou a chover também. E pousamos em Congonhas com chuva, falei assim: “Nunca mais vou entrar num avião!” E acabei tendo que ir trabalhar na Icomi. Então esse era o primeiro medo a vencer. O segundo é o medo que toda a pessoa da cidade, ainda mais quem já visitou o Butantã, e vê aquele montão de cobra ali dentro e assim que você está na selva, você não vai encontrar uma cobra, você vai encontrar um monte de cobras nas árvores, no chão, em tudo. Então tem aquela sensação de que você vai pisar em bicho o tempo todo. Havia esse medo da selva muito grande, mas na Serra do Navio, já era uma selva bem mais civilizada, eles trabalhavam mais perto da mina. Então não havia esse confronto. Quando começou Carajás o medo voltou de novo. E duplamente, porque além do avião ainda tinha o helicóptero. Era o medo da selva e o medo do helicóptero!

Uma das coisas que eu escrevi em “Brasil Mineral”, é que eu tinha a idéia de trabalhar fora de São Paulo, porque a gente sabia que São Paulo não é um Estado com riqueza mineral, a não ser material de construção, alguma coisa assim, mas não tem minerais metálicos etc. E uma vez, na conversa de turma, eu, pela própria natureza econômica, talvez fosse o com menos experiência de vida, saía pouco, era só sair com a namorada, era diferente daqueles que vinham de fora e moravam em pensão, que tinham uma vida muito mais experiente. Então era considerado um dos mais ingênuos do grupo nesse tipo de situação. E uma vez, comentando lá na hora do almoço, tinha o Salada Record e o Salada Paulista, foi uma das primeiras vezes que teve restaurantes modernos em São Paulo, e você ficava no balcão em fila atrás. Então você pagava a salada, era baratíssimo, era uma salada só de batata, alguma coisa assim, mas a pessoa ficava em fila, se você demorava demais o cara atrás começava a reclamar que você demorava, porque tinha fila do lado do balcão atrás de cada pessoa, então é um negócio meio surrealista. Para comer, você comendo a salada e três, quatro pessoas atrás de você. O primeiro fast food que teve em São Paulo foi desse tipo aí. Tinha só um banquinho para sentar ali e as outras pessoas ficavam de fila atrás. Um era a Salada Paulista, outro Salada Record. Mas então, conversando numa dessa reuniões, conversando com o pessoal, eu falei: “Pois é, eu acho que um lugar que deve ter muita jazida e tal, é na fronteira do Pará com o Mato Grosso, porque é uma região onde nascem os rios, então nessa região nunca nenhum visitante esteve lá. Então é uma área muito desconhecida e tal e tal e tal.” E tinha o Saladines Garden, o colega mais vivido da turma, que falou: “É, o Breno é muito criança, muito ingênuo, ele está vendo muito filme de Tarzan, vai pensando que vai chegar na selva e vai achando jazida e não sei o que lá e tal.” E por coincidência as jazidas que foram descobertas estavam na fronteira do Pará com Mato Grosso.

Serra do Navio

Serra do Navio foi a primeira mina moderna implantada na Amazônia. Ela fica a 200 quilômetros pela linha do trem, talvez em linha reta uns 150 quilômetros a noroeste de Macapá. Fica no Hemisfério Norte. Fica na América do Sul, mas na parte norte da América do Sul, e lá nasceu minha primeira filha. Primeira filha nasceu lá, foi uma experiência interessante lá também.

Foi acidentalmente que eu acabei indo para lá, não consegui emprego na Comissão de Energia Nuclear e fui para lá. Aí foi assim: as viagens maiores que eu tinha feito tinham sido ao Rio de Janeiro, duas vezes, uma para procurar emprego e uma com um tio para ver um jogo no Maracanã da Copa do Mundo, preparatória para a Copa de 56 em 54. E o resto eram viagens feitas por São Paulo, quer dizer, eu gostava de viajar, mas nunca tinha viajado. Então saí de São Paulo, peguei um Viscount da Vasp, fui até Belém viajando quase o dia todo, depois peguei um avião menor, para Macapá. Sozinho! É algo assim de um desafio íntimo muito grande aceitar isso! E a chegada em Serra do Navio. Em Macapá você ia para Santana, que era a vila portuária da Icomi, depois pegava um trem, mais quase 6 horas, até Serra do Navio para percorrer 200 quilômetros. Era um trem de carga com vagões vazios e um trem com vagão de passageiros na cauda, daqueles de faroestes americanos do início do século, vagão velho mas interessante. E o primeiro fato interessante foi que em São Paulo ninguém... Na época se usava até galocha. Hoje ninguém mais usa galocha, mas na época... Ninguém parava de trabalhar ou ia à escola se chovia. Você saía, estava a maior chuva, você colocava galocha e o guarda-chuva e ia para a escola. Capa, galocha e guarda-chuva, e ia para a escola, como o europeu faz e etc. Eu falei: “Bom, vou para a Amazônia onde chove todo dia.” Não levei galocha, mas levei guarda-chuva, e o guarda-chuva não cabia na mala. Então tive que ir com o guarda-chuva na mão, e ao descer do trem em Serra do Navio estava o pessoal da Geologia esperando e os estagiários, um deles era o Vanderlei Beisiegel que, na época, ele se formou um ano depois de mim, estava estagiando na Icomi. Até hoje ele conta esse fato! Então você descer na estação de Serra do Navio, com guarda-chuva na mão, foi uma sonora vaia, a primeira recepção. Porque na Amazônia ninguém usa guarda-chuva. É o lugar onde chove mais e ninguém usa guarda-chuva. Na Amazônia, ou você se molha porque é quente ou se você não pode se molhar você simplesmente espera a chuva passar. Então era comum, trabalhando em Belém, que a secretária chegasse lá atrasada: “É porque choveu, esperei a chuva passar.” Então é muito comum isso, você sabe que a chuva vem e passa, não é como a chuva de São Paulo que às vezes pega, fica um dia, dois dias. A chuva vem e passa, o pessoal espera a chuva e vai depois da chuva. Então essa foi a chegada triunfal lá.

Equipe da Icomi

A equipe de Geologia na época era pequena. Era nível de departamento, tinha um Chefe de Departamento, o Wilson Scarpelli e mais dois geólogos. Aledir Paganelli Barbour, que hoje é mais ou menos talvez um dos maiores bispos dos mórmons do Brasil, ele era mórmon e seguiu a carreira depois foi para São Paulo, foi professor, e colegas têm comentado que hoje ele é uma das maiores autoridades da Igreja Mórmon no Brasil, na época era um geólogo na Icomi. Aledir Paganelli Barbour de Rio Preto e Giro Maruo era o outro geólogo, que mora hoje no Rio, e nós nos mantemos até hoje porque nós somos compadres, nós batizamos a primeira filha deles, eles moram aqui na Tijuca. Depois mudaram para cá.

Icomi e os mosquitos

Eu era um geólogo novo na época só lá, e o primeiro trabalho foi um trabalho diferente porque lá na Icomi eles não usaram granito para fazer o lastro da ferrovia. Lá vem o trem de novo. E na Amazônia tem umas concreções chamadas lateritas, a própria bauxita é um tipo de concreção dessa, só que é rica em alumínio. E tem as lateritas ferruginosas que dão um certo... pouco abaixo da superfície, na crosta do terreno dá essas crostas um espaço de laterização. É típico dos solos tropicais e subtropicais, e esse material que é usado como lastro da ferrovia, e ele se altera com a umidade, tem que ter uma substituição mais ou menos freqüente. E havia necessidade de substituição e nós fomos fazer entre a região de Serra do Navio e Santana, aos campos de Macapá, uma região de pequenos platôs, e nessa região tem muita laterita, nós fomos fazer pesquisa. Então o primeiro trabalho de pesquisa foi um trabalho simples, era fazer uns buracos com uma retro escavadeira, um pequeno trator, e fazer amostragem daqueles perfis para ver quanto tinha de laterita. Colocava num saquinho e etc., e com uma prancheta, eu fiquei na prancheta – é um pequeno instrumento de topografia –, marcava a localização dos poços para depois fazer a cubagem de quanta laterita tinha para a ferrovia poder usar. Ferrovia do Amapá. Então esse foi o meu batismo de fogo na Icomi, foi fazer essa pesquisa de laterita e a característica nessa área é que foi uma das regiões do mundo, era o vale do rio Frechal, e é conhecida como uma das regiões que tem mais mosquito na Amazônia. Jacareacanga é a outra que tem muito mosquito também. O famoso pium, que é o borrachudo nosso, lá chama pium, ele ataca de dia o tempo todo. E era tanto que você não conseguia trabalhar, tinha que trabalhar com um mosquiteiro na cara, mas os braços não tinha jeito. E nós descobrimos então que pegando, enfiando uma estopa no tanque do trator no óleo diesel... imagina aquilo deve ser tóxico demais! A gente passava na pele e não é que matava o pium, matava não porque era inseticida. Ele ficava embebido e morria, então você ia trabalhando, e quando terminava o dia estava preto dos mosquitos que tinham morrido no teu braço. Chegava a dar febre, o primeiro contato com esse mosquito você tinha febre, depois aos poucos você ia se adaptando, já não tinha mais febre. Porque alguns conseguiam morder, dava aquela pintinha vermelha que coçava e irritava bastante.

Implantação procedimentos

Quando eu comecei a ter o trabalho normal de mapear mina etc., surgiu um incidente que mudou também a minha vida. Novamente a pré-história. Lá, na estrutura, você tinha Geologia, Engenharia, Laboratório e Mineração, eram os quatro departamentos que faziam parte da Divisão da Mina e, em cima, havia a gerência. E o Superintendente da mina era uma pessoa... como o Tolbert me marcou bastante a minha vida profissional, essa pessoa, Manuel Rico Campos, marcou também o início da minha carreira profissional. Espanhol fabuloso, havia combatido Franco na Guerra da Espanha, depois trabalhou em São Paulo na região do Apiaí, no sul, em minas de chumbo, e foi trabalhar na Icomi, uma figura humana fantástica. E a mina estava sem chefe, havia um engenheiro gaúcho que estava interinamente respondendo, e o Manuel Rico acumulando a Divisão com o Departamento de Mineração, que era o Departamento principal na Icomi, que era o Departamento de produção da mina. E ele ia sair de férias e brigou com o assistente dele, que tomava conta da mina, e o assistente pediu demissão. E ele para não cancelar as férias dele, olha o que ele fez, a temeridade! Quer dizer, não só a divisão ia ficar sem ninguém, cada departamento atuando independentemente, como a mina ia ficar. E ele foi para o Scarpelli, que era o chefe, e falou: “Qual o geólogo mais novo que tem aí, que não vai fazer falta para você, para ficar tomando conta da mina enquanto eu tiro férias?” E falou também uma frase semelhante a que o Tolbert me falou quando eu fui trabalhar com helicóptero alguns anos depois, falou a frase: “Não, não tem problema, pode errar a vontade que eu sou o responsável.” E saiu de férias. E foi um trabalho também apaixonante porque eu nunca tinha trabalhado com escavadeira, com trator, com caminhão etc., de repente tinha lá uma equipe de 50 homens, 12 tratores, 15 caminhões, 5 escavadeiras, e eu tinha que decidir o que fazer com aquilo, com 23 anos. Então prematuramente eu fui colocado em posições de responsabilidade, muito cedo, quer dizer, aconteceu na época do primário que eu fui tomar conta do barzinho, depois aconteceu na Icomi também, que eu com 6 meses de emprego, 6 meses de formado, nem sabia o que era ser geólogo, acabei sendo deslocado para a mineração. E me lembro. Imagina ser apresentado para a equipe da mina! Todos ficaram muito amigos, mas tinha lá um senhor que era o capataz geral da mina, já tinha trabalhado aqui na Vitória a Minas etc., um pessoal na faixa dos seus quarenta e tantos anos, e põem um garoto de 23 anos para ser chefe dele! A primeira reação, um camarada chegado de cidade, toda aquela cara de paulistano cheio de frescura e tudo. Imagina o choque cultural! “Esse garoto agora vai mandar em mim?”

O trabalho na produção do minério de manganês da Icomi era bastante simples, a lavra, a mineração, mas tinha um problema sério que a variação do teor da quantidade de manganês que tinha no minério, variava em torno de 30 até 56, 57, e a produção para ter mercado e um certo equilíbrio para a mistura geral, se você tirar só o rico, ia ficar só com a carne de pescoço, se vendesse a carne de pescoço, ninguém comprava, então você tinha que fazer uma blendagem, uma mistura, era vender em torno de 48 e 30% de manganês. Então você tinha que usar as várias frentes e fazer a mistura, tantos caminhões nessa escavadeira, tantos caminhões nessa, tantos caminhões na outra, para dar aquela blendagem no dia, e você controlava aquilo com várias amostragens, várias análises durante o dia para completar o trem que ia para o porto. Então não podia sair um trem com 50 e tantos, você não podia sair um trem com 41, você tinha que sair em torno de 46, 47, para no fim do mês a média de 48 e 30. E no primeiro momento eu cheguei lá, nem tinha visto uma escavadeira funcionar, nem tinha visto nada, quebrou uma escavadeira e esse capataz chegou para mim e falou assim: “Quebrou a escavadeira tal, onde eu coloco os caminhões?” O normal seria falar: “Eu não sei.” Eu não podia fazer isso, que ele ia perder o respeito comigo, daí eu falei: “Bota tantos em tal escavadeira e tantos na outra.” Nem sabia o que estava fazendo. Imediatamente fui lá para a mina, comecei a ver o que tinha acontecido, tal, e aos poucos fui ajeitando. Mas o que aconteceu? A minha insegurança e o meu medo de errar acabaram mudando a minha vida profissional na Icomi. Na mina, o engenheiro de mina e geólogo não se conversavam, porque geólogo era uma profissão nova, que até certo ponto veio tirar isso, até alguns anos atrás ainda havia um antagonismo muito grande. Primeiro geólogo não é engenheiro, então já era olhado com certo desprezo pelo engenheiro, porque o geólogo tem uma formação mais científica, técnica, mas mais científica, ele era considerado mais poeta pelos engenheiros, e havia tirado uma faixa do espaço deles também, profissional, que a geologia era feita pelo engenheiro de minas antes. Praticamente a geologia fazia os mapas e etc., pesquisava tudo, mas para fazer a produção a mina fazia sua própria amostragem. Então todo dia de manhã, ia alguém lá na frente e pegava algumas amostrinhas ali e analisava aquilo.

Aquilo era usado, só que eu cheguei a seguinte conclusão: “Isso não adianta nada, porque quando chegar o dia seguinte, quando vier o resultado, o que for amostrado já foi embora”. Então é uma amostra que não serve para nada. Então aboli esse tipo de amostragem porque não serve para nada isso, porque vai dar informação falsa, porque o minério variava muito de metro para metro. Então pegou uma amostra com 50 mas lá na frente está com 30. O que adianta aquela amostra com 50? Então o visual ia me dar mais ajuda do que aquela amostra. E os mapas da geologia não eram usados, eram usados só para o planejamento macro de lavra mas não eram usados no dia-a-dia, e a geologia fazia furo cada dez metros na mina etc. e tal. Então eu peguei esses mapas de geologia e na parede do meu escritório fiz uma maquete de mapas, sobrepus os mapas um em cima do outro, pintei os blocos com cores diferentes, e dentro do bloco um furo de pesquisa que tivesse sido feito, o bloco podia ser de 46, mas tinha um furo de 50, naquele ponto eu marcava que tinha um de 50, sabia que aquele ponto era um pouco mais rico. E a topografia ia mapeando os avanços, eu ia recortando o mapa, ia fazendo um avanço no mapa, o que acontecia na mina. Então eu estava o tempo todo trabalhando olhando esse mapa, quando eu ia na mina eu sabia que o lugar estava baixo mas lá tinha um furo que dava alto que ia melhorar e etc., então aquilo começou a me ajudar. Outra coisa que aconteceu é que aquele arranjo teórico que se fazia dos carros, três caminhões aqui, quatro aqui, dois ali etc., era um arranjo teórico, que as distâncias eram diferentes. Então você fazia aquele arranjo e quando vinha a análise do laboratório você corrigia. Você propôs produzir 47, dava 45, você corrigia achando que as frentes tinham mudado, mas muitas vezes era só em função de um arranjo real diferente dos caminhões. Um negócio simples que foi colocado e passou a ser usado até o fim da Icomi ser fechada. Quer dizer, toda vez que eu encontrava alguém: “Ah, aquele negócio da plaquinha, até hoje funciona!” Coloquei umas plaquinhas nos caminhões do lado de fora na porta, com o número da escavadeira que ele vinha, e a pessoa que operava o britador colocou um quadro com um lápis. Um pauzinho que ia baixando, sem computador sem nada, não tinha nada disso, quantas viagens reais tinham sido feitas. Então muitas vezes o resultado diferente era mais porque uma escavadeira tinha sido mais rápida, então o arranjo podia ser dois, para três, para quatro, e na realidade era quatro, para dois, para um. Então eu fazia um novo. Assim que terminava e era feita a amostragem, eu fazia um novo cálculo da distribuição real dos caminhões. Então essas duas coisas que foram introduzidas naquele mês de férias. Quando o Manuel Rico chegou de férias, entrou na minha sala tinha corrido tudo normalmente, ele olhou aquele mapa e aquele negócio que eu tinha introduzido falou: “Você quer continuar trabalhando na mina?” Foi um choque para os meus outros colegas, que falaram: “Você vai abandonar a geologia?” Falei: “Não é questão de abandonar a geologia. Geólogo eu vou ser o resto da vida. Agora é a chance de aprender tomando conta de uma mina.” Na época a maior mina que tinha no Brasil era a de Itabira, e a segunda maior era Serra do Navio, então você gerenciar a segunda mina do Brasil era uma experiência fabulosa. Do ponto de vista humano, do ponto de vista técnico, de abrir os horizontes, e eu não desperdicei a oportunidade. Então com seis meses de formado, eu fui promovido a Chefe do Departamento da Mina lá, era praticamente criança de tudo, era um garoto trabalhando lá.

Cotidiano na Serra do Navio

Lá tinha uma vila própria, era numa casa de nível de técnico, e depois passei para uma casa de nível de gerente. Foi uma experiência fabulosa porque eu pude ter uma qualidade de vida boa no início, com hospital, com tudo. Mas ao mesmo tempo que era muito rica a experiência, era uma atividade estressante, porque você ficava um ano isolado ali. Para sair, a única coisa que você podia fazer era Macapá, e a viagem de trem tinha que pegar o trem uma hora da tarde e voltar na madrugada de segunda-feira, porque eram os únicos trens que permitiam que você passasse o fim de semana lá, era uma viagem cansativa. Eu cheguei a passar um ano e um mês sem sair de Serra do Navio.

Não tinha televisão, os jornais, o “Estadão” por exemplo, a cultura lá era muito forte por São Paulo. Eles davam preferência aos profissionais de São Paulo, não sei por quê. E o “Estadão” chegava lá com uma semana de atraso. As revistas que existiam eram “Manchete” e “Cruzeiro”, você ficava na fila para que quando alguém desistisse, ou alguém saía da empresa, você pegava vaga para poder ter direito a uma assinatura, porque vinha tudo com cotas de avião, a Icomi não podia transportar mais do que aquela cota que ia ficar muito caro. Mas era uma qualidade de vida muito boa lá, clubes, hospital, mas era estressante porque a vida particular era a vida... a mulher do gerente era a chefe da tua mulher, a minha mulher acabava querendo ser chefe da mulher do meu assistente, então havia uma hierarquia na vila no dia todo. Você tinha muito visitante, então tinha coquetéis, duas, três vezes por semana, você era obrigado a ir naqueles coquetéis e ficar atendendo as pessoas, você não tinha muita privacidade, você não ia no coquetel, a mulher do gerente encontrava sua mulher no mercado e falava: “Olha, meu marido notou que seu marido não foi no coquetel ontem.” Mas para começo de vida foi fabulosa, minha formação administrativa, não formação técnica, mas formação administrativa, operacional e etc., eu aprendi na Icomi. Foi uma escola fabulosa.

Saída da Icomi

Eu saí demitido de lá. Fui demitido. Com um ano de mina mais ou menos, entrei em 64, 65, minha filha nasceu em 66, um ano e meio chefiando a mina. A minha filha nasceu dia 7 de maio, dia 8 de maio era aniversário da Icomi. E a Icomi então dava nesse período uma gratificação para os empregados que variava de no mínimo um e máximo dois salários, e a mina nesse ano havia trabalhado à noite, coisa que não se fazia lá, quer dizer, os meus 50 empregados trabalharam à noite e de dia rodando e tal, para um embarque especial, tinha feito várias coisas lá, e tinha avaliação para ver quem tinha direito. E nessa época, o líder da Revolução em Belém, foi o contra-almirante Bóris Markson. Ele colocou uma corveta em frente a Belém, ameaçou dar tiro e tal, na época da Revolução de 64 e depois reformou. E foi pedido a Icomi, ao Antunes, que arrumasse um emprego para ele. E a Divisão de Vilas, a vila era um nível de serviço. Eu acho que a departamento, mas era um departamento simples que era cuidar das casas, consertar tomada, verificar abastecimento de água, uma coisa muito simples, uma vila pequena, e não tinha emprego para dar para o contra-almirante, então transformaram aquilo em Superintendência, que era o maior abaixo de gerência. E contrataram tantos engenheiros civis, tudo para formar o staff do almirante, e ele era o meu vizinho bem em frente de casa. Então aquilo já começou a hostilizar por ver aquele tratamento discriminatório, isso para os meus ideais da época era um choque, quer dizer, o cara trazia garçom, a comida do clube para a casa dele, tinha todas essas mordomias que normalmente os outros empregados da Icomi, nem o gerente, tinham, e ele fazia o que bem entendia e ninguém falava nada porque ele tinha sido colocado lá pelos militares. Isso então foi uma parte psico-emocional que influenciou talvez na minha atitude. E nessa época, a Icomi também começou a fazer uma reengenharia, mas às avessas. Começou a contratar uma porção de assessores, foi ao contrário da reengenharia. Porque tinha que colocar uma cultura maior administrativa etc. Os assessores não tinham que fazer nada, então começaram a inventar! Então criaram um critério de avaliação lá que foi totalmente desastroso, eles estabeleceram uma “Curva de Correção do Avaliador”.

Curva de correção do avaliador. E o que consistia isso? Você avaliava a tua equipe e o outro gerente avaliava a equipe dele, se a tua equipe tinha a média 9 e o outro gerente tinha avaliado por 7, e a média da Icomi fosse 8, todos os seus avaliados iam perder um ponto. Porque você foi bonzinho e o outro foi ruim, e todos os outros avaliados iam ganhar um ponto, daí para a média. Até certo ponto, no critério pode haver essa influência na avaliação. Mas o que acontece? Desde que você unisse as extremidades e fizesse uma diluição ponderada no meio. E o que aconteceu? Na mina, que eles foram bem avaliados, que realmente naquele período a mina era o seguinte: ganhava campeonato de futebol, ganhava miss, tudo que acontecia em Serra do Navio era a mina que conseguia fazer, porque era uma equipe totalmente integrada, que vestia a camisa, etc. E o que aconteceu? Na mina ninguém teve dez pontos. E então ninguém na mina teve dois salários, e nas vilas aconteceu o contrário, então um cara lá que trabalhava na padaria, acabou tendo dois salários e um cara que trabalhava na escavadeira dia e noite, tinha um salário de gratificação. Então quando veio o resultado, os empregados falaram: “Não, isso não recebo.” E eu me senti responsável por aquela situação e entreguei o cargo. Entreguei o cargo, e a mina quis entrar em greve. Imagina em 66, na Icomi, querer entrar em greve? E era aniversário da minha filha, na época aniversário da Icomi etc. O meu amigo que era advogado da empresa, que eu havia conhecido, na hora que chegou lá, subiu, foi no aniversário da minha filha, e falou: “Não estou aqui para o aniversário da tua filha, eu vim aqui pela gerência para avaliar as tuas atitudes agora, então você toma cuidado comigo que eu estou como representante da gerência. Mas não quero te trair.” E ficou aquele clima hostil, e a situação foi indo, foi indo, até que a gerência da Icomi foi infeliz, e me chamou. Disseram que reconheciam que o critério havia sido errado, mas que a verba já havia sido distribuída, que não tinha mais como reunir os acionistas para arrumar uma verba adicional, mas que a minha gratificação poderia ser repensada. Foi muito infeliz! Quem falou isso foi um grande amigo meu que já faleceu, era o subgerente de Serra do Navio, e eu falei: “Olha! Daqui em diante se sair alguma coisa eu não quero nada para mim, porque vocês me colocaram nessa situação. Antes eu podia até receber se saísse alguma coisa, agora depois de você falar isso eu não posso mais receber nada de vocês.” E a situação foi evoluindo, evoluindo, até que o Rico comprou a briga, o meu chefe, e foi discutir com a gerência, com a diretoria, e isso foi uns 15 dias de discussão e etc. Até que ele subiu e falou: “Nada foi possível. Agora a situação é uma só, se você não desistir dessa demissão, eu fico sem condição moral de continuar e vou ser obrigado a pedir minha demissão também. Agora, você é jovem, arruma emprego em qualquer lugar, eu sou um espanhol no Brasil e vou ficar sem emprego.” Aí eu reconsiderei a decisão e falei: “Tudo bem Rico, mas daqui para a frente tudo o que der errado na Icomi eu vou colocar a boca no trombone.” Quer dizer, eu não pude dar porrada pedindo a demissão, e passei a dar porrada no dia-a-dia, foram seis meses que eu trabalhei feito doido, não tinha uma falha na parte profissional, mas na atitude junto a gerência e diretoria era de total hostilidade. Então o gerente, meu amigo, eu almoçava na casa dele, ele almoçava na minha casa e sexta-feira ele ouvia os empregados para reclamações.

E quase toda a sexta-feira eu estava lá, com a listinha. Uma delas era a mordomia do almirante, aquele negócio todo lá e assim foi seis meses. O almirante era prepotente. Tinha o professor de inglês que era da área dele, e ele brigou com o professor de inglês e deu um tapa na cara do professor. A prepotência era a esse nível. E acho que uma das coisas que desgastou bastante a minha permanência lá, é uma parte mais humorística da situação, que eu nunca criei galinha na vida, e descobri que havia uma padronização da Icomi, das vilas. Para quem criasse galinha, tinha um desenho de um galinheiro específico que a Divisão de Vilas forneceria. Mas era mais para casas operárias etc., ninguém lá na vila do staff ia criar galinha! Mas era um direito do cidadão, do habitante de Serra Navio criar galinha. Então eu entrei com o requerimento do galinheiro, e ninguém sabia fazer o galinheiro que nunca tinha sido feito. E subiram os camelôs no fim de semana para vender bugiganga na cidade, inclusive galinha, e eu comecei a comprar galinha, galinha, galinha, tinha mais de quarenta galinhas em casa. Não tinha muro lá, então as galinhas andando por tudo quanto é lugar e a casa do almirante em frente. Então, no fim de semana que ele passava em casa, quase todo o fim de semana ele me ligava: “Dr. Breno, você quer mandar sua empregada buscar uma galinha que está sujando a minha varanda?” Aí tinha aquele ritual, eu acompanhava a empregada até o meio da rua, que era um território neutro, ali eu parava, não invadia o território dele, daí a empregada ia sozinha, pegava a galinha, voltava, eu ficava de braços cruzados no meio da rua, ele ficava de braços cruzados em frente a casa dele olhando para mim. Havia aquele confronto de olhares e eu falava para ele: “Olha, o meu galinheiro ainda não chegou.” E daí foi realmente nessa base, até que no ano de 67 eu entrei nas férias coletivas, a Icomi dava férias coletivas, e ficava alguém tomando conta. Havia pouca coisa, e eu fiquei tomando conta da Divisão da Mina, e fazendo o plano de lavra para o próximo ano. Então era a época que eu fazia os cálculos, sozinho lá, sem ninguém aborrecer e tal. E, passagem de férias já comprada de ida e volta, quando o pessoal voltou, inclusive o subgerente, meu chefe, eles me chamaram para uma reunião, e esse meu amigo, o geólogo falecido, que era o subgerente de Serra do Navio falou: “Olha, Breno, a diretoria resolveu te demitir. Você vai ficar só com passagem de ida.” A frase que ele falou foi assim: “A diretoria concorda que todas as reclamações que você fez são válidas, só que a diretoria não concorda com o direito que você acha que tem de fazer as reclamações.” Era bem do espírito da época! E foi uma demissão estranha, porque estava demitido desse jeito com justa causa, tudo indenizado com tudo que tinha direito, teve partida de futebol na vila operária, um estádio com toda a gerência comparecendo, eu dei o pontapé inicial, houve uma festa de despedida com presença do Gerente, um jantar em minha homenagem. O pessoal todo foi na estação, a mina toda foi na minha casa na despedida, no dia. Foi a única hora que eu chorei quando saí de lá, eu e minha mulher, pois já estava tudo encaixotado, quer dizer, mesmo você querendo sair do lugar, para ter a sensação de liberdade, a gente tinha começado a vida de casado, a filha tinha nascido, a vida profissional, e você vê tudo aquilo encaixotado esperando para ir embora, e já estava pronto para ir para a estação, para pegar o trem meio-dia mais ou menos, a casa toda vazia e pararam os dois caminhões da mina com 55 empregados dentro, e fizeram uma fila na porta de casa, aí um por um me abraçou antes de eu ir embora. Quer dizer, é um negócio que nessa hora não dá para agüentar. É uma hora muito difícil. Mas foi essa experiência, daí fiquei desempregado em São Paulo, foi uma época crítica na década de 60, não havia emprego, foi uma primeira crise no setor empresarial, em 67.

MANGANÊS

Serra do Navio

Foi o projeto pioneiro, foi o primeiro projeto de mineração de estilo moderno. Uma ferrovia de 200 quilômetros, mina de manganês. Porque manganês na época era altamente estratégico para o mundo ocidental, particularmente para os Estados Unidos. Porque manganês é fundamental para a fabricação do aço, naquela época mais do que hoje, hoje a tecnologia usa menos manganês na fabricação do aço, e usava também alguns aços especiais que usam o manganês, há uma série de ligas especiais. Agora, na Guerra Fria da década de 50, a Rússia tinha reservas suficientes de manganês, e manganês na época só era conhecido no Brasil, alguma coisa no México e alguma coisa na Austrália. Então quando surgiu na década de... A implantação do Projeto Serra do Navio, os capitais americanos financiaram o Antunes para implantar a mineração. No início era a Behtlem Steel, que era a terceira siderúrgica dos Estados Unidos, junto com o Antunes, depois o Antunes ficou sozinho e a Bethlem Steel saiu. Então por isso foi feito essa primeira mineração. Hoje sem essa importância estratégica que o manganês tinha na época seria inviável fazer um projeto com aquele custo na Amazônia, a própria ferrovia inviabilizaria. Uma ferrovia de 200 quilômetros hoje fica entre 500 milhões a um bilhão de dólares, o manganês hoje vale em torno... não estou atualizado, mas deve estar valendo entre 50 e 60 dólares a tonelada, naquela época valeria em torno de 140 a 150 dólares da época. Você pode colocar no mínimo três vezes aí com a inflação americana, no mínimo três vezes. Então, seria equivalente hoje a 300 ou 400 dólares a tonelada. Hoje o manganês vale 60 a 70 a toneladas o dólar de hoje, então não teria como viabilizar a construção de Serra do Navio hoje. E a empresa encerrou o ano passado as atividades. Hoje tem a ferrovia lá, e eu não sei se ficou com o governo do Amapá, você tem a duas vilas, a vila de Santana foi integrada a Macapá e Serra do Navio eu não sei, eles iam entregar à USP, não sei o que aconteceu com a vila de Serra do Navio.

PESQUISA GEOLÓGICA

Na época não se conhecia nada, nada. Na Amazônia você tinha atividade na Serra do Navio, estava começando alguma coisa de garimpo de cassiterita e de estanho na Rondônia, e estava começando alguma coisa de ouro na região ali do Tapajós, muito pouca coisa, uns pequenos garimpos etc., o ouro naquela época estava com o preço muito baixo, então não tinha muita atividade de ouro. Você tinha historicamente algum diamante ao longo do Araguaia, Tocantins, ali na região de Marabá. Garimpo na fronteira com a Venezuela, lá em Rondônia, em Roraima, ainda naquelas serras havia naquela época algum garimpo. Houve algum ouro no passado na região do Gurupi, na região do Amapá. Macapá tinha um pequeno garimpo de ouro também. Então a atividade era só essa na Amazônia em termos de mineração, não existia nada. Os mapas da região, os primeiros mapas que a gente usou quando sobrevoava lá, os rios tinham deslocamento às vezes de 30 a 50 quilômetros nos mapas originais. Depois, no final da década de 60, surgiu o Projeto Radam que fez o primeiro mapeamento com imagem de radar, deu uma certa segurança maior. Depois mapas mais modernos feitos pelo serviço geográfico do Exército já na década de 80 que melhorava os mapas da Amazônia. Mas mesmo hoje, algumas regiões da Amazônia, você tem informação via satélite, mas informação de chão muitas regiões você não tem informação nenhuma.

Naquela época havia atividade da Petrobras também, mas como as sondas eram muito grandes, as sondas de petróleo são grandes, na época não havia helicópteros grandes ou condições de fazer estradas etc., então a pesquisa da Petrobras era toda ao longo dos rios. Então subia o Madeira, o Trombetas, outros rios lá da Amazônia, Tapajós, e colocavam as sondas na beira do rio. Então as descobertas de petróleo na Amazônia, e de gás, começaram a surgir quando as sondas começaram a sair da beira do rio e começaram a seguir dados de sísmica, etc. dados de geofísica, que permitiram você fazer o furo onde tinha que fazer, não onde você chegava com a sonda. Esse foi o grande avanço da Meridional, da Steel na Amazônia. Foi a primeira vez que você arriscou fazer pesquisa onde você não chegava via rio. A região de Carajás foi freqüentada por pesquisadores, e aqueles navegadores e cientistas que iam na Amazônia, no começo da década de 20 e na década de 30, os pesquisadores passaram na região de Carajás, pelo rio. Mas você fazendo a penetração, com estrutura, para penetrar mais que dez quilômetros o rio, você tem que ter uma estrutura de apoio muito grande, para carregar carga nas costas e etc. Então no rio você leva no barco, longe do rio tem que levar nas costas. Então não dá para fazer um trabalho muito longo, fica muito caro, muito difícil. A própria descoberta em Carajás, aconteceu um fato interessante porque no final da década de 50 começo da década de 60, eu não sei bem a data, foi feito o primeiro trabalho sério no Brasil de levantamento aereofotogramétrico, chamado Projeto Araguaia, do DNPM, foi feito pela firma Prospec. Era particular, uma empresa de geofísica de aerolevantamento, e o governo, o Departamento Nacional de Produção Mineral contratou. Esse trabalho foi sério e ele trabalhou em Carajás. Carajás foi levantado com esse trabalho, e não descobriu o ferro. Por que não descobriu? Por razões de verba o trabalho de campo ficou restrito só ao longo dos rios, só que ao longo dos rios, normalmente os rios passam as regiões mais arrasadas, mais baixas, e o que acontece? Você não tem toda a informação da geologia na região, você pode ter uma montanha do lado que é uma geologia totalmente diferente que não está junto ao rio ali. E foi o que aconteceu com Carajás. O governo perdeu uma chance de descobrir Carajás dentro de um projeto de governo porque não colocou um homem no local onde estava o ferro, e como a cobertura de canga em Carajás, ela dá origem a lagoas, e como a região que dá calcário também dá origem a lagoas, porque o calcário é dissolvido pela água, de repente aquilo há um afundamento da região que é dissolvida a acidez a água, dissolve e forma cavernas de repente a caverna afunda, e naquele lugar que afundou vira uma lagoa. É comum aí na região de Sete Lagoas que está no Bambuí, você tem aquelas todas lagoas que é justamente uma região de calcário, e chama-se uma topografia cástica. Como havia essas lagoas em Carajás, quem fez os mapas para o governo na época, a Prospec, interpretou que ali devia ter calcário e toda a região de ferro foi marcada como uma região com calcário. Então Carajás deixou de ser descoberto nesse trabalho do governo, e só depois quando veio a minha equipe trabalhar na região é que ele acabou sendo descoberto porque se precisou quem pisasse. A primeira pessoa que pisasse descobriria Carajás!

Houve um esforço planejado mas com limitações, quer dizer, sempre quando chega o trabalho de campo que é mais caro. O trabalho só deu para fazer mapeamento ao longo dos rios, pegar um lugar e ficar mapeando. Você fazer uma expedição para ir até a serra você ia levar de dois a três meses só para chegar naquele ponto. Não foi o que aconteceu depois, mais tarde, com o projeto Radam Brasil, que mapeou com imagem de radar toda a Amazônia. Ele já foi feito todo com helicóptero, usando a tecnologia que a gente desenvolveu na ocasião, pela Meridional, em Carajás. Quer dizer, quando a Meridional passou a usar com helicóptero em Carajás e ela criou uma sistemática de trabalho que depois foi mais bem desenvolvida até pelo Projeto Radam, e que trabalhou com mais helicópteros, helicópteros da FAB, helicópteros maiores, etc. Então isso tudo foi um fato que foi mudando o outro e tornou possível depois o uso do helicóptero na Amazônia.

TRABALHO

Entrada na Meridional

Daí eu fiquei em São Paulo desempregado, surgiu um único emprego num jornal, no “Estadão”, procurando geólogo. Aí mandei o currículo para a mina de Cana-Brava, da Sama, uma mina de amianto que tem em Goiás, hoje é em Tocantins, essa mina de amianto. Eram franceses, a firma era francesa, é a Brasilit, é ligado ao grupo Brasilit. Eu tinha saído da Icomi com experiência de mina, eles precisavam de geólogo para trabalhar em mina. Na época eu ganhava mil e quinhentos e alguma coisa, cruzeiro novo, cruzeiro, era mil e quinhentos e alguma coisa. Era um bom salário na época, muito bom, a média salarial na época estava em 700 eu ganhava 1500. E pedi 1500, eles concordaram, já era melhor, ia trabalhar aqui em Goiás. Para quem trabalhava no Amapá, já era metade do caminho. A cada três meses pagavam um hotel em Brasília para passar um fim de semana com a família, então tinha uma saída de lá, era possível ir de carro já, a família podia ir visitar de carro e tudo. E no dia que eu fui acertar marcar a viagem, eles falaram que infelizmente tinha aparecido um geólogo recém-formado que tinha aceito o mesmo emprego por 700. O que aconteceu? Continuei desempregado, daí comecei a procurar emprego, aquele emprego de desempregado mesmo, vender enciclopédia. Não cheguei a começar, mas já estava com os endereços todos lá. Eu tinha que trabalhar, estava três meses em casa, eu morando com meus pais, e minha mulher com minha filha morando com a mãe dela. Porque não tinha onde morar, não tinha casa. No Amapá tinha isso de bom, você tinha tudo de lá mas quando saía você não tinha nada. Não tinha móvel, não tinha nada, só tinha a roupa do corpo, porque todos os móveis era da empresa e tudo. Mas desde o início eu sabia que o Tolbert estava começando. Quando eu estava no Amapá, no Amapá ainda surgiu notícia da descoberta de manganês em Marabá, e um engenheiro que trabalhava lá era de Marabá e ele comentou: “Na minha terra tem manganês e etc. e tal.”

Mas nessa época, vendendo enciclopédia, havia um outro programa interessante que era o DNPM, Departamento Nacional de Produção Mineral, estava começando com um grande geólogo brasileiro, Fernando Marcos, Fernando Flávio Marcos de Almeida, que era da Politécnica, estava iniciando um grande programa na região de Goiás. E o Carlos Oiti Berbert, que eu falei que foi Presidente da CPRM até tempos atrás, sempre a gente acaba se cruzando, ele tinha ido para a Icomi, saído, foi dar aula em Belém, aí também estava desempregado nessa época e ele se inscreveu nesse programa. Mas eu falei: “Não, para ir trabalhar com o governo não me atraí muito trabalhar num serviço geológico, eu quero trabalhar em empresa mesmo.” De início não aceitei isso, aí fiquei aquele período de vai para Cana-Brava e não deu certo, já estava disposto a fazer qualquer coisa, abandonar a profissão temporariamente, para sobrevivência, e tinha o Tolbert, que havia notícia entre os geólogos que ele estava iniciando um programa para procurar manganês no Brasil, na Amazônia. Eu falei: “Mas na Amazônia eu não quero voltar não, tem que andar de avião e eu não quero.” Mas a coisa foi indo, foi indo, entrando em crise, e eu resolvi mandar um currículo para ele. Imagine você pegar um ex-aluno seu, que trabalhou três anos na Icomi, que só trabalhou com manganês, disponível no mercado? Quer dizer, eu mandei um currículo, no dia seguinte chegou um Western. Na época não tinha internet, não tinha nada, quer dizer, o melhor que havia, a internet da época, era o telegrama da Western. Tinha o do governo, o dos Correios, que levava uma semana até chegar, e tinha o Western, que chegava na hora. Me chamaram ao Rio para uma entrevista, e vim para essa entrevista e imediatamente fui contratado, e a ordem era morar em Belém. Eu tinha idéia de poder morar no Rio de Janeiro e ficar trabalhando, deixar a família no Rio em vez de... podia ter deixado no Rio porque só ia ficar no mato! Tanto fazia pegar o avião e vir para o Rio, mas eles queriam ter uma sede em Belém, para integrar com a cultura, integrar com a região, e fui contratado então como Chefe da equipe desse programa.

United States Steel – Meridional

Era um programa chamado BEP, Brazil Exploration Program, da United States Steel. A United States Steel tinha uma empresa de manganês aqui que se chamava Meridional, que explorava a mina de Lafaiete e a mina de Urucum, em Corumbá. A United States Steel, na época, era a maior siderúrgica no mundo, os japoneses não haviam crescido ainda. No mundo ocidental era a maior siderúrgica. O que é hoje a Microsoft. Na época a Steel era a maior potência dos Estados Unidos, quer dizer, era potência econômica. Depois ela entrou em decadência, hoje não tem essa força econômica e política da época. Havia um problema sério na época do manganês, como ele era estratégico para os Estados Unidos que não tinham reservas. Imagina o país que está em Guerra Fria com a União Soviética, que tem manganês, e o outro país não tem manganês, toda a industria bélica, tudo dependendo do manganês? E tanto que os Estados Unidos na época tinham os estoques estratégicos, eles compravam o minério e o governo estocava lá para que, no caso de crise, o país não ficasse sem manganês. Hoje não existe mais isso, que perdeu essa importância estratégica, surgiram outras minas no mundo, no Gabão, na África do Sul, e o manganês perdeu a importância estratégica. Mas na época então era fundamental para a Steel encontrar uma nova fonte de manganês, porque ela já era sócia de capitais franceses no Gabão, numa mina descoberta na década de 50. Mas na década de 60 começaram aquelas revoluções nacionalistas, a mais trágica foi do Congo Belga, que foi a primeira vez que houve violência contra os europeus, com estupro e com tudo lá, violência feia mesmo, então aquilo foi uma tragédia, a primeira vez que o colonizador era agredido pelo colonizado com mortes, com violência. Então se temia que de repente no Gabão pudesse acontecer a mesma coisa, e havia necessidade de uma fonte alternativa de manganês.

Equipe da Meridional

Porque foi chamado o Tolbert? O Tolbert era um profissional do governo americano, do Serviço Geológico Americano, DNPM de lá, já havia trabalhado no Brasil pelo Ponto Quatro, já falava português, tinha sido professor no Brasil, então o Tolbert foi chamado. Alguns geólogos, alguns profissionais que trabalhavam na Steel já haviam trabalhado no Brasil, na Meridional, conheciam o Tolbert, chamaram o Tolbert para chefiar esse programa. E ele, quando veio para cá falou: “Eu vou com uma condição, de eu poder usar geólogos brasileiros, porque se eu fui professor no Brasil, se eu não usar geólogos brasileiros isso vai depor contra o meu passado como professor.” E começou então contratando três geólogos. Fui eu para chefe de equipe, mais o geólogo Erasto Boretti de Almeida que era recém-formado em São Paulo, e o geólogo João Erdman Riter, formado em Ouro Preto, tinha um ano de formado. Essa foi a primeira equipe que começou o trabalho na Amazônia. E junto trabalhava um engenheiro de minas de Ouro Preto, Francisco Serra Lobato, figura muito interessante. Como ele era amigo do vice-presidente da Meridional aqui, o Nilton Resende, ainda vivo, e havia trabalhado num programa de governo, ele era do Conselho Nacional de Petróleo, mas fazia de vez em quando algumas consultorias. Havia trabalhado num levantamento da cassiterita lá em Rondônia e pela primeira vez usado helicóptero. Porque a Petrobras usava helicóptero mas só para transportar as coisas, ele pela primeira vez tinha usado helicóptero para transportar geólogo para fazer mapeamento. E a Meridional, pela primeira vez usou helicóptero para fazer pesquisa, fazer prospecção de uma maneira mais sistemática. A Petrobras foi a primeira a usar para transporte, esse programa do DNPM, em 66, em Rondônia, foi pela primeira vez que foi usado para mapeamento; e para prospecção, para a busca de jazida, a primeira vez foi a Meridional. E ele entrou como consultor para uso do helicóptero, e o Riter entrou porque havia trabalhado com ele lá em Rondônia nesse mapeamento, já tinha alguma pequena experiência de helicóptero. Então essa é a equipe que ia começar o trabalho na região de Carajás.

DESCOBERTAS DE CARAJÁS

Cercando Carajás

Na época não chamava-se Carajás, chamava-se região entre o Xingu e o Tocantins, porque era uma região desconhecida, e já se conhecia... havia sido descoberto manganês perto de Marabá um ano antes, em 66. Manganês na Serra do Sereno. Quem descobriu manganês lá? A história certa não se sabe, mas quem tinha tomado conta do depósito era a Codim, uma subsidiária brasileira da Union Carbide. Por que uma fábrica de pilha acaba usando manganês? Porque essa pilha, não a alcalina, aquela pilha tradicional de país de terceiro mundo, usa o óxido de manganês no processo de produção de eletricidade. Aquele miolo da pilha era de manganês, e é um manganês específico nas qualidades eletrolíticas e etc., e ela então pesquisava manganês para isso. Então tinha tomado posse desse depósito na Serra do Sereno, próximo a Marabá. Então havia três áreas na Amazônia que poderia começar o programa: no Amapá, porque havia minério de manganês, mas a suposição é que a Icomi já teria rastreado ao redor da serra para encontrar outras jazidas; em Sucunduri, que fica lá para o lado do Amazonas na fronteira com o Pará depois do rio Tapajós, mas é uma região muito índia, muito distante. Mesmo que descobrisse, como tirar manganês dali? Ia ficar muito caro! E essa região aí onde havia o manganês do Sereno, porque era uma região que daria uma ferrovia de uns 600 quilômetros, alguma coisa, para tirar manganês. Pensava-se na época em construir uma ferrovia para tirar manganês! Imaginem o absurdo! Tal a importância estratégica do manganês na época. E o Tolbert na época fez algumas incursões na região, então tratou um táxi aéreo, mas os pilotos se recusavam a entrar naquela região tão desconhecida e tão sem apoio de entrar com um monomotor.

E eu fui chamado no Rio e 15 dias depois começou o programa na Amazônia. No dia 15 ou 16 de maio, eu cheguei aqui e foi todo mundo para Belém do Pará, ficamos no Hotel Grão-Pará, no centro de Belém, e era o hotel mais novo de lá, com Vice-Presidência, com Diretoria, todo mundo para iniciar o programa. Foi feita aquela festa, todo o mundo bebeu, mas para mim foi um choque, porque na Icomi era uma austeridade tremenda, e ali no hotel todo o mundo ficou bêbado, Diretor, Vice-Presidente, todo mundo lá bebendo ali naquela hora, era uma cultura totalmente diferente, uma cultura mais americana de gestão, mais descontraída, e começamos a decidir onde trabalhar. A primeira atividade foi contratar um avião da Líder e voar a região para ver o que tinha embaixo, quer dizer, sem nada. Alguns anos depois eu caí de helicóptero, um acidente com o Ueki, que era Ministro, e o Ueki chegou para mim: “Não, esta história de Carajás está mal contada. Que Steel quando chegou aqui, imagina a potência, a Steel, já chegou com fotografia aérea, já sabia onde tinha manganês, já sabia que estava o ferro, falou que ia procurar manganês só para enganar mas ela queria o ferro. Já sabia que existia o ferro lá! Então não vem com essa história de falar que foi encontrado por acaso que não cola.” Mas não, a realidade é que foi por acaso mesmo. E o primeiro trabalho então com esse avião da Líder, foi voar onde tinha base. Então nós saímos de Belém, Marabá, Marabá ia para São Félix do Xingu, São Félix do Xingu para Altamira, depois de Altamira para Marabá, cruzando a região onde tinha aeroportos para poder fazer abastecimento. Fizemos isto em três, quatro dias. Não via nada, mas uma coisa chamou atenção: por coincidência algumas linhas de vôo passaram em cima de clareiras, então, imaginem. Hoje você acha uma clareira na mata, nem desconfia porque tem tanto desmatamento na Amazônia que você pensa que é desmatamento. Mas naquela época, que não tinha uma mancha sem vegetação, de repente você pega uma serra sem vegetação em cima, aquilo chama atenção. Do verde escuro você passa para o verde claríssimo ali, aquele verde palha, então aquilo chamava atenção. E também por coincidência uma linha de vôo, que vai de Marabá para São Félix do Xingu, ela passou em cima duma pista de pouso que era uma aldeia indígena. Aldeia dos Xikrin no rio Cateté, um dos formadores do rio Itacaiúnas. O que deu para se observar dessa linha de vôo foi só isso.

A Amazônia do descobrimento

Então só existia de vazio nessa área naquela época, fora as cidades de Altamira e Marabá e São Félix do Xingu, que era uma rua, que era pista de pouso e rua, e uns barracos do lado, não havia mais nada. No sul você tinha Redenção, que estava começando e também Conceição do Araguaia, o resto era só selva. Você viajava de Belém a Marabá no meio da selva, não via nada. Saía de Belém era selva até Marabá, não tinha rodovia, não tinha nada. Então, ao chegar nessa área, você via esses dois fatos só, marcantes, duas clareiras, duas naturais e essa da pista. E o outro fato que aconteceu foi num vôo de Altamira para São Félix do Xingu. O rio Xingu faz uma curva em linha reta seguindo pelo interior. Nós passamos em cima de uma aldeia de índios, os índios todos saíram para fora e nós ficamos sabendo depois que essa aldeia não tinha contato com a civilização. Eles foram aculturados por ocasião da Transamazônica, os índios Açurinis. A maior parte dos índios da Amazônia são os Caiapós, não são do grupo Tupi, e esses Açurinis são do grupo Tupi. É um núcleo dos índios Tupi que tem lá, e aquilo nós fotografamos, a aldeia do avião, e eles praticamente não tinham contato nenhum com a civilização, foi a primeira vez... Então a Amazônia, em 67, o homem estava chegando à Lua, isso está 500, 600 quilômetros de Belém do Pará, não é nada absurdo. A Amazônia era essa apenas quatro, três décadas e pouco atrás. Esse companheiro meu, Roberto Assad, ainda outro dia estivemos juntos e ele comenta: “Olha, nós tivemos uma sorte muito grande. Nós vivemos esse momento, nós vivemos a Amazônia do descobrimento, praticamente quase tão intacta quando na época do descobrimento, para a Amazônia do jato, do satélite, da internet.” Em três décadas a região mudou, quer dizer, quem tivesse vivido a década de 20, era só a Amazônia do descobrimento, quem vivesse só agora, já é uma Amazônia diferente, uma Amazônia já violentada. Nós fomos artífices da violência da Amazônia também. Porque nós contribuímos para que a Amazônia fosse violentada, mas nós vivemos esse momento, momento histórico único, que aconteceu pelo menos na Amazônia ali da região do Pará, do sul do Pará etc. Há outras áreas da Amazônia que continuam iguais ao descobrimento, embora a tecnologia hoje ia ser diferente.

Na época era uma utopia, a utopia do Eldorado, depois se confirmou que algumas regiões realmente são ricas, outras são desconhecidas, e outras realmente não têm nada, já foram pesquisadas e não têm nada. O Tolbert sempre falava com a gente: “Não é pelo fato de uma região ser desconhecida que significa que ela seja rica.” Não adianta, quer dizer, ela tem que ter alguns atributos para depois acontecer. Hoje você tem meios para pré-selecionar a área antes de ir, naquele tempo não. Você tinha que ir com martelinho lá, se você não chegasse, se você não tropeçasse na jazida você não descobria, hoje não, você pode descobrir a jazida, ou ter indícios de que tem a jazida, antes de chegar no local. Então esse impacto inicial de ver uma região, você está sobrevoando aquela região e depois falar: “Eu vou ter que trabalhar aí embaixo.” Aquela imagem de índios te esperando atrás de cada árvore, de cobra enroscada em cada galho, de onça te espreitando no acampamento. Outro dia passou na Globo uma história real de leões, era uma construção de ferrovia na África, quer dizer, nós não tivemos nada disso. O máximo que nós chegamos a ver foi pegada de onça, cobra encontramos umas quatro ou cinco vezes andando no mato, tem mais cobra aqui na Serra do Mar do que lá. Índios, os contatos que eu tive foi com aldeia, uma ou outra vez, houve algum indício de índio na picada, fechava com cipó para indicar que a gente tinha que abandonar a área, mas muito pouca coisa.

Um desconhecimento que assusta. O desconhecimento ele assusta e fascina ao mesmo tempo, quer dizer, ele te desafia mas ao mesmo tempo ele te apavora. Então você vive nesse conflito de enfrentar o medo para poder conhecer a região. E havia o risco maior, o medo maior que era o dos helicópteros que a gente voava.

Encontro com os índios

O que existia na região? Imaginem duas linhas norte-sul, que são Tocantins e o Xingu. Para vocês é o contrário, aqui está o Xingu aqui está o Tocantins, só o Garcez da Varig é que não sabia que o Tocantins é norte-sul e viajou no leste-oeste e se perdeu com aquele avião, só ele não sabia que era norte-sul. Imagina uma pessoa sair numa direção norte-sul no final da tarde e, com o sol na cara não perceber que o vôo está errado. É coisa que não dá para saber, quer dizer, se fosse uma linha noroeste e tal, mas norte-sul o sol foi na cara dele o tempo todo e ele se perdeu. Bom, felizmente isso nunca aconteceu com a gente, pelo menos a norte-sul a gente sabia naquela época.

Lá existia Altamira mais ao norte e a oeste, na ponta noroeste, Altamira num quadrilátero e aqui embaixo Marabá na parte Sudeste do quadrilátero, e a sudoeste um pontinho que chamava São Félix do Xingu. Marabá tinha dez mil habitantes na época, não tinha ninguém, você só entrava em Marabá na época da chuva de barco, um barco que levava uma semana até Belém, ou de avião DC-3, as linhas regulares, ou avião fretado. Não tinha estrada, não tinha nada. Ferrovia nem pensar. Você não saía de Marabá, um ponto isolado. Altamira era onde você só chegava de barco e avião também, as estradas iam dez quilômetros da cidade só, para algumas fazendas e acabavam. E Altamira dez mil habitantes, uma companhia americana, a Union Carbide com escritório lá. O Tolbert então achou que seria uma agressão ter uma cidade com duas companhias americanas, embora a cidade fosse a melhor localizada e optou por colocar a sede em Altamira. Na ocasião daquele sobrevôo que a gente fez com os aviões em maio de 67, optou por colocar a sede em Altamira. Aí alugamos uma casa, fizemos um pré-contrato com a senhora lá e tal, e fomos fazer um vôo para Jacareacanga para ver se a região de lá interessava, lá pelo Tapajós já, no último dia. Quando nós voltamos desse vôo, estava voando com a gente o dono da companhia de helicóptero, um americano playboy, o pai dele o expulsou dos Estados Unidos e deu um dinheiro para ele montar alguma coisa no Brasil, e ele montou uma companhia de helicópteros. Montou aqui no Rio de Janeiro e era a única empresa de helicóptero que tinha no Brasil, chamada Helitec. Helicópteros que ele comprou de sucata, velhos, caindo aos pedaços etc., esse é um outro caso a parte desse cara aí, Lewis Nol, o nome dele. Ele então ia voar com a gente para ter idéia de como ele ia operar com os helicópteros na região. Só que o chefe da Codim da Union Carbide era outro americano amigo dele também, então tudo que ele voava com a gente ele telefonava para o chefe dele para ver se vendia, alugava os helicópteros para o outro, para fazer concorrência. Então todos os nosso lances ele ia passando para o outro.

Quando nós chegamos de Jacareacanga, a casa que a gente ia alugar já estava alugada pela Codim. O que a Codim achou? Eles estavam em Marabá, daí sabem que a poderosa United States Steel, a maior siderúrgica do mundo, vai colocar uma base em Altamira, e ela só estaria colocando lá se ela tivesse idéia que tinha manganês mais próximo do rio Amazonas. Então eles falaram: “Bom, nós temos que correr antes, porque senão a Steel vai achar manganês antes da gente e em situação muito melhor.” Então eles saíram de Marabá e mudaram para Altamira. Para nós não tinha mais Marabá, porque Marabá eles ainda tinham um escritório lá, Altamira não podia e sobrou São Félix do Xingu. Aí o desespero baixou. Porque nessas duas cidades, a gente tinha uma cervejinha, tinha... São Félix do Xingu não tinha nada, nada. Pessoal com lepra, tuberculose, malária na cidade toda. Aí houve uma reação dos geólogos, eu, o Erasto, que já estava trabalhando junto, e sugerimos que era melhor ficar numa base no meio do rio. Aí saímos um dia lá já no mês de junho, com o Tolbert, um aviãozinho fretado lá em Belém, andando no rio Xingu. E mais próximo de São Félix do Xingu, passamos uma ilha onde tinha um lugar mais ou menos agradável, mais ou menos interessante, e a gente pousou numa pequena pista num seringal, na Ilha de São Francisco do Xingu, e lá decidimos colocar nossa base. Então passamos a ficar no meio do mato mesmo, não tinha rádio, o avião às vezes ia para Belém ou o piloto ficava doente e não voltava mais, e a gente não sabia se o avião tinha caído ou se o piloto tinha morrido, não sabia de nada, qualquer comunicação não tinha nada lá. Nada, nada! Isso mudamos no mês de junho, e no início de julho dois fatos foram marcantes: a chegada dos helicópteros, os dois helicópteros que iam trabalhar com a gente e a divulgação daquelas fotografias áreas daquele projeto do governo, o Tolbert comprou. O governo tinha colocado disponíveis ao público e a empresa comprou e levou para lá. Mas quando chegaram aquelas fotografias, nós olhamos a morfologia ao redor daquela nossa base, e a autonomia do helicóptero era 100 quilômetros. Uma hora de vôo. Ele voava duas horas, então você só podia se deslocar, sem fazer outra base, num raio de 100 quilômetros. Você tinha que ter combustível para ir e voltar, isso ainda com um certo risco. E olhando ao redor da ilha que a gente estava, o tipo de morfologia que indicava o tipo de rocha não dava idéia nenhuma de ter depósito de manganês e até hoje, com exceção de cassiterita e ouro, não foi nada encontrado naquela região. Então nós ficamos no dilema: “O que adianta trabalhar nessa região?” E começou a haver uma discussão de mudança da base antes da base ficar concluída, e quando ela ficou pronta ela não foi usada. Ela não chegou a ser usada quando ela ficou pronta! E outra coisa, aquelas clareiras que a gente tinha passado acidentalmente, a gente começou a verificar é que havia enormes clareiras na região, e começou uma discussão com o Tolbert, com o Erasto, etc.: “Por que tem essas clareiras?” Então a posição do Tolbert era que teria sido clareiras de índios, e a gente falava: “Tolbert, não pode ser clareira de índio.” Porque se a gente olhar mais, que nós passamos em cima, a forma é mais ou menos igual a que está hoje. E na Amazônia, numa roça de índio, a mata logo depois de alguns anos ocupa, muda a forma da clareira. “Então explica por que?” Eu falei: “Não sei.” Eu nunca tinha trabalhado com ferro, minério de ferro, então não conhecia a morfologia do minério de ferro, e falei: “Tem algum tipo de rocha que não nasce vegetação em cima. É a única explicação que existe é essa.” Mas ninguém sabia o que era, e resolvemos então mudar de base. A primeira idéia então foi aquela pista dos índios que a gente tinha passado e que ficava bem no meio das serras ali, ficava num lugar ideal no meio das serras todas. E aí resolvemos ir pegar um avião que trabalhava com a gente, o Saião estava lá, foi lá para dar início a operação de helicóptero e achou boa a idéia de mudar e saímos num monomotor para ir até a aldeia dos índios já no meio ali da região de Carajás.

Isso foi na penúltima semana de julho de 67. Foi o primeiro choque também. Na primeira vez que você desce numa aldeia de índios, ainda mais a gente com a visão de São Paulo, de repente você desce e vem aquele monte de gente pelada do teu lado, homem e mulher, todos pelados. É um choque! Você fala: “Realmente existe um pessoal que vive totalmente diferente de como eu vivo, e não é coisa de cinema. Existe mesmo! Está aí.” Aquilo foi um impacto emocional e cultural muito forte! Era período de caça e estavam com uns rituais e tinham ficado na aldeia alguns jovens recém-casados só, que estavam em lua-de-mel, e eles tinham um ritual também de ficar na aldeia e existia um padre francês que tomava conta de lá, havia construído a aldeia. Ele morava em Marabá e nesse dia, ele e um funcionário do SPI estavam lá. Na época não era Funai era SPI, Serviço de Proteção ao Índio. E eles logo concordaram e arrumaram até um lugar para guardar combustível de helicóptero, era um barraco, eles faziam o cemitério coberto com tapiri, com um pequeno rancho de palha. E eles nos cederam o barraco do cemitério para guardar o combustível. Isso no primeiro contato. Mas eles lá mantinham uma fogueira, uma espécie de fogo sagrado, permanentemente aceso lá onde era o cemitério. Hoje eu acho que não tem mais esse costume, na época eles tinham, naquele lugar ficava sempre uma fogueira acesa para proteger os mortos. E nós falamos: “Colocar...” “Mas não tem problema, daí a gente apaga porque tem um motivo para apagar.” Eles já estavam começando a pegar um pouco da nossa cultura, um trabalho a menos. E estava tudo combinado até que um índio que falava português, garoto, falou que rio abaixo no Itacaiúnas tinha uma pista muito boa, um castanhal e que lá talvez fosse melhor. Aí nós ficamos entusiasmados, porque você ficar trabalhando numa aldeia de índio ia ficar meio complicado.

Era uma pista de 250 metros, construída num castanhal. E a gente tinha que trabalhar na construção da pista. Aí nós saímos com o avião, de cima você olhava parecia tudo arrumadinho, retinho, ainda era nova. Quando o avião pousou, era toda irregular, o avião dando pulo, quase a gente foi parar no meio do mato e veio o capataz assustado, vendo o avião pousar lá. Quem é esse pessoal que está pousando aí? E no primeiro contato com o capataz, depois de se cumprimentar, eu falei: “Mas esta pista está muito ruim, os pilotos não reclamam dessa pista?” Ele falou: “Não doutor, ela ficou pronta a semana passada e é o primeiro avião que está pousando.” Sem querer nós inauguramos essa pista! O lugar chamava-se Castanhal do Cinzento, porque é um pequeno afluente do rio Itacaiúnas, chamado Cinzento Itacaiúnas. E resolvemos então mudar para essa pista, uma coisa fabulosa, porque essa estava no meio da geologia ali. Nós estávamos ali no quente, não sabíamos o que tinha ali, mas sabíamos que estávamos no quente. Para você ter uma idéia, essa pista está a uns 20 quilômetros do início do ferro de Carajás, está a dez quilômetros da mina de cobre do Salobo, a 20 quilômetros da mina de ouro de Igarapé-Bahia, a uns 30 quilômetros da mina de manganês de Buritirama e a uns 30 quilômetros da mina de manganês do Azul.

Não sabíamos, mas a gente estava no meio ali. E aí surgiu um problema. Autorização. Voltamos para o castanhal, o Saião foi embora e falou com o Tolbert que tinha encontrado um lugar bom e o Tolbert veio para negociar a nossa mudança. E saímos então do Xingu, naquela época do Xingu a gente saía num Cesninha, e surgiu na época uma pessoa muito interessante. Aquelas pistas do Xingu surgiram porque surgiu um avião na região, quer dizer, ao contrário do Tubarão, que surgiu o navio porque tinha o porto. Lá as pistas surgiram porque apareceu um avião. E esse avião dava de apoio, quando havia algum ferido, algum doente, e ele se tornou um grande amigo, mas era o antiecólogo por excelência. Ele era um contrabandista, um comerciante na época, não era contrabandista, mas ele levava da Amazônia para o Nordeste, para que depois fosse exportado para a Europa, peles de onça e de gato maracajá. Então matavam o gato, os caçadores, e ele passava nas aldeias na região e comprava, com o avião dele levava para o Nordeste, lá do Nordeste era exportado. Ele era do Piauí. Adão Coelho de Barros, e era um piloto quase autodidata, tinha um curso de pilotagem, o aviãozinho dele só tinha bússola, não tinha mais nada. Bússola, motor, hélice e asa, não tinha mais nada, nenhum instrumento só, nada mesmo. Mas era conhecedor da região e aos poucos nós começamos a contratar aquele avião, além da companhia de táxi aéreo da Helitec que voava com a gente, e ele começou dar apoio para a gente lá. E para voar região eu preferia voar com ele. Que ele conhecia árvore seca, galho quebrado, ninho de passarinho, ele voava desse jeito na região, conhecia tudo. Eu aprendi a me orientar na Amazônia com ele, ter essa orientação espacial. É muito difícil você aprender a se orientar, então você, depois de um certo tempo, se orienta, cria coordenadas pelo relevo e vai se orientando na região.

Daí fomos a Marabá. A primeira vez, o dono do castanhal não estava lá, Demóstenes de Azevedo Filho, nome Demostino, era um coronel da região, um coronel de castanhal. Marabá vivia de gado, que saía carne de avião, ou de castanha, que saía de barco na época da cheia. A produção de castanha-do-pará. Era o maior produtor de castanha-do-pará do Estado do Pará. Marabá. Hoje a maior parte das castanheiras foram destruídas. Depois voltamos, foi o tempo de você viajar quase 300 quilômetros de Marabá para o Xingu de avião, levava três horas de vôo no aviãozinho para lá e para cá. Quase três horas, duas horas e meia. Aí, na segunda vez, não sei por que o Tolbert não quis ir, foi o Tolbert e mais o piloto, e mais o geólogo para acertar com o Demostino. Aí o Demostino recebeu mal, e falou que não, que ninguém ia entrar lá, que a Codim já tinha tentado usar, que não queria companhia trabalhando lá, que no fim ele ia acabar perdendo castanhal se alguém entrasse lá e tal. Que se entrasse ele passava fogo. O Adão, que era também da região, piloto nosso, falou que ele também andava armado, e que se fosse para dar tiro ele também dava. Ficou aquele clima, aquele clima, aí o Tolbert voltou e ficou. O Tolbert tinha uma instabilidade emocional muito grande, ele ficava, de vez em quando, numa depressão. Quando tinha problema ele entrava em depressão e ficava terrível lidar com ele. Era uma figura humana fabulosa, mas quando entrava em depressão era terrível. Aí entrou em depressão e começou a ficar agressivo com todo o mundo, e dali uns dois dias falou que eu fosse lá tentar negociar. Eu não entendia porque na primeira vez ele não tinha me levado, não sei, eu era chefe da equipe. Ele quis negociar diretamente. Não sei por que, decerto por achar que ele ia negociar melhor, alguma coisa assim, mas eu fui para lá. Imagine? O cara já te ameaçou dar tiro e você chega em Marabá num dia a tarde lá, e fui falar com o Demostino.

Então inicialmente eu não falei nada. Convidei ele para tomar uma cerveja no bar, comecei a bater papo com ele, e aí ele começou a ficar mais descontraído, mas falou: “Breno, não vai ninguém entrar lá, eu não quero, começa a entrar gente de fora, ainda mais que é gringo, vai me dar problema. Não quero nada disso lá, então não é nada pessoal.” Até que tratou bem o cara. Mas eu tinha uma carta na manga, que podia ser um suicídio ou não. Eu tinha, na Icomi, um amigo que era de Marabá. Era o engenheiro chefe da ferrovia, o Luís Ortiz Virgolino. O pai dele tinha sido Prefeito em Marabá, ele se formou em Belém e foi trabalhar na Icomi. Aí tinha essa carta na mão, quando já estava na despedida eu falei: “É pena, porque eu pensei que algum dia pudesse vir trabalhar em Marabá, que eu tinha um amigo na Icomi, que falava muito de Marabá, falava muito bem daqui e tal e estou vendo que eu não vou poder trabalhar aqui porque não vai ser possível.” Ele falou: “Quem é teu amigo da Icomi?” Eu falei : “O Luís Ortiz Virgolino, o pai dele foi Prefeito daqui.” “O Luís? Meu colega de infância, jogamos bola juntos, não sei o que lá e tal, pá, pá, pá, pá. Amanhã a gente vai lá no castanhal e vocês podem entrar.” Quer dizer, um fato desses, pouca gente sabe que esse fato ocorreu! Eu coloquei numa crônica outro dia mas até essa data pouca gente sabia. Como a história é feita de pequenas coisas! Ou seja, você tem os grandes fatos históricos que depois ficam documentados, mas sempre, por trás de um grande fato histórico, tem um pequeno detalhe que muda a história. Quer dizer, esse fato levou à descoberta de Carajás. Se não tivesse havido esse fato, depois com satélite, com o Radam, alguns anos depois Carajás ia ser descoberta, não ia estar até hoje lá de jeito nenhum. Porque era tão fácil que ele ia ser descoberto, mas ele acabou sendo descoberto pela Steel por causa de um pequeno detalhe, esse pequeno detalhe.

A Descoberta de Carajás

No dia seguinte então o Demostino autorizou e nós fomos lá. Acertamos um aluguel pela pista e começamos a mudança do Xingu. O avião do Adão saía da ilha do Xingu, levava a equipe e material, e ia para Altamira abastecer, trazia combustível dentro do avião, saía de novo, fazia esse triângulo. Porque não tínhamos combustível no Xingu, então ele tinha que fazer o triângulo, o aviãozinho fazer esse triângulo com pernas de mais ou menos 300 quilômetros, duzentos e poucos quilômetros, fazendo essa triangulação para fazer a mudança. E chegou o dia de mudar o helicóptero, daí surgiu o primeiro impasse. O vôo dava mais ou menos umas duas horas de helicóptero, contra o vento, com autonomia do helicóptero de duas horas. E helicóptero cair na mata é pior do que um avião porque não tem nem asa, então quando cai na mata ele afunda, nunca mais ninguém acha. Nunca mais ninguém acha! E eu, como Chefe da equipe, me julgava na obrigação de fazer o vôo com o piloto, não mandar outra pessoa para fazer o vôo, então eu tinha a responsabilidade de fazer. Eu estava com a equipe lá, e o Tolbert falou: “Faça a mudança.” Autorizou, foi para o Rio e eu comecei a fazer a mudança com a equipe lá, na última semana de julho de 67. Aí dois fatos também que ajudaram. No dia em que eu fui admitido no Rio pelo Tolbert, tinha um mapa antigo do IBGE, aquele mapa que era todo meio torto, e de repente ele falou a região que a gente ia trabalhar e vi que ali tinha pouco rio e eu falei: “Como eu vou me orientar nessa região?” Aí, acidentalmente eu olhei, e tinha o rio Itacaiúnas que cortava leste-oeste, e lá do outro lado tinha o rio Xingu, rio Fresco, e saía um pequeno afluente do rio Fresco chamado Icarapanã, e no lugar da cabeceira dos dois rios, no afluente de Itacaiúnas, e no afluente do rio Fresco, quase se juntavam. O Itacaiúnas era afluente do Tocantins e o rio Fresco do Xingu, então dois rios secundários, e o terceiro rio, os dois terceiros rios, o Cateté e o Carapanã quase juntavam. Então, na visão intuitiva eu falei: “Bom, se eu me perder nessa região...” A idéia simplista de quem está no Rio de Janeiro, imagina? “... Esses dois, têm um eixo hidroviário aqui nessa área.” Então, quando chegou a hora de deslocar o helicóptero, esse eixo veio na minha cabeça e falei: “Se eu vou voar aqui sem nunca ter voado...” – era o meu primeiro vôo de helicóptero, eu nunca tinha voado de helicóptero – “... eu vou voar num lugar que se eu cair alguém pelo menos sabe onde procurar.” Só que daí tinha um problema, o vôo em linha reta dava duas horas, e desse jeito dava quase quatro horas. Então o jeito era levar a gasolina do helicóptero no bagageiro, e cada lugar que você encontrasse uma possibilidade de pouso, você descia e abastecia. O que significava isso? Que você tinha mais uma hora pela frente, que se não conseguisse pousar, voltava àquele lugar de novo. Então a cada 15 minutos que você voava, você ganhava mais 15 minutos. Então foi desse jeito. A gente saiu, foi até São Félix do Xingu, abasteceu, depois do rio Fresco pousamos num pedal no meio do rio, abastecia. No Icarapanã encontramos uma pedra no meio do rio, descemos, e no divisor de águas, quando se ficava sem rio nenhum, existia uma serra muito bem marcada, bem alcantilada e com uma pequena clareira que a gente via nas fotografias, semelhante às outras, só que menor. Então essa clareira foi escolhida também como um ponto de reabastecimento. Quando o helicóptero começou a baixar, tem um arbusto chamado canela-de-ema que tem muito em Goiás, em Tocantins e lá também tem. Parece uma pequena palmeirinha, e o piloto Aguiar, já falecido, que voava comigo e já tinha mais de 50 anos, ele me chamava de chefinho porque eu tinha 27 anos e eu era chefe dele. E ele falou: “Chefinho, olha o rotor de cauda para ver se não bate no arbusto.” E o helicóptero começou a baixar e, quando começou a baixar, aquele mundão de canga de minério de ferro, aquele negócio preto ali no chão, e eu comecei a ficar entusiasmado com aquilo e me distraí, então o rotor de cauda bateu numa pequena árvore, um pequeno arbusto. O Aguiar falou então um sonoro palavrão, me deu uma bronca por não ter olhado, e foi mais para a frente. Então eu olhei direito, pousamos, e daí é imediatamente um raciocínio simples. Se minha neta pousasse lá ia falar: “Será que as outras clareiras também são de minério de ferro?” Um negócio assim primário! E depois, quando muitas pessoas me entrevistaram a respeito da descoberta e falaram: “O que você ganhou com a descoberta de Carajás?” Eu falei: “Ganhei aquele momento.” Não tem preço! Você, como profissional da área, de repente você não sabe mas sente, eu não sabia que estava descobrindo, mas sentia que estava descobrindo algo muito grande. Quer dizer, aquele momento, você sozinho com o helicóptero no meio da selva sem nada em volta, e viver aquele momento, não tem preço. Não tem preço nenhum. Daí nós decolamos, e o Aguiar deu outra sugestão bem absurda, bem surrealista, que ele não ia desligar o motor do helicóptero para ver o dano por dois motivos: primeiro que poderia ser que depois o motor não pegasse, que a gente sempre tinha problema de magneto na partida, que nem sempre o motor pegava então de repente aí não conseguiria sair dali. O outro helicóptero não estava funcionando, então não tinha como sair daquele lugar. A pé nem pensar! E segundo, se ele visse que o dano tinha sido muito grande, ele ia ficar sem condição psicológica para decolar, então só havia um jeito: ir na loteria. E vai decidir o quê? Está decidido! Tem só uma solução. Aí nós decolamos daquele lugar, e o trecho mais crítico foi enquanto a gente tinha saído do Carapanã, estava na selva, e tinha que pegar o rio Cateté. Porque chega no Cateté o pior que acontecia era cair no rio. E no rio a gente, bem ou mal, ia seguindo o rio e íamos chegar na aldeia dos índios, onde a equipe estava nos esperando, o avião do Adão estava esperando, combustível etc. e tal. E para afastar o medo, porque a gente estava com medo, os dois estavam morrendo de medo, não vou dizer que não. Não tem herói sem medo! E naquele momento, tanto ele que era experiente, foi um dos pilotos de helicóptero pioneiros do Brasil, estava morrendo de medo, como eu estava morrendo de medo por ser o meu primeiro vôo. Então o que nós encontramos para espantar o medo foi cantar, porque cantando o tempo ia passando, então naquele vôo que durou uns 20 minutos até chegar na aldeia a gente foi cantando: “Vamos passear na floresta enquanto o lobo não vem.” O lobo era o helicóptero cair. Isso a gente foi cantando, cantando, e felizmente conseguimos chegar na aldeia. Na aldeia dos índios, abastecemos, contamos já o que tinha acontecido para a turma, os geólogos não estavam lá, estava só a equipe de piloto, mecânico. Olharam o dano e acharam que o dano não era muito crítico e decolamos. Com dois minutos fora da aldeia houve um pane, não no acidente, mas um pane no motor. O motor começou a ratear, o magneto começou a falhar, o helicóptero começou a ficar bambo e nós conseguimos voltar para a aldeia e pousar de volta e prosseguimos a viagem até o castanhal no avião do Adão. Dois, três dias depois, o geólogo Riter foi com o piloto buscar o helicóptero e para ir fazendo mapeamento do rio Itacaiúnas até chegar no Castanhal, pegando amostra, etc. e tal, e quando chegou de noite, ele não chegou. Aquela batida no rotor de cauda trincou o eixo do rotor de cauda, e o rotor estava virando. No dia 2, quando eles foram fazer o traslado, depois consertar o motor, o eixo rompeu em vôo e no dia seguinte eles tinham desaparecido. Eu saí com o piloto Adão e sobrevoamos o local, eles tinham conseguido descer no meio de uma pedra e tinham passado a noite em cima da pedra. Nós jogamos remédio, bilhete para eles e um barco foi buscá-los naquele local. Quer dizer, poderia ter acontecido com a gente quando a gente decolou da área, e caído na selva, e eu não estaria aqui para contar a história, nem o piloto, quer dizer, então as coisas acontecem...

O inacreditável Carajás

Quando eu cheguei lá com os dois geólogos e mostrei as amostras, a reação foi a seguinte: “Isso estava aí, só esperando a gente chegar para descobrir. Conta outra que essa não dá. Não dá para acreditar que alguma coisa está aí dando sopa. A gente nem vai contar isso para os outros que o pessoal vai dar risada da gente.” Aí eu falei: “Mas a gente tem que falar para o Tolbert! Como não vai falar para o Tolbert? Tem que contar!” “Mas não pode ser! A gente tem que ter mais provas.” E nesse dia, parece que foi 4 de agosto, a descoberta foi dia 31. Dia 4 de agosto, justamente quando eu fiquei para ir para Belém depois que o helicóptero fosse recuperado, e o helicóptero caiu com o Riter no meio do rio. Na mesma viagem que eu fui levar o rancho, abria a porta e jogava uns sacos encauchados, isso que eles usam agora de couro sintético. Naquele tempo a Amazônia já usava, eles pegavam um saco de algodão e colocavam a borracha em volta, o látex, e fazia um saco impermeável. Isso a gente usava para jogar rancho no rio, amarrava, ele flutuava quando caía no rio e eles puderam pegar. Nesse dia então fui a Belém para falar com Tolbert. Havia um detalhe, a viagem hoje você faz de jato em uma hora de vôo, levava quatro horas e meia naquele aviãozinho.

Ele decolava e falava Altamira está para cá, Marabá para lá, Belém está no meio. E ele ia no meio e acabou. E tinha que chegar em Belém cedo porque se chegasse tarde era hora da chuva das duas horas em Belém, então com temporal não podia chegar. Às vezes tinha o problema de sair do castanhal, a neblina subia de manhã cedo, assim que o sol saía a neblina do rio subia e ela só liberava as montanhas depois das dez horas, aí você chegava a tarde em Belém na hora da chuva. Então a gente decolava à noite do Castanhal e ia um cara com uma lanterna na cabeceira e o aviãozinho decolava, várias vezes eu fiz essa viagem para Belém com o sol nascendo já lá em cima num aviãozinho.

Seguia só pela orientação do sol, alguma coisa assim. Mas cheguei em Belém, você ia na Radional, porque não tinha telefone comum, e você ia numa cabine lá na própria telefônica, Radional, aí esperava umas duas horas para surgir linha, daí falei para o Tolbert: “Tolbert, a Steel não se interessa por ferro?” “Ah, não, ferro tem muito no mundo.” E eu falei: “Porque, lembra aquelas clareiras? Eu pousei numa pequena clareira e é só minério de ferro, talvez as outras... certamente as outras também são etc. e tal.” E levei a fotografia da área onde estava a clareira, e falei para ele: “Você olha uma clareira que está na foto tal, numa serra arqueada.” Porque a serra tinha a forma de arma. E hoje você pega qualquer mapa do Brasil e está lá o nome Serra Arqueada, ela foi batizada na hora de um telefonema, que você tinha que falar para a pessoa que serra que era aquela serra arqueada, e o nome de hoje ficou Serra Arqueada. Quando o Radam veio mapear toda a região, a Serra não tinha nome então pegou os mapas da companhia que estavam como Serra Arqueada e ficou esse nome para sempre. E dessa forma ocorreu a descoberta de Carajás.

Para minha surpresa, na conversa com o Tolbert, que a gente estava entusiasmado, com receio que aquilo tudo fosse uma ilusão, porque a gente achava que se fosse verdadeiro era grande demais. E estava aquela dúvida entre o entusiasmo de ter descoberto alguma coisa grande e o medo que tudo fosse um blefe, fosse uma brincadeira da natureza com a gente. E quando eu conversei com o Tolbert, falando que devia haver realmente muito ferro na região, mas talvez eu não tenha sido muito claro do quão grande era, talvez com medo de dar uma gafe, falei que havia muito, muito... A resposta foi muito fria: “Que ferro não interessava, que a empresa já tinha a sua jazida de ferro e que o objetivo continuava sendo manganês, e que continuasse o trabalho voltado para o manganês”. E voltei para o acampamento e continuamos o trabalho com manganês. Havia um problema sério naquela época. Eram os helicópteros. Helicóptero era muito velho. Eles ficavam três dias parado, às vezes uma semana parado, e depois funcionava, e toda vez para sair do chão era um check do helicóptero muito rigoroso, você testava tudo e muitas vezes saía um pouquinho do chão, depois voltava e ficava mais um dia parado. O mecânico ia lá, desmontava o helicóptero para depois poder voar. Então a ida às clareiras grandes de Carajás demoraram um pouco, porque nós resolvemos, para evitar alguma surpresa maior – um helicóptero já tinha ficado em Itacaiúnas – só operar quando tivéssemos dois helicópteros em condições de operar para ir às clareiras de Carajás. Daí surgiu um outro fato novo que passou a dar mais segurança sobre o potencial de ferro que tinha lá em Carajás. O Tolbert ainda não tinha ido a Carajás. Nós estamos pegando a primeira quinzena do mês de agosto de 1967. O Tolbert tinha um amigo americano, geofísico, que trabalhava numa empresa que é hoje a Lasa. Era ligada à antiga Cruzeiro do Sul, na época, que fazia levantamentos aerofotogramétricos e geofísicos etc. E eles estavam trabalhando para a Petrobras, na época, no Maranhão, fazendo o reconhecimentos aeromagnéticos para a Petrobras para procurar campos de petróleo. E esse helicóptero tinha que ir para Belém para revisão. O helicóptero não, o avião DC 3, tinha que ir a Belém fazer uma revisão na parte mecânica. O Tolbert conseguiu com esse amigo fazer um contrato por baixo do pano e, enquanto o avião estivesse oficialmente em revisão em Belém, fazer uns vôos aeromagnéticos onde estava se fazendo a pesquisa. Mas sem pensar nada do ferro. Não estava nem preocupado com o ferro. A idéia do Tolbert era que poderia existir alguma rocha magnética associada às ocorrências de manganês já conhecidas, e que depois pudesse pegar essa mesma rocha magnética em outros locais e daí verificar se, onde havia essa rocha magnética, também tinha manganês. Isso então foi feito na região de Carajás, nós voamos dois dias, e também na região do Amapá, voando em cima da mina de Serra Navio para verificar se aquele trend de Serra Navio seguia mais para a direção das Guianas, e se não havia outras ocorrências de manganês na região do Amapá. Era um vôo interessante, eu fui escalado para voar junto com o Tolbert, em um DC 3 onde tinha duas ou três cadeiras dentro do avião e o resto era só equipamento. Se voava muito baixo, era bastante assustador, porque era obrigado naquela época a voar a 150 metros de altura do solo, num avião DC 3, e as serras lá na região você chega a ter um desnível de 400, 500 metros na região de Carajás. Então você ia e quando chegava perto da montanha, o piloto dava toda a potência, passava raspando a montanha e quando você chegava do outro lado, cortava, reduzia o motor e descia do outro lado, que nem uma montanha-russa com avião. Para quem não gostava de voar como eu era uma experiência bastante interessante. E o avião balançando. Eram vôos que demoravam seis, sete horas de vôo fazendo isso, um pente de linhas, fazendo levantamentos. Abastecia o avião em Marabá e ficava quase o dia todo voando em Carajás ou no Amapá também. Quem não se prevenia com esse comprimido de mulher grávida acabava vomitando o tempo todo. E quando chegou em Carajás a primeira vez, passou em cima de uma clareira, o aparelho disparou. O cara mudava de escala e a agulha pulava para fora do papel e mudava de escala tal o magnetismo que tinha lá. Mas mesmo assim o Tolbert não se impressionou muito porque estava muito ligado naquela teoria de procurar o trend para o manganês. Mas aquilo foi uma comprovação de que a quantidade de minério que tinha ali era muito grande, para influenciar tanto a agulha daquela forma. Então isso passou a nos dar mais certeza. Enquanto eu estava fazendo esse vôo com o Tolbert, os dois helicópteros chegaram e os geólogos foram na primeira clareira, a clareira N1. Na época não se chamava N1. Esse nome foi dado depois. Foram na primeira clareira mais próxima e confirmaram que aquela clareira grande perto ali do Cinzento também era igual ao material da Serra Arqueada. Quando eu cheguei ao acampamento, isso já estava confirmado, que realmente era tudo ferro. E mais por curiosidade geológica, mais por curiosidade profissional nossa, nós fizemos o reconhecimento das clareiras. Embora o Tolbert tivesse falado que não era mais para visitar as clareiras, nós fomos às outras clareiras todas, onde hoje é N2, N3, N4 e N5... N4 é onde está a mina. Tem até as fotografias que eu passei para o Museu que são desse vôo, feito na época de segunda quinzena de agosto. E continuou-se procurando manganês.

Vivia uma excitação, mas meia brochante porque a empresa falou que não interessava ferro. Até os pilotos brincavam com a gente: “Só tem ferro, não tem manganês. Então não interessa.” Fazia o reconhecimento, tinha o entusiasmo geológico de ter visto aquilo, mas se uma empresa como a Steel disse que não interessa vai interessar a quem? Tudo isso? Porque a dimensão para a gente assustava, e quem estava fora, pensava que a gente tinha achado uma ocorrência pequenina, alguma coisa que era um entusiasmo fora da realidade. E por sorte nossa, a primeira área que nós escolhemos para procurar manganês, e foi uma escolha feita mais ou menos de forma quase que chutada; não tinha como escolher uma área para procurar manganês. Então a primeira área a gente sabia que havia o manganês no Sereno. Olhando as fotografias daquela área, tinha uma serra no Itacaiúnas, abaixo do Cinzento, que tinha um jeitão que podia ser a continuidade da Serra do Sereno. Hoje sabemos que não é, mas na época, com a falta de informação, parecia que era uma continuidade da Serra de Sereno e foi selecionado para fazer a primeira pesquisa de manganês. Saiu uma equipe de barco, isso está tudo documentado em fotografia, e no final do mês, foi o geólogo Erasto. Quando a clareira ficou pronta nessa serra, foi lá verificar, andou uns dez metros e achou uma ocorrência de manganês bastante significativa, praticamente no primeiro dia de trabalho. Nessa época, isso ocorreu no final do mês de agosto de 1967, aquele consultor, Francisco Saião Lobato, que orientava a parte de helicóptero, veio fazer uma visita, e eu me encontrava no antigo acampamento, em São Francisco, cuidando ainda do restante da mudança. Ele chegou lá e eu mostrei as amostras de ferro e ele teve o maior entusiasmo quando viu aquilo porque viu que não era chute. Ficou todo entusiasmado com aquilo e, no final da tarde, nós estávamos vendo as amostras de ferro lá no depósito de amostras. A gente ainda pensava ter o São Francisco como acampamento de transição se por acaso não encontrasse manganês naquela região, onde é hoje Carajás, a gente depois ia continuar a pesquisa mais para oeste, para o lado do Rio Iriri. Então, continuamos mantendo quase como um acampamento base, com as amostras na área de São Francisco. E no final da tarde chega o avião do antigo Adão, aquele piloto que voava com a gente, com o Erasto. Aí o Saião até falou comigo: “Ou aconteceu alguma coisa muito grave ou descobriu manganês.” E o Erasto saiu do avião com um saquinho de amostra todo contente que tinha encontrado manganês.

O Tolbert é uma pessoa sui generis, cheia de traumas, medos e mitos etc. Tinha participado e combatido na Grande Guerra. E tinha algum mistério. A gente tinha combinado então que se por acaso descobrisse manganês era para mandar um telegrama para ele... “Favor mandar soro anti-ofídico urgente”. Ninguém ia desconfiar que a gente tinha descoberto alguma coisa.

Era quase uma brincadeira de 007. Na época era comum, estava em evidência os filmes de 007, a Guerra Fria, e tinha uma outra empresa atuando na região. Você hoje, quando vai atuar numa região, você requer a área antes. Naquela época ninguém requeria área antes. Você trabalhava e se alguém tivesse a informação antes podia requerer a área em que você estava trabalhando e perdia a área. Então havia um certo mistério. No dia seguinte nós voltamos lá com o Saião. Fomos com o Erasto visitar Buritirama. Vimos o manganês, isso está documentado em fotografias também. À tarde, eu fui com o Saião lá no ferro. E o Saião quando viu aquilo ficou deslumbrado. Ele realmente deu uma força muito grande para a gente, que estava com medo de que aquilo fosse uma ilusão de principiante e ficou muito entusiasmado. Nós fomos a Belém e eu mandei um telegrama para o Tolbert. Não falei mais de ferro porque ele já tinha me falado que não interessava ferro. Então mandei um telegrama... “Favor mandar soro anti-ofídico urgente.” E o Tolbert chegou praticamente no dia seguinte. Era tão embrionária a Meridional na época, a Steel, que durante dois meses eu fiquei morando no Grão-Pará, eu tinha acabado de mudar para um prédio ali, na Praça da República em Belém, e a primeira reunião do Projeto Ferro foi na minha sala de visitas, onde eu mostrei as amostras para o Tolbert, do manganês, do ferro, junto com o Saião. Eles almoçaram em casa e tudo na sala de visita do meu apartamento, que eu tinha acabado de mudar lá em Belém do Pará. Daí fomos para Carajás no dia seguinte, e o Tolbert nem se entusiasmou ainda pelo ferro. Mesmo vendo as amostras, continuou querendo só ver manganês. Então, nós fomos ao manganês. Ele não queria ir ver o ferro, queria só o manganês. Ficou todo entusiasmado com o manganês. Fez um comentário até muito na linha do Tolbert, aquele humor de gringo nem sempre politicamente correto. E a serra não tinha nome, onde tinha manganês, mas havia um ponto astronômico no mapa chamado ponto de Buritirama. É um lugar onde tem buritis. Então, o ponto astronômico que tinha dado para fazer o mapa ali era o ponto de buritirama e nós passamos a chamar a Serra de Buritirama. Subimos a serra, talvez uns 150 metros mas muito íngreme, e o Tolbert quando chegou falou: “É, o nome é correto porque só um burro ia subir isso aqui para descobrir o manganês aqui em cima.” O Erasto olhou meio desconfiado para ele. Ele ficou entusiasmado com o manganês, com tudo aquilo, e no dia seguinte nós fomos ver o ferro. Lá em Carajás, quem for lá vai verificar que na parte norte da jazida de ferro temos quatro conjuntos de serras. Dois ficam isolados. Um fica bem para oeste, próximo ao Xingu, que é o conjunto de São Félix. Outro fica junto ao manganês do Sereno, junto à Serra Pelada que é o Serra Leste. No conjunto principal, temos um ao norte e um ao sul. Depois dessa visita, o Tolbert sugeriu que nós batizássemos de Serra Norte e de Serra Sul. As clareiras aí foram batizadas de N1, N2, Norte 1, Norte 2, etc. E o sul de S1, S2, até S45, etc. No conjunto de Carajás, nós fomos às três clareiras grandes, as três principais jazidas da Serra Norte, e duas menores, a N2 e N3. Na época, nós tínhamos batizado as clareiras, a que eu tinha ido a primeira vez eram as “clareiras do Breno”, as do Erasto, “clareiras do Erasto”, as do Riter, “clareiras do Riter”, porque não tinha nome ainda. A N3 tinha sido a primeira que eu tinha ido na Serra Norte. Então eu falei para o piloto: “Nós vamos levar o Tolbert, mas vai por baixo da serra, porque tinha neblina, e não deixa ele ver o conjunto. Pousa só na N3.” Uma clareira com talvez 800 metros de diâmetro, alguma coisa assim. É algo grande, espetacular se estivesse na Alemanha, nos Estados Unidos ou até em Minas Gerais, mas para o conjunto de Carajás é insignificante. E o Tolbert quando viu aquilo ficou entusiasmado. Tem até uma foto dele feito criança com as amostras na mão. E eu deixei ele à vontade, brincar à vontade, se divertir bastante naquilo ali. No final de tudo ele falou: “Que maravilha!” O primeiro comentário dele, foi um comentário sério, interessante: “Quantos geólogos trabalham a vida toda e não têm a menor chance de participar de uma grande descoberta. Você está começando a sua vida, com três anos de formado, e teve essa oportunidade de participar de uma grande descoberta.” Esse foi um comentário que ficou marcado para sempre em mim. O outro foi um comentário de entusiasmo que ele falou: “Você merece 400% de aumento.” O que nunca aconteceu, mas de qualquer maneira o comentário valeu pelo aumento. E quando ele acabou com todo aquele entusiasmo, ele estava todo entusiasmado, aí falei: “Bom, gostou disso aqui?” Ele falou que tinha gostado, que era uma maravilha. E falei: “Bom, para mim isso não significa nada. Isso aqui não é nada. Não serve para nada.” “Mas como não?” “Isso aqui não serve para nada. Nada. Nada perto do que nós temos aqui.” Eram 11 horas mais ou menos, as nuvens já tinham levantado, e eu pedi para o piloto que levantasse bastante o helicóptero a uns 1500 metros mais ou menos. Daí se viu o conjunto todo. Mês de agosto está muito limpo em Carajás. Naquela época não tinha as queimadas ainda. E se viu todo aquele conjunto de serras e ele começou a ficar tenso, muito tenso. Visitamos todas as clareiras, a N1, N4, N5. Fomos até a S11. E quanto mais a gente via mais tenso ele ficava. Ele tinha um senso de humor muito mutável, ele estava contente e de repente ficava fechado. A gente até comentava com os geólogos que ele ficava menstruado. Tinha a TPM dele. E quando ele chegou no acampamento, o Erasto falou: “O que foi? Vocês brigaram?” Falei: “Não. Ele foi aos poucos ficando de mau humor. Está numa das fases de menstruação de novo.” E ele só fez um comentário comigo: “Isso aqui é muito grande e a minha companhia não vai ter competência política para ficar com isso aqui.” O único comentário que ele fez. Bom, no dia seguinte nós voltamos para Belém e ele pegou duas amostras, ficou super preocupado com aquilo e mandou um telegrama cifrado, fazendo analogia com as reservas que tinha na Venezuela, em Serro Bolívar, e usando: “O que nós descobrimos pode ser tantas vezes de maneira pessimista, tantas em uma maneira realista, tantas na maneira otimista, o local onde o geólogo Tremaine...” – que é outro geólogo lá da Steel – “...já trabalhou”. Essa foi a primeira comunicação para a Steel da descoberta de Carajás. Ele também levou algumas amostras de ferro de Carajás e era época do governo militar, onde você entrava revistado, saía revistado do aeroporto. Ele não quis despachar as amostras na mala com medo que extraviasse, e quando chegou em Brasília, o vôo dele tinha conexão em Brasília, ele fez tanto mistério com as amostras, gringo ainda por cima, que acharam que era mineral radioativo. Prenderam as amostras e ele chegou desesperado no Rio sem as amostras. Acabou indo buscar depois na Comissão de Energia Nuclear com várias desculpas. Foi um ex-aluno dele que devolveu as amostras para ele. Esse foi o lance inicial de Carajás. Aí começou. Nos próximos meses, a mudar a base do Cinzento para Carajás, criar as condições. Nós tínhamos o piloto Adão voando lá na região, ele falou para mim: “Olha, antes de pousar na área...” – eu fiz um vôo com Adão, que foi documentando fotograficamente todas as clareiras. Ele deu rasantes e a gente via a natureza dos terrenos, via até as amostras de canga muito parecidas com as que tinha em Serra Arqueada. Então, antes do primeiro pouso em Carajás, a gente já tinha bastante certeza. Depois a geofísica passou a confirmar o que era. Mas nada como a certeza de depois pisar e coletar amostras. O Adão então sobrevoou as clareiras e falou: “Nessa, onde é a N1, se vocês vierem aqui com helicóptero e tirarem essas pedras assim, eu consigo pousar com o meu aviãozinho.” E isso foi feito e começou a pousar o avião logo no início, posteriormente e manualmente foi feita uma pista onde chegou a pousar até avião grande e futuramente até jatinho chegou a pousar naquela pista que inicialmente foi feita manualmente, com pequenos instrumentos de mão. Toda essa construção da pista de Carajás é interessante, tem até documentação fotográfica de como foi feita do nada e de repente surgiu uma pista de pouso com mais de mil metros numa clareira em Carajás, toda feita a mão sem nenhum equipamento grande.

VIABILIZAÇÃO DE CARAJÁS

Requerimento e chegada da CVRD

A Vale não existia ainda. Nós estamos no ano de 1968. Nesse período, começou o Presidente da Meridional no Rio, a ir visitar. Isso, no ano de 1967, no segundo semestre. E cada um que ia lá ficava entusiasmado, e nós continuamos só na preocupação logística de montar o acampamento. Em 1968, de fato, um dos problemas sérios que nós tivemos lá era a água. Nós não podíamos levar equipamento grande para lá para abastecer de água. E naquelas clareiras você tinha água o tempo todo, 400 metros abaixo, nos igarapés. Você não tinha naquela época bombas possantes para levar. Depois acabamos tendo, mas no início não tinha. Então a solução eram as lagoas, chovia e algumas ficavam com água o tempo todo e outras secavam. E na N1 tinha uma grande lagoa que secava no verão. Nós fizemos uma pequena barragem de meio metro, feita com cimento levado de teco-teco. Não tinha terra, então a gente usava formigueiro para misturar com o cimento e pedra e fizemos uma pequena barragem e isso represou aquela água em 50 centímetros. Numa grande dimensão, era água bastante. E a gente soltava a água por uma pequena bomba, tambores com água, e logo imediatamente o acampamento passou a ter água encanada para tomar banho, para se lavar e tudo. Então, aos poucos aquilo passou a ter. Compramos uma pequena serra, começamos a fazer no acampamento coisas de madeira, mesas, porque tudo que se levava lá ficava muito caro porque ia em avião muito pequeno, que levava 100, 150 quilos de cada vez só. Então o primeiro ano de 1967 foi usado mais para a logística e alguns pequenos trabalhos. 1968 foi que nós começamos com topografia, locar os primeiros furos de sondagem, fazer as primeiras galerias, porque a grande dúvida era a seguinte: se aquilo era só uma crosta. Uma área com pouco ferro e o resíduo, uma carapaça rica, mas embaixo não tinha nada, ou se possivelmente embaixo tinha alguma coisa. E começamos, no final de 1967, já uma pequena galeria. Na galeria a gente começou a entrar e começou a ver que era um material todo de chapinha de minério de ferro, muito parecido com o que ocorria no quadrilátero ferrífero, não é igual mas é parecido, e passamos a não ter dúvida nenhuma que todo o potencial era de fato muito grande. Antes disso, antes de ir para essa parte logística, teve um fato importantíssimo que era requerer a área, adquirir direitos legais em cima da área. Todos nós éramos marinheiros de primeira viagem a requerer a área, ninguém sabia fazer isso. Poucas empresas requeriam áreas naquele tempo e não havia essa corrida mineral como passou a existir depois da descoberta de Carajás no Brasil, principalmente na Amazônia. Eu vim para o Rio, fiquei praticamente 15 dias cuidando disso. Entre a descoberta, que foi em 31 de julho, e a empresa tomar conhecimento, foi quase um mês e meio. Se qualquer outra pessoa ou se algum de nossos geólogos fosse desonesto poderia ter requerido para si. Era uma empresa estrangeira, talvez ele até ficasse como herói nacional. Eticamente seria incorreto mas ele estaria bem, venderia depois essas áreas. Estaria podre de rico hoje. Mas não, ninguém nem de longe... o piloto poderia ter feito isso, o piloto do helicóptero, o piloto do avião. Ninguém pensou em fazer nada disso porque todo mundo estava no mesmo time, com o mesmo objetivo do sucesso coletivo. Eu vim ao Rio e a empresa ficava na Filóquio de Carvalho. Tem a Vale, Ministério da Educação, depois tem o prédio ali atrás. Ali que funcionava a Meridional, no 4º andar. Era uma empresa bastante simples, não tinha muita estrutura. E eu vim para o Rio com o desenhista para fazer os pedidos. Quer dizer, era ler o Código e aprender a fazer, eu nunca tinha feito isso na vida. O Presidente da Meridional, bastante simplório, um americano, me nomeou, me chamou para uma reunião com toda a diretoria e me nomeou coordenador das tarefas. Quer dizer, todo mundo ali estava numa força tarefa, todo mundo ia calcular, porque o desenhista ia fazer os desenhos e cada um depois tinha que fazer os cálculos e fazer o memorial descritivo. Eu ficava coordenando e distribuindo. “Inclusive para mim, você vai me trazer tarefas para fazer.” Eu recém-contratado na empresa, de repente fiquei coordenando aquilo e ficava trabalhando das oito da manhã até altas horas da noite para que toda a equipe... hoje qualquer empresa como a Docegeo tem uma estrutura que já faz isso automaticamente. Em qualquer empresa grande é o dia-a-dia da empresa. Naquele tempo não tinha estrutura nenhuma então foi feito dessa forma artesanal. Um advogado consultor deu algumas orientações e a área foi requerida. Daí surgiu um problema. Dois problemas. Um, é que estava mudando o Código de Mineração, que era de 1967, ia passar de cinco mil hectares para dez mil hectares. Então falaram que poderia ser dez mil hectares já. Nós fizemos tudo para dez mil hectares. Depois não era. Nós tivemos que refazer tudo e passar para cinco mil hectares, dobrou o número de pedidos. Eram 160 mil hectares a quantidade de pedidos que foram requeridos. Esse foi um problema. Outro problema é que havia um limite para a empresa requerer. Então ela teve que usar o nome das pessoas, dos empregados, para requerer as áreas. Então todos os empregados, até secretárias, deram uma autorização para a empresa usar o nome para requerer as áreas. E dessa forma foi feito o requerimento. Dei entrada no mês de outubro, se não me engano 15 de outubro, eu sei que eu fiquei 20 dias morando em Copacabana em um hotel recém-inaugurado, morando aqui no Rio sozinho, sem conhecer nada do Rio de Janeiro, junto com essa equipe que era desde o Presidente da empresa até todo mundo requerendo áreas. Voltando então a 1968, o que aconteceu? Nós começamos a trabalhar na época da chuva. Era a primeira experiência de pegar o inverno amazônico, nós tínhamos trabalhado desde junho, já pegava o verão amazônico sem chuvas. Dezembro começamos a pegar chuvas e começo do ano também período de chuvas. E de repente eu estou em Belém lá no escritório, o Tolbert me telefona e fala: “Olha, aconteceu uma coisa muito ruim. Eu estou mandando um geólogo falar com você aí.” Esse geólogo, o nome dele é Marcos Albuquerque. No dia que ele chegou para trabalhar o Tolbert chamou e falou: “Você quer ir para Belém?” E ele falou: “Vou. O que eu vou fazer?” “Você vai levar uma carta para o Breno.” Aí ele falou: “Esse tal de Breno deve ser uma pessoa muito importante. Usa um geólogo para mandar uma carta! Por que não manda por correio?” É que o Tolbert, dentro daquele mistério que ele tinha na atuação, não teve coragem de falar por telefone e mandar uma carta por correio iria demorar muito. Então ele mandou uma carta e nessa carta ele dizia o seguinte: Que o governo ia fazer uma inspeção da área, que era um direito do governo, toda área que era requerida ter uma inspeção da área. Mas que ele tinha ficado muito chateado porque não estavam mandando pessoas do governo. Estava mandando o geólogo-chefe da Vale do Rio Doce, que era o José Eduardo Machado, que depois foi um dos fundadores da Docegeo e Diretor da Docegeo, e mandando o geólogo Forman, que era professor universitário e que depois foi durante muito tempo Presidente da Comissão Nacional de Energia Nuclear e também da Nuclebrás. Um geólogo que já era famoso nessa época. O Forman era formado no Rio, João Forman, e o Machado tinha sido aluno da primeira turma do Tolbert em São Paulo. Bem, e nessa carta o Tolbert só queria dizer o seguinte: “Que ele estava chateado, que o jogo não estava sendo limpo porque ao invés de mandar o pessoal do governo, estava mandando técnicos da empresa concorrente e que isso não estava certo. Que eu fizesse tudo que fosse possível para impedir a visita deles e que de forma alguma eles poderiam entrar naquela galeria. Que eles podiam visitar por fora, mas na galeria eles não podiam visitar, porque se eles entrassem na galeria, iam saber que realmente era grande”. Aí eu fui no rádio, já estava dentro da linha 007 do Tolbert. Não estava o Erasto no acampamento, estava o geólogo Rideg. O Rideg era um geólogo formado nos Estados Unidos, uma grande figura, e ele era um atleta, tanto que ele nunca tinha jogado futebol mas se transformou num excepcional jogador de futebol por causa do preparo físico que ele tinha. E eu chamei no rádio e falei: “Rideg, está acontecendo isso, são duas pessoas do governo, uma da Vale do Rio Doce, etc e tal. E é uma pena que eles não vão poder visitar a galeria.” Para a gente abrir a galeria, o que acontecia? Tinha aquela carapaça de canga, então a escarpa nas clareiras tinha lugares que eram íngremes uns 20 metros mais ou menos. Depois a escarpa ficava mais suave e aqui tinha um pequeno patamar de dois metros que nós fizemos uma escada de madeira. Não chegava talvez a 20 metros, uns dez metros mais ou menos. Ali que a gente embocou a galeria. Existia um lugar para entrar por baixo daquela crosta de canga para ver o que tinha embaixo da canga. E eu falei pelo rádio para ele. Isso é a primeira vez que eu estou contando, meu grande pecado na minha vida profissional. Eu falei para o Rideg: “É uma pena que eles não vão poder visitar a galeria.” O Rideg do outro lado, formação muito americana: “Mas por que não pode visitar?” “Porque choveu esta noite...” Eu também não podia falar que ia fazer uma sabotagem. “E rodou uma pedra e derrubou a escada. Você não falou agora pouco que teve um temporal essa noite, um temporal. Você me falou que teve um temporal aí.” “Ah, sim, já entendi. Rodou uma pedra e destruiu a escada.” “Você entendeu que a pedra destruiu a escada?” “Entendi.” Aí, no dia seguinte, eles iam chegar à noite em Belém. E, no dia seguinte, eu também fui para lá, nem me lembro se fui no mesmo vôo ou não com os dois. Chegamos lá e eles começaram como fiscal, queriam saber de tudo, ficaram entusiasmados e a gente de vez em quando jogava alguma isca falsa para eles perseguirem. Daí eles perguntavam se tinha galeria. Aí eu falei: “Realmente tem uma galeria mas caiu a escada com todo o desmoronamento.” E tinha uma escadinha de corda, e quem já andou naquilo sabe o que é terrível porque a escadinha de corda, de alumínio com corda, na hora que você vai descendo, se você não está acostumado, de repente você fica na horizontal e não consegue andar. Aquela escada vira. Ela é toda mole, só quem está treinado para descer consegue descer. Eu não tinha conseguido descer naquilo. Mas o Rideg conseguia descer. E quando cheguei lá conversei com o Rideg, ele falou que estava tudo certo. Bom, falei: “É você que vai acompanhar. Você tem que sair de lá do acampamento e andar cinco quilômetros. Nós não recomendamos ir de helicóptero, que era perigoso, tal.” Estávamos sem helicóptero naquela ocasião porque estava mudando de companhia, da Helitec para a Votec, e falei: “Rideg, você não espera os caras, vai no teu passo de carreira. E os dois foram. O Forman ficou no meio do caminho. Não conseguiu chegar até lá. Mas o Machado não só chegou como desceu a escada. Desceu a escada e foi na galeria. Aí, quando voltou, o Rideg estava todo vermelho do sol e de calor e falou: “Eu fiz tudo que foi possível. Um eu deixei pelo caminho, mas o outro conseguiu chegar lá e o pior é que desceu na escada.” Aí eles tiveram uma idéia boa daquilo.

A Helitec que voava com a gente, foi a primeira companhia. Deu tantos problemas que a gente, por questão de segurança, o Tolbert tinha rompido o contrato, mas os helicópteros ainda estavam lá. E eles contrataram a Helitec por fora para voar. Nós aí fizemos toda... era honesto, mas tinha duplo sentido. A gente sabia que era perigoso, mas ainda pintou de uma maneira mais feia. Falou: “Isso aqui é muito mais perigoso. Nós deixamos de voar com essa companhia porque tivemos um acidente em que tinha morrido gente.” Mas mesmo assim eles acabaram voando de helicóptero por tudo e foram na Serra Sul. Quando pousaram na Serra Sul com os dois helicópteros, um dos pilotos era inexperiente e, na hora que foi pousar numa área mais ou menos plana, perdeu o pouso e bateu num barranco na frente e destruiu o helicóptero inteirinho. Ninguém se machucou, mas destruiu todo o helicóptero. Os dois voltaram, daí o comentário do Machado foi: “Realmente eu sei que tem muito ferro aqui, mas eu vou embora porque tenho uma família para cuidar e não vou voar mais nessa porcaria.” “Olha aí, eu não falei que era perigoso? . Bem que eu avisei!” E eles fizeram um relatório, bastante modesto, achando que lá devia ter uns 600 milhões de toneladas de minério de ferro. A gente pensava que podia ter até 30 bilhões. No fim a pesquisa comprovou que tinha 18 bilhões de toneladas. E essa visita marca a entrada na Vale. A partir dessa visita, daí há várias versões da história. Talvez o professor Dias Leite, que depois foi Ministro, talvez tenha uma versão mais cuidadosa. Mas a versão que me foi contada, na época o Ministro de Minas e Energia era o Costa Cavalcanti e o chefe da DNPM era o Moacir Vasconcelos, já falecido, um geólogo de carreira de DNPM, um engenheiro de minas de carreira formado em Ouro Preto, uma figura muito carismática, interessante. Faleceu alguns anos atrás. Ele então quando viu aquela quantidade de pedidos de pesquisa numa época em que ninguém requeria tantas áreas, 160 mil hectares numa companhia com o currículo da Steel, a maior produtora de aço do mundo, e depois, a visita que foi feita pelos geólogos comprovando que realmente era algo muito grande. Ele verificou uma pequena falha. Não era bem uma falha. Mas que a empresa estava requerendo através de pseudo testas de ferro, de seus empregados. Isso é normal hoje. Toda empresa faz. Mas na época isso causou um certo ruído. Ele me contou isso em 1980, num congresso que a gente se encontrou em João Pessoa. Ele revelou essa história, que é a versão que eu tenho dos fatos. O professor Dias Leite parece que diz que não foi bem assim. Ele então engavetou os processos, e sugeriu ao Costa Cavalcanti que peitasse a Steel, forçando uma associação com a Vale. Se foi bem assim ou não, o fato é que se começou a estudar a associação. E a primeira vez que o Tolbert me falou sobre isso, foi uma das vezes que veio a direção, um dos vice-presidentes, ou dos diretores da Steel. Na verdade era Vice-Presidente, eles não tinham diretores, comentou que a Steel estava disposta a dar no máximo 20% de participação para a Vale e que mais do que isso de jeito nenhum. A Vale não ia participar. Não ia abrir mão do projeto em hipótese alguma para a Vale. Então essa era a postura da Steel na ocasião. Como eu falei, logo depois da descoberta, houve uma mudança na direção. Veio o Diretor da Serro Bolívar, da Venezuela. Veio ser o Presidente da Meridional aqui. Alguém com experiência em projetos grandes. Começaram a surgir ruídos de liderança entre o Tolbert e esse Presidente, porque o Tolbert era independente, respondia diretamente a Pittsburg, não respondia à Meridional no Rio, que era apenas um apoio administrativo. E houve duas viagens do boarding todo da Steel. Quer dizer, você chegar em Belém, e ainda garoto ir no aeroporto ver um avião da Steel chegando, a primeira vez foi um Viscount, depois foi um jato de médio porte com meia dúzia de velhinhos e senhores na faixa dos 70 e tantos anos, o Presidente da Steel, os vice-presidentes todos. A gente tinha que reunir, arrumar jantares e o Grão-Pará era o único lugar que você poderia dar uma refeição decente, no Hotel Grão-Pará. Alugar os poucos táxis e os poucos táxis de nível que tinham em Belém eram Itamaraty, Aero Willys de luxo. Então você reunia todos que tinha na cidade, meia dúzia, para levar a comitiva. E eles, as duas vezes sobrevoaram. Havia jantares em Belém com a equipe etc. E sobrevoaram Carajás, mas não desceram porque os jatos não podiam descer. Então duas vezes, em 1968, acho que foi uma vez em 1968 e outra em 1969, veio o boarding da Steel, exclusivamente para cuidar de Carajás. Parece que a segunda vez já foi relacionada à associação com a Vale que eles vieram, mas passaram por Belém. E a negociação foi indo até que em 1970 chegou a associação de 50% . Na realidade parece que era 51% da Vale, mas na prática era 50%. Foi assinado, acho que em maio de 70 o acordo entre a Vale e a Steel criando a Amazônia Mineração. Nesse período, o que havia ocorrido? O Tolbert já tinha saído do Projeto Ferro. A briga com o Hudson ficou muito forte e os primeiros anéis que Tolbert cedeu foi então sair da pesquisa de ferro. O Tolbert então consultou a sua equipe para ver quem queria ficar em Carajás no Projeto Ferro ou quem queria continuar com ele. Da equipe, o Riter preferiu ficar no Projeto Ferro, da equipe pioneira. O Erasto preferiu ir comigo para Buritirama. Então a nossa sede... porque, ao mesmo tempo em que a gente fazia pesquisa de ferro, a gente continuava procurando manganês, fazendo a pesquisa em Buritirama. No final de 1969, no final de 1968 e não de 1969, nós mudamos o acampamento nosso, com os helicópteros. A Steel tinha comprado dois helicópteros PT Ranger, os mais modernos que tinham no Brasil na época, e saído então de Carajás, N1, e fomos criar a nossa base no meio do mato, no meio dos mosquitos, na beira do rio Itacaiúnas. Essa foi a primeira mudança. Depois, quando foi em 1970 já, quer dizer, depois dessa primeira briga, o Hudson quis subordinar também o trabalho de exploração geológica, o trabalho do Tolbert, à presença da Meridional aqui. E houve uma discussão séria entre o Hudson, foi decidido em Pittsburg, e o Tolbert acabou pedindo demissão na United State Steel. Ele perdeu a briga. Foi uma briga de foice entre os vice-presidentes. Na realidade, a Steel na época já era uma empresa em que se percebia, à distância, sinais de decadência administrativa. Era uma empresa com estrutura arcaica, antiga. A estrutura era totalmente paralela. Por exemplo, o Diretor financeiro da Meridional aqui respondia ao Presidente da Meridional do Brasil como se ele fosse apenas um chefe de escritório, mas todos os atos administrativos da área financeira da empresa no Brasil eram direto ao Vice-Presidente em Pittsburg. Totalmente centralizada, fechada na cúpula. Então isso aqui no Brasil criava muito ruído e qualquer dúvida que havia entre dois diretores tinha que ir a Pittsburg responder com os dois vice-presidentes. E foi o que aconteceu. Então o Vice-Presidente resolveu queimar o Tolbert para guardar fichas para a próxima briga futura com o outro Vice-Presidente. Quer dizer, era um jogo de poder para ver quem ia chegar à Presidência do boarding no futuro. Então a coisa era meio complicada e isso explica por que a Steel alguns anos depois acabou abrindo mão de Carajás. Quer dizer, era uma empresa que não estava muito ligada à realidade. Estava mais ligada ao poder interno.

Amazônia Mineração

Aí, o que aconteceu? Nesse acordo com a Vale, primeiro foi feito um trabalho para exploração de ferro e implantação da mina, ferrovia e porto. De início já se pensava nisso. Então foi criada a Amazônia Mineração. Quando se criou a Amazônica Mineração ela foi feita com o objetivo de explorar o minério de ferro de Carajás. E já se previa na época a mina, ferrovia e porto. Ao mesmo tempo que começou a ser feita a pesquisa do ferro, foram feitos os estudos embrionários da logística para tirar minério. Foi na época da Amza. Isso aconteceu entre 1970 e 1974. Foi feita a pesquisa até mais ou menos 1975, quando encerrou. O relatório foi entregue em 1974. Foi feito isso, e foi quando se decidiu que o porto ia para São Luís e não para o Pará. Porque já se previa navios de grande calado e as águas do estuário da baía de Guajará, ali pouco próximo a Belém, ela tem muitos bancos de areia e não permitia fazer um porto seguro. Tinha que ser um porto off-shore, que pudesse fazer um porto longe e com correia transportadora até onde o navio encostasse. Isso ia ficar um pouco complicado e a distância para chegar a esse porto seria mais ou menos aproximada, pouco menor, do que seria para São Luís. E São Luís tinha condições naturais excepcionais para fazer o porto. E daí todo mundo que trabalhava ligado a Vale, que trabalhava em Belém, passou a ser persona nob grata no Pará e começou a briga do Pará com a Vale. Foi uma briga bastante pesada que começou somente a ser aliviada um pouco, não totalmente, quando Jáder Barbalho foi Governador do Estado e o Eliezer era Presidente da Vale. Mas essa é outra história. Então houve essa briga. O Tolbert saiu da empresa e o subchefe do Tolbert assumiu o programa de pesquisa da Vale, da Meridional, e isso nós estamos no ano de 1970. Nós começamos a perder a motivação porque a gente era ligada ao Tolbert desde o início. Quer dizer, era aquele time que estava indo bem, tendo sucesso. Embora já começando a ser pisado pela Steel. Mas a gente continuava tendo uma reação. A força aérea era nossa, os helicópteros ficaram com a gente . De vez em quando a gente emprestava para o Projeto Ferro, mas o pessoal bom de briga era o nosso. O outro já estava ficando com o trabalho mais burocrático de pesquisa etc. Foi nessa época que o Vanderlei foi trabalhar pela Vale na pesquisa do ferro. Então, a pesquisa do ferro ficou sendo feita sob a direção de um americano chamado Ruf, que montou um escritório em Belém, com todas as mordomias, etc. E nós ficamos como os primos pobres da Steel, num escritório isolado em Belém, um escritório pequeno. Nada mais tinha a ver com o Projeto Ferro.

Surge Carajás

Quando a Amazônia Mineração largou, acabou o Projeto Carajás e ficou aquele hiato se começava ou não a produção do ferro. 1974 acabou, 1975, 1976 os gringos saíram, romperam com a Vale, a Vale indenizou e deu 55 milhões de dólares aos gringos pela saída e ficou sozinha, que foi um ótimo negócio. Indenizou a pesquisa feita e ficou só a Vale porque a Steel não quis participar do projeto a não ser que o governo cuidasse da estrutura ferrovia e porto. Ela não queria cuidar do investimento ferrovia e porto para viabilizar o projeto. Porque o projeto Carajás inicialmente ia ficar no vermelho eternamente. A coragem do Eliezer de fazer o projeto, quer dizer, foram dois lances definitivos na história da Vale: Tubarão e Carajás. Sem Tubarão a Vale não teria chegado onde chegou e sem Carajás ela teria ficado. Ela teria chegado mas ficado porque não teria mais condições de expandir. Então, Carajás tem uma visão de que, enquanto se fizer alguma coisa com ferro no mundo, Carajás vai ser imbatível em termos de concorrência. Tem qualidade e competitividade, e tudo. Então, essas duas decisões do Eliezer e também a coragem de implantar Carajás. No valor presente, ficava sempre no vermelho ali. Você não tinha como dar lucro. Ali, não tinha que se pensar só em retorno, mas sim em sobrevivência. Ou você faz e fica um pouco no vermelho ou você não faz e morre. É uma solução de sobrevivência! É como aquela: ou você nada e sobrevive ou você morre. Embora você não queira nadar. E, Carajás, então, nesse período, o que aconteceu? A Amza acabou e a Vale quis que a Docegeo absorvesse a estrutura de Carajás para administrar. Era uma estrutura pesada, equipamento grande, equipamento de estrada, tudo aquilo. Então, nós passamos a ter lá motoniveladora, trator e tudo. A estrada tinha sido construída para Carajás, recém-construída e estava sendo destruída, pontes caindo. Isso tinha mais ou menos 100 quilômetros até Carajás de estradas que tinham sido construídas para Carajás, e a rodovia PA 150 da qual ela saía mais 100 quilômetros. Eram 200 quilômetros de estrada e o governo não estava cuidando. Várias vezes eu saí com um geólogo de picape percorrendo a estrada, geólogo que não era engenheiro, não era nada, e vendo bueiro, vendo estrada e colocando, fazendo um remendo, tapando um buraco aqui. Quer dizer, fazendo manutenção de rodovia. Ainda nesse período, nós fizemos a primeira linha norte para Carajás, começamos com a Transbrasiliana. Então, quem ia inicialmente de avião para Carajás, de avião pequeno que a gente fretava, passou a ir de ônibus. A gente mandava uma viação comercial até Marabá e lá tinha um ônibus fretado, e esse ônibus depois virou linha. Hoje, é uma linha. A mesma companhia que foi contratada para a gente fazer frete esporádico. Então, a primeira vez que eu encontrei na estrada um ônibus com a placa “Carajás” registrada foi uma emoção grande. Quer dizer, quem viu tudo aquilo, de repente um ônibus naquela área! Depois, quando surgiu Serra Pelada a gente convenceu a empresa Taba, que operava lá, a colocar uma linha regular. Antes era só vôo fretado. Eles passaram a colocar uma linha regular para Carajás. No começo, não tinha nenhuma de avião. Aí passou a ser Carajás. Hoje, pousa Varig, já pousou Vasp, já pousou TAM, já pousou todos lá. Mas na época começou assim, artesanal, de fundo de quintal, e surgiu uma linha, quer dizer, saía de Belém e aparecia no quadro de avisos “vôo para Carajás”. Era um negócio! Hoje, você pega qualquer agência de viagem já aparece Carajás como uma cidade a ser visitada, qualquer mapa de linha aérea tem Carajás. Naquela época, era uma coisa diferente. E para nós tinha um valor muito grande porque começou do pequeno, monomotor, e de repente estava pousando um Boeing em Carajás. É um negócio emocionante!

As equipes de Carajás

Nesse período, então, o que aconteceu? Foi um grupo chefiado por um americano. A Vale entrou em dois projetos. Ela entrou muito tímida. Quando ela se associou a Steel para fazer a Amza, era um programa monstruoso de pesquisa para ser feito, algo que não tinha sido feito no Brasil até a época, em termos de pesquisa. Usando helicóptero, sondas grandes etc. e tal. E a Vale, como era estranha no projeto, ela é que tinha entrado pelas portas do fundo, obrigada pelo governo, ela não tinha um sentimento muito grande de que aquilo fosse dela, talvez inconscientemente. E quem era ela para dar ordens para a Steel, no início? Se percebia isso, então, toda a contratação de sondagem, toda a logística pré-determinada foi feita pelo Ruf e pela Steel. A Steel era dona. Ela colocou o Gerente e quem foi colocado pela Vale foi o Vanderlei, que era o geólogo da Vale. No projeto era o Vanderlei, mas do ponto de vista hierárquico, o Ruf tinha muito poder. O Vanderlei era quase assistente do Ruf, então a Vale passou a aceitar a verdade da Steel e foi um desastre no começo da sondagem. A empresa contratada pela Steel não deu conta, e só quando a Vale entrou e começou a dar as cartas é que a situação melhorou. E fizeram a pesquisa bem-feita. E chegaram à conclusão de uma reserva absurda de 18 milhões de toneladas! Então, nesse período de 1970 a 1974, foi feita a pesquisa, um trabalho sistemático de pesquisa, chegaram tratores lá, abriam estradas em Carajás, fizeram galerias, as vilas de apoio, os acampamentos eram de boa qualidade. Então foi isso que foi feito naquele período até concluir a pesquisa. E foi feito, finalmente. Veio mais através da influência do colega Pragana, que construiu uma estrada já para viabilizar o transporte de equipamentos para quando fosse virar lavra. Tudo isso foi feito nesse período de pesquisa inicial.

O exemplo Trombetas

Em 1975 começou a parar tudo, 1976, até que 1977, quando houve o rompimento, a estrutura ficou parada até 1979. Nesse período de dois anos quem foi tomando conta da estrutura, como zeladora da área, foi a Docegeo. E esse processo aconteceu em Trombetas também. Quando a Vale se associou a Alcan, ela falou também: “Bom, quem é a Vale para ensinar a Alcan a fazer uma mina de bauxita?” E teve erros, erros absurdos lá no projeto da Alcan. O erro mais primário que teve foi, por exemplo, que se construiu uma ferrovia quando não precisava construir uma ferrovia, porque a distância era de 35 quilômetros, e ao invés de lavar minério junto à mina, e colocar o rejeito no próprio local da mina, como é feito hoje, eles transportavam o minério bruto, e transportava 50% de terra junto e lavavam o minério junto ao porto, e daí não tinha onde jogar aquela lama. E eles acharam a solução natural, porque junto ao porto estava a província de Trombetas, e você não tem um local de bacias para colocar, para fechar e controlar. Na mina, você pode colocar até dentro da mina de onde você tirou minério, o que é feito hoje. E começaram a colocar no lago Batata! Aquilo começou a assorear o lago, problemas na época da chuva, a barragem estourava os diques e ia para o rio Trombetas. Foi um problema ambiental seríssimo com a Mineração Rio do Norte da região. Tudo por erro primário na concepção do projeto, e que passou a ser corrigido só depois que a Vale assumiu a operação. A Vale tinha um potencial muito grande para corrigir o projeto no início, mas ela aceitou as regras do sócio inicial que era dono do projeto.

MANGANÊS

Buritirama

Eu passei daí com o Tolbert para o manganês. Foi aí que nós criamos o território livre Buritirama. Tem uma crônica a respeito disso. Passamos a viver em Buritirama. Saímos da serra do ferro, o clima ameno de montanha, etc., para morar no clima amazônico típico, na beira do rio, em Buritirama. Daí ficamos na base em Buritirama de final de 1968 até maio de 1971. Quando o Tolbert saiu em 1970, e eu saí em 1971. Nesse meio tempo, em 1969, eu era Chefe do projeto na região de Carajás, no Sul do Pará, e havia outro projeto de busca de manganês em toda a Amazônia, pegava principalmente Amapá e alguma coisa em Santarém. Em 1968 eles trouxeram um jovem suíço que foi um grande amigo meu, Peter Knup, para ser o Coordenador dos projetos em Belém. Foi montado esse escritório em Belém etc., e ele ficou como Coordenador desse projeto. Mas não tinha muita liderança administrativa e, em 1969, o Tolbert e a Meridional me chamaram e me transformaram em Coordenador de toda Amazônia, pegando os outros projetos também do Norte. E o jovem suíço ficou como meu assistente, em Belém. Então eu passei a ficar não tanto tempo mais no campo, mas ficava também algum tempo em Belém e olhando os projetos fora de Carajás.

COTIDIANO DE TRABALHO

Incidentes aéreos

Nessa época aconteceram dois fatos curiosos e até um deles bastante trágico, que foi a primeira morte que nós tivemos. Nós tínhamos tido vários acidentes de helicóptero, um em Buritirama com o geólogo Tadeu, que estava com o geólogo Aguiar. Esse é bastante interessante. Ele estava com geólogo Aguiar que era o geólogo pioneiro. Havia trabalhado com o Carvalho Pinto em São Paulo, já tinha mais de 50 anos. Foi o geólogo que fez o primeiro pouso comigo na Serra Arqueada, que me chamava de “chefinho”. Uma pessoa muito simpática. Mas por razões... o Tadeu, bem gaúcho, tal, brigou... os dois brigaram e não se falavam. O Tadeu só dava ordens de trabalho para ele. E saíram da base de Buritirama e foram para uma clareira que ficava a uns dez quilômetros, a B5, onde ficava a principal ocorrência de manganês. E esse helicóptero PT Ranger tinha o problema da turbina ser muito fraca. Ela queimava. Dava um superaquecimento, queimava a turbina e você ficava sem motor e descia. E uma das vezes que aconteceu isso, estava o Tadeu junto, e na hora da aproximação final a turbina pifou. E o Tadeu não percebeu, e o Aguiar não podia falar com o Tadeu porque estava de mal com ele . Aí conseguiram pousar na clareira. O Tadeu nem percebeu o que tinha acontecido, foi lá e fez o trabalho. O Aguiar contou para o pessoal o que tinha acontecido. O Tadeu foi lá para frente ver a sondagem, a galeria etc. Dali a uma hora mais ou menos, voltou, entrou no helicóptero: “Como é? Vamos embora?” Aí fizeram as pazes: “Seu ingrato! Você nem percebeu que eu salvei a tua vida. O helicóptero estourou a turbina em vôo, nós fizemos um pouso de emergência aqui, e você nem percebeu que eu havia salvado a tua vida.” Depois disso aconteceram outros acidentes. Nós tínhamos um programa já no Rio Tocantins, em um acampamento chamado Grande Praia, uma região que a gente estava tentando achar manganês, mais ao norte de Buritirama. Tínhamos o piloto Léo Rosa. Ele era um capitão-de-mar-e-guerra, tinha sido um comandante da base de São Pedro da Aldeia aqui. E se reformou e foi ser piloto de helicóptero. Era piloto da base de helicópteros que a Marinha tem aqui perto de Cabo Frio. E ele foi trabalhar na Votec com a gente. Era uma pessoa muito interessante, com nível cultural muito bom, mas bastante temperamental e com relacionamento às vezes difícil. Mas uma figura finíssima. Faleceu em São Paulo de uma maneira... parada cardíaca em vôo. Avisou a torre e conseguiu descer num campo de futebol. Aí mandaram socorro. Quando chegou lá, ele estava dentro do helicóptero morto. O Aguiar também faleceu num acidente batendo em um cabo na rodovia entre São Paulo e Curitiba. A maior parte dos pilotos daquela época faleceu em acidentes. Mas o Léo Rosa estava voando e ele tinha o costume de voar muito alto, o que dava um certo desconforto. Você andar num helicóptero lá em cima, alto, por cima das nuvens, dá um certo desconforto. É melhor sempre voar embaixo das nuvens que você tem visual e tudo. E ele estava por cima das nuvens, indo entre Grande Praia e o acampamento, lá no Cajazeiros, uns 40 quilômetros de vôo mais ou menos, quando a turbina estourou. Nessa época eu estava de férias, na época que eu fui convidado para coordenar todo o trabalho na Amazônia, estava aqui no Sul. Ele estava como o geólogo Antônio Zini e quando estourou a turbina ele ficou histérico, normal no helicóptero. Começou a falar com a base em Belém: “Estourou a turbina, estamos caindo, vamos morrer porque não tenho onde pousar.” Quando furou a camada, existia um pequeno brejo, uma região com brejo mais ou menos seco. Era o único lugar que existia no trajeto de 40 quilômetros que era limpo! Ele estava em cima dali e desceu com helicóptero, pousou com o helicóptero em pane no meio daquele brejo. Aí ele começou a gritar no rádio: “Estamos salvos. Estamos salvos.” Mas esse era o dia-a-dia e a gente achava que nada ia acontecer porque papai do céu sempre dava uma mãozinha na hora que acontecia alguma coisa. Tivemos vários acidentes desse tipo de parar a turbina e não acontecia nada. Até que nessa ocasião, em 1969, quando aconteceu o acidente, um pouco antes, havia chegado um helicóptero antigo. Não era dos que a gente usava, os próprios dois e mais alguns da Votec. Era um helicóptero Hughes 300, aquela bolhinha pequena. Todos os helicópteros eram amarelinhos. Esse tinha sido reformado pela Votec e era azul. A gente tinha um carinho muito grande porque tem um filme da Leila Diniz feito em Parati, e a Votec usou o helicóptero para a Leila Diniz fazer esse vôo. Então era o helicóptero da Leila Diniz. A gente tinha um carinho muito grande pelo helicóptero. E pouco antes de eu sair de férias eu fiz um planejamento dessa região de Cajazeiros, uma região que tem índios, fica a oeste de Tucuruí. Até hoje deve ser uma região difícil. E voei lá umas três horas com ele, marcando os pontos onde deve ser feito o reconhecimento, fazendo um mapa da região. Eu e o piloto sozinho voamos com ele. Depois esse helicóptero foi deslocado para o Amapá. Quando eu voltei de férias, já como Coordenador de tudo, não cheguei nem a avistar o Amapá, no dia 13 de novembro de 69, eu tinha ido no aeroporto ver um leilão da Panair, ver se tinha alguma coisa para comprar para a companhia, material que podia ser usado. E voltando do aeroporto, antes de chegar no escritório, veio o carro da companhia me encontrar. “Pronto, aconteceu alguma coisa ruim.” O helicóptero operando no Amapá, com um piloto que não era da equipe mas estava rendendo a folga do outro piloto, o Talma, decolou de uma clareira e estourou o pistão do motor. Não teve potência, caiu na árvore, explodiu, pegou fogo e morreram os dois queimados. Um geólogo de São Roque. Chamava Roque e tinha nascido em São Roque. Dali em diante a gente começou a falar: “Bom, helicóptero mata.” Nós tínhamos tido só uma morte na equipe que era do piloto Adamas, mas ele se acidentou sozinho num trabalho particular com o avião dele. Foi traumático, nós perdemos um amigo, mas não tinha sido dentro do trabalho nosso. No trabalho nosso foi a primeira morte. E aí foi um trauma todo, a equipe indo buscar os corpos no mato. Dois, três dias depois foi feita a autópsia. Quem nunca mexeu com autópsia de gente acidentada é um negócio terrível. Nem quis ver o corpo, mas você, a mais de um quarteirão de distância, sentia o cheiro da autópsia. Colocamos num avião, levamos para São Paulo, para Belém, num avião grande que operava com a gente. O caixão teve que ser soldado. Um ia ficar no Rio, o do piloto Talma, e o do geólogo ia para São Paulo. Eu fui para São Paulo para acompanhar dentro de um avião comercial e o piloto Ronald veio com um avião pequeno bimotor da Votec trazer o corpo. E, em vôo, com a variação de pressão, começou a sair gás e ele não conseguiu, começou a passar mal, teve que voltar para Belém e o corpo teve que ser trazido em avião comercial da Varig, no porão. Foi o primeiro trauma, quer dizer, chegar em São Roque com uma comitiva. O Tolbert fez questão que toda a equipe acompanhasse. Ele, pessoalmente, fui entregar para um pai, um garoto quase recém-formado, o caixão do filho. Foi um negócio muito triste. Foi o primeiro choque. Aí foi a primeira hora que nós demos um basta no helicóptero. Chega! Foi uma brincadeira interessante. Ninguém morreu porque papai do céu ajudou, mas acabou a brincadeira. Ou seja, daqui em diante, só vamos voar com helicóptero com dois motores, com duas turbinas, que estavam começando a surgir na época, helicópteros com duas turbinas. E o que aconteceu? Nós continuamos fazendo pesquisa por toda a Amazônia, verificar outras áreas.

Estresse e pesquisa na Amazônia

Nós éramos os únicos na Amazônia operando e não podíamos perder o espaço que nós tínhamos. E num desses vôos de reconhecimento na Asa Norte, nós voamos toda a Asa Norte, toda a Asa Sul, não tinha mapas na época. A gente voava com pequeno avião, ou com o Groth, que era piloto da Votec, ou com o Ronald. Os dois eram oriundos da Panair. Conheciam muito a região. E era um vôo interessante, de alto risco, mas muito interessante. Você saía num avião bimotor fazendo linhas de vôo a cada 20 quilômetros. Então você fazia um pente usando os mapas disponíveis, que eram mais ou menos confiáveis, com 20 quilômetros para cá ou 20 quilômetros para lá. E você, com uma régua que não marcava em distância, mas marcava em tempo no cronômetro, então você voou cinco minutos, percebia na régua quanto dava cinco minutos e marcava no mapa o que você encontrou, uma clareira, uma aldeia de índios, uma montanha, uma serra interessante e fazia um mapa. Tinha até uns mapas na época. Depois, quando houve o Projeto Radam, a gente colocava em cima e batia mais ou menos os lugares interessantes que tinham sido feitos. A gente já tinha uma simbologia toda, inventada na hora, mostrando onde podia ter granito, onde podia ter uma área em que pudesse ter manganês. Isso tudo na época. Mas eram vôos difíceis porque eram vôos de cinco horas. Saía de Belém ia até Santarém, abastecia e voltava para Belém. Então dava mais ou menos cinco horas na ida e cinco horas na volta, dava dez horas por dia a 600 metros de altura. O piloto, para ter o máximo de autonomia, só queria mudar de um tanque para outro quando o motor começasse a fazer pó, pó, pó... Nos últimos cinco minutos, você pedia para ele mudar e ele: “Não, eu quero ter todo o combustível num tanque só. Não quero ter sobra em um tanque. Não vai me adiantar nada. Eu quero gastar esse tanque totalmente. A minha salvação é aquela reserva técnica que eu vou ter no outro tanque.” Mas nos últimos instantes, você fica naquela tensão... Vai parar, vai parar, vai... Aí, de repente, quando o motor dava aquela parada, você está voando e de repente fica aquele silêncio no ar... Tsiiiiiii... Que acabou a gasolina. Ele vai pegar outro tanque, mas se não pegar? Se o motor não pegar? A gente sabia que pegava, mas se não pegasse? Voando baixo, a 600 metros de altura! Então eram vôos muito desgastantes fisicamente porque o avião ia balançando o tempo todo e você atento. Mas emocionantes. Porque estava voando em áreas que você nunca sabia. Em um desses vôos, falando com o comandante Groth, a gente estava na região de Tiriós, lá em cima, na fronteira com o Suriname. Ali, quem olha no mapa, o Suriname entra no Brasil. Então a coisa era complicada. A gente estava procurando a aldeia de Tiriós para ver se eles conheciam, se os pilotos conheciam. E aí é interessante, você chega numa região de floresta e depois entra numa região de campo, região com montanhas graníticas, diferente de Carajás, mas você também não tem floresta. Então você está voando e vê aquele verde claro no meio da floresta. E não achamos a aldeia de Tiriós, mas nós achamos uma pista. “Ah, deve ser a Tiriós.” E aí começamos a baixar para dar um rasante na pista para pousar. De repente, quando passou: “Arremete que é a bandeira do Suriname!” Tinha a bandeira do Suriname! Estava numa pista do Suriname. Tinha invadido. Podia ser metralhado lá, voando baixo. Então aconteciam essas coisas emocionantes com a gente. Num desses vôos, nós passamos em cima de uma clareira que tem todo o aspecto de Carajás. Não é igual, é muito parecida essa clareira. E daí foi comunicado ao Tolbert. A equipe da Codim, com o Décio, não tiveram sucesso na região de Carajás, eles perderam espaço. Quer dizer, eles foram para Altamira, a gente entrou pelos fundos e acabou descobrindo Carajás e o manganês. A equipe se desgastou muito politicamente junto à matriz da Union Carbide e eles então começaram com um programa novo na Asa Norte. Eles foram os pioneiros na Asa Norte. E a Meridional, como sempre, vinha um pouco atrás, com mais recursos. E eles tinham descoberto no rio Paru, um lugar chamado Maracunaí. As equipes se encontravam em Belém, era todo mundo amigo. Um ficava escondendo do outro, mas quando tomava um pouco de cerveja, não resistia e quem tinha alguma carta na manga acabava contando. Então nós não conseguimos ter certeza, mas o geólogo desconfiou que eles tinham descoberto um complexo alcalino ultrabásico. Esses complexos ultrabásicos são semelhantes aos que têm em Araxá. É um lugar que pode ter fosfato, pode ter titânio, pode ter nióbio. São áreas que a Companhia estava pesquisando aqui no sul também. Então havia esse interesse em descobrir lá. Quando nós descobrimos, sobrevoamos a outra, que nós batizamos de Maicurú, porque estava próxima ao rio Maicurú, nós achamos que poderia ser semelhante a deles e ser também um lugar que pudesse ter titânio, nióbio, fosfato etc. Mas quando relatamos isso ao Tolbert... poderia ser também minério de ferro, porque a vegetação em cima era muito parecida. Tinha aquelas lagoas, tudo igual. Parecia uma clareira igual a N4, N5. Mesmo tamanho, uns cinco quilômetros de diâmetro. Embora eu, desde o início, achava que o jeitão era mais para uma alcalina. E estava em Macapá depois da morte. A morte foi em 13 de novembro de 1969 e no mês de novembro eu estava lá com a equipe, tentando reestruturar, o problema do trauma, vendo as áreas de trabalho e tudo aquilo, quando chegou um rádio... a gente tinha um equipamento de rádio... do Tolbert, me chamando para Belém que ele precisava falar comigo urgente. E eu fui para Belém e ele falou: “Olha, Pittsburg quer que tire a dúvida se aquilo é minério de ferro ou não. Porque ser for minério de ferro, mesmo que seja um vigésimo do que tem em Carajás, Carajás está a 600 quilômetros do rio e Maicurú está a 200 quilômetros do rio.” Então era muito mais econômico lá do que em outro lugar. “Mas, Tolbert, nós paramos de voar de helicóptero.” “Abre só uma exceção para voar com o helicóptero, só para dar um check e ver se aquilo é ferro ou não. É minério de ferro ou não.” Eu falei: “Então eu quero carta branca.” Ele falou: “Não, você faz do jeito que você quiser. Não tem economia de recurso.” Então fizemos tudo que podia ser feito no figurino. Tudo dentro do figurino. Isso nesse período de um mês, morte etc. e tal. Aconteceu um sobrevôo para marcar onde era essa clareira que nós não tínhamos fotografia aérea, então era para marcar. E nesse vôo eu tive um primeiro mal-estar violento em vôo. A gente estava fazendo o vôo e muita fumaça, época difícil, estava estressado por causa da morte do geólogo e, de repente, me apaguei em vôo. Não cheguei a apagar totalmente, mas começou a adormecer o corpo todo. Eu voava do lado do piloto Ronald e o Ronald, a primeira pergunta: “A primeira coisa que você vai fazer é falar onde nós estamos porque fazer a navegação”. Tentando achar a clareira no meio da fumaça, naquele desgaste. Na hora que eu consegui achar a clareira, eu relaxei e me apaguei. Isso era meio-dia, mais ou mesmo uma hora da tarde. A gente estava voando desde manhã cedo. Daí ele falou para mim: “A primeira coisa você vai mostrar é onde nós estamos, depois você se apaga, porque se você não mostrar onde nós estamos não morre você, morre todo mundo.” Aí ele viu onde a gente estava e falou: “O lugar mais próximo é Almeirim. Almeirim não pousa esse avião, só pousa avião monomotor. Mas é a única salvação tua. Não sei o que você tem.” Não sabia se era coração. Depois fiquei sabendo, mas na época não tinha idéia. Na hora não sabia o que era. A minha mão começou a ficar em garra, adormeceu todo o corpo, o braço. Ficou tudo formigando e eu sentia que ia apagar. Aí ele pousou. Conseguiu pousar. Uma rua em Almeirim que era pista. A pista era antiga. Casas dos dois lados e no meio uma avenida que pousava avião. Pousaram e me levaram. Não tinha hospital, tinha uma maternidade dirigida por freiras americanas. Chegando lá me examinaram e na realidade o que eu tive foi um estresse nervoso. E a freira me explicou que essas terminações nervosas, quando você sobrecarrega, elas se encolhem e desligam. Para o corpo não entrar em colapso, desligam. Me deram um comprimido, um Valium da vida e dormi duas horas lá e quando acordei estava bom. Voltando lá, na programação, só para mostrar como as coisas eram cheias de acidentes num espaço curto de tempo. Num espaço de um mês nós tivemos a morte, a decisão de fazer o trabalho, o mal-estar tentando localizar a clareira. E aí o que aconteceu? Coisa que nós nunca tínhamos feito. Dois helicópteros pequeninos, porque os Jet Ranger estavam condenados porque tinham estourado a turbina. E não estavam voando mais porque tinha tido aquele acidente com o Léo Rosa, então eles estavam lá no meio do mato com a turbina estourada. Os helicópteros mais modernos. Então aqueles, aquelas bolinhas pequenas, foram desmontados e colocados num avião grande, no DC-3, num Curtiss Comander, um avião grande, um pouco maior que o DC-3, e foram para Monte Alegre, lá na margem do rio Amazonas, em frente à Santarém. Aí fizemos uma coisa que nunca havíamos feito antes. Os dois helicópteros foram inteirinhos, durante quinze dias, e foi feita uma revisão. Dois mecânicos desmontaram o helicóptero, montaram tudo direitinho. E nós ficamos hospedados num convento porque não tinha hotel em Monte Alegre. Contamos lá o problema do acidente, que a gente estava traumatizado. Era conversa à noite, tinha um pessoal do Projeto Rondon na época. Tinha uns estudantes universitários hospedados no convento também. E eu fiquei amigo da madre superiora, muito simpática e tal. E ela me dava a chave do convento para a gente beber à noite porque o convento fechava às oito horas. Não tinha o que fazer à noite, era isolado lá. O dia todo só vendo fazer a reforma do helicóptero, a revisão. A gente saía, enchia a cara e depois chegava com a chave do convento e entrava à noite no convento.

Hora do acidente

O helicóptero ficou pronto, por coincidência no dia 12 de dezembro de 1969, quase um mês depois da morte do colega. Uma das coisas que me angustiava com a perda tinha sido o sofrimento deles, se eles tinham percebido que iam morrer ou não. Estourou a turbina... se dá tempo para pensar que vai morrer ou se a pessoa acha que vai ficar viva até o fim. E daí o helicóptero, os dois, ficaram prontos e estava o Ronald, que era o piloto de avião, e o Diretor da Votec, em Belém. Quer dizer, a operação foi feita com toda a segurança. Eu escolhi o piloto que ia voar comigo, que era o Aguiar, que tinha voado comigo na descoberta, que eu mais tinha confiança na época. E falei: “Primeiro vôo eu tenho que ir. Não posso exigir que vá outro geólogo se a gente proibiu de voar de helicóptero.” Então eu resolvi ir no primeiro vôo com o Aguiar e o Ronald, para dar confiança à equipe, foi com outro piloto, sobrinho do Eduardo Gomes, do Brigadeiro Eduardo Gomes, foram no outro helicóptero, o que nós nunca fazíamos. Foi decidido que a gente só voaria em cima de rio para se cair ter onde descer e ter uma rota conhecida. E coloquei um avião monomotor de Santarém, contratei, para ele ir comboiando os helicópteros. Os helicópteros voando e ficava aquele avião dando voltas ao redor dos helicópteros, os dois voando. E todo mundo me gozando, falando: “De repente ficou cheio de frescura, ficou medroso, o que houve?” O Aguiar falava: “Mas, chefinho, o que houve?” E eu falava: “Não. Não ia voar mais, então vamos fazer tudo o que tem de ser feito para ser voado.” E de manhã, no sábado, dia 13 de dezembro, um mês depois da morte do Roque, quando nós nos preparamos para voar, a madre superiora de manhã no café veio lá e me segurou pela mão e falou: “O senhor não vai voar que eu tenho uma premonição que o senhor vai morrer.” Talvez ela tivesse ficado influenciada pela narrativa do outro acidente. Era um helicóptero semelhante. O da Leila Diniz era o que tinha sofrido o acidente com o Roque, naquele helicóptero azulzinho. Aí ela pediu pelo amor de Deus, que tinha acordado cedo e rezado uma missa para mim, que eu ia morrer e não sei o que lá e foi até a porta chorando e me puxando pela mão: “Não vai, não vai.” E eu: “Não. Está tudo seguro. Já arrumamos o helicóptero. Está tudo perfeito.” E saímos de manhã tranqüilos. Pegamos o rio Amazonas, fomos até a boca do rio Maicurú, começamos a subir o Maicurú, entre a zona que a gente ia chegar. Você está no baixo Amazonas, com a topografia mais suave, depois tem a grande serra onde o rio atravessa um canyon. Depois, atrás da serra, tinha a zona onde a gente ia trabalhar, onde está a área que interessava. Antes de chegar nessa serra grande, havia uma grande emenda no rio e com algumas fazendas, alguns lugares mais claros, com a vegetação mais baixa, áreas que já tinham sido roçadas. Aí o Aguiar falou: “Oh, chefinho, assim também não. Fazer essa volta pelo rio. Vamos cruzar este trecho reto.” Eu vi na frente, era mais ou menos limpo, aí falei: “Bom, pode ir reto.” Estávamos a uns 600 metros de altura, quando estava mais ou menos no meio, o lugar mais longe do rio, houve um estouro no helicóptero e a gente não sabia o que era. O helicóptero começou a ficar todo bobo, a balançar. Eu achei que o Aguiar é que tinha morrido, porque ele tinha perdido o controle. A gente, na época, brincava de pilotar. “Então segura o manche”. “Não, deixa que está comigo”. Falei: “O que foi?” “Estourou o cilindro.” Aconteceu o mesmo acidente que havia vitimado o Roque e o Talma. Estourou um cilindro! O helicóptero começou a perder potência e começou a sair fumaça atrás. O outro helicóptero e o avião pensaram que era fogo porque viram fumaça atrás, mas é que havia estourado o cilindro. Não queimava o combustível então começou a sair aquela fumaça. E nós começamos a descer. O helicóptero não cai, ele dá uma afundada rápida, mais ou menos 80 metros, e depois o próprio peso dele faz com que a hélice vire e ele vá descendo, o que chama auto-rotação. Ele pega uma rotação elevada e vai descendo na sustentação, que nem uma brinquedo daqueles que faz com a hélice assim: “uivuivuiv.” E aí começou a discussão minha com o Aguiar. Falei: “Aguiar, escolhe uma árvore baixa e joga em...” Ele falou: “Vamos tentar chegar no rio.” Mas eu falei: “Chegar no rio... E se não der para chegar e a gente bater numa árvore na beira do rio e acontecer o que aconteceu?” Isso a gente discutindo ali, não tenho a menor idéia se demorou um minuto, cinco minutos! Não tenho a menor idéia de quanto tempo levou a gente descendo. Parecia um pouso normal. Você não sentia que o avião estava caindo. Só não podia subir. Descendo, descendo. E ele tentando chegar no rio, foi bastante calmo. Eu comecei a tirar a minha bota, mas aí achei que não ia dar para tirar a outra, daí amarrei ela de novo. É melhor estar com as duas botas do que uma bota só, que vai ser pior ainda. E ele foi. Felizmente o outro helicóptero acompanhando, o avião acompanhando. E nós conseguimos passar a água. O rio ali devia ter uns 50 metros, o Rio Maicurú. E ele ia pousar bem no meio. Aí, quando ele estava jogando no meio, eu falei: “Aguiar, mais próximo da margem que eu não sei nadar. Eu não sei nadar!” O rio era mais ou menos calmo, não tinha muita correnteza e o que me salvou foi que a diversão de piloto de helicóptero, principalmente de helicóptero, mas piloto em geral, no acampamento, quando fica no meio de acampamento, a maior glória deles é contar um acidente que eles já viram ou participaram. Quem morreu, quem não morreu etc. O papo à noite era só derrubar helicóptero, derrubar avião. E o Walmyr pode contar muito bem isso aí. E eles haviam contado várias vezes que um dos problemas quando o helicóptero cai na água, principalmente os que operavam na Bahia, com a Petrobras, era que a pessoa tinha morrido porque não abria a porta. Depois o helicóptero afundava e não conseguia abrir por causa da pressão da água. E o outro é que a pessoa saía afobada. E isso recentemente aconteceu em terra, em Minas Gerais, com uma empresária. É você sair e o rotor te pegar. Em terra você pode sair abaixado, mas na água você sai nadando e o helicóptero está afundando, então você está nadando e então você tem que esperar o motor parar. Eu fiz isso aí de maneira inconsciente. A porta eu abri ainda em vôo. Podia simplesmente ter aberto a porta e eu dei um murro. Abri, soltei o trinco e dei um murro na porta sem necessidade nenhuma. Quer dizer, a tensão que você está vivendo. Você não pensa em família. Esse negócio que você pensa na família, que vem toda a sua história de vida, quem conta isso é papo furado. Não existe isso, a não ser que a pessoa tenha mais tempo. Mas numa queda de avião, de helicóptero, você fica.... o teu organismo todo fica voltado para a sobrevivência. Você vira um animal que tem que viver! Todo o teu corpo, a tua mente, está voltado para a sobrevivência. Quando depois foram retirar o helicóptero, a porta do helicóptero empenou, e eu pessoalmente não tenho condições de dobrar uma porta de helicóptero daquela de metal. A minha força... aqui ficou todo o sangue pisado! Só que eu abri a porta sem necessidade nenhuma. A força que eu usei ali para abrir aquela porta... E depois esperei a hélice bater na água também inconscientemente. Não lembro da água fria entrando no helicóptero. Se a hélice bateu, a água tinha entrado. Mas a sensação da água fria entrando no helicóptero eu não tenho, e saí no meu cachorrinho nadando. Era uns 10 metros de margem e cheguei na margem sem grande problema. E eles, quando passaram de helicóptero, o Ronald conversou com o Gomes, o piloto Gomes, e falou: “O Breno ficou, porque ele não sabe nadar e já tem um na margem.” Mas quem estava na margem era eu e o Aguiar estava saindo do helicóptero. Eu acabei saindo antes do Aguiar. Daí o helicóptero afundou. Tinha mais ou menos uns cinco metros para afundar, um espaço de cinco metros, não era muito fundo, mas para quem não sabe nadar dois metros bastam. Aí eu pedi, nós voltamos até o helicóptero. Eu fiquei sentado em cima do helicóptero e pedi ao Aguiar que mergulhasse para pegar a minha maleta de plástico que tinha ovo cozido que a gente tinha levado de lanche. Eu não sabia como ia sair dali. E a minha máquina fotográfica, a que eu tenho até hoje. Foi depois doada pelo Meridional porque essa máquina, que era minha, pessoal, não teve conserto, então ficou com a Meridional e eles me deram uma nova, modelo mais moderno. E tirou a máquina, os ovos. Comemos os ovos para já ficar protegidos e começamos a ouvir vozes. O outro helicóptero conseguiu voar, cruzar rio abaixo, a uns 100 metros rio abaixo, numa pequena prainha que tinha no rio depois de uma curva, e eles começaram a chamar a gente. Aí eu falei: “Aguiar, daqui eu não saio. Vai passar uma canoa, vai passar qualquer coisa e eu não vou sair daqui não.” Tinha que atravessar o rio para o outro lado. Eles gritaram: “Por quê? Tem alguém ferido?” “Não.” “Por que você não vem?” “Porque eu não sei nadar.” “Mas como você nadou para chegar?” “Para salvar a vida eu faço qualquer negócio, mas para arriscar a vida não!” Mudou o enfoque do problema. Bom, o Aguiar foi conversando comigo. Pegou um assento do helicóptero que é mais ou menos flutuante. Não é tão flutuante como falam os aviões, ele mais ou menos se segura, e eu coloquei embaixo do peito e fui nadando pegando mais coragem. Quando tive que atravessar o canal ele foi do meu lado, dando um apoio moral e finalmente nós fomos retirados sem problema. Então, essa foi a primeira sensação de morte que tive, que aconteceu nesse período.

O acampamento

Quando nós começamos a trabalhar na região, minha cultura era uma cultura de cidadão de São Paulo, que mato é mato, tem cobra ainda etc. Depois, viver na Icomi já era uma aventura fabulosa, viver numa vila no meio da selva, ouvindo guariba cantar à noite e tudo aquilo. De vez em quando encontrar uma cobra no asfalto, um bicho preguiça, aquilo já era uma coisa fora do comum. Você via nos relatos de férias, nas cartas que mandava para família, que era fora de série. Mas não tinha nada a ver com o fato de você dormir numa rede no meio do mato, num tapiri coberto com lona e palha. É totalmente diferente você viver no meio da selva e entrando num lugar com água encanada, com todo conforto. Ou você dormir na selva, conviver na selva mesmo.

A experiência toda... não existia experiência. Nenhum dos geólogos não tínhamos nenhuma experiência disso. Nem de voar de helicóptero. Nós aprendemos a voar de helicóptero porque o Tolbert falou: “A empresa está pagando para vocês aprenderem.” E nós passamos a desenvolver uma tecnologia, um modus operandi com o helicóptero voltado para geologia e que acabou sendo rotina na Amazônia. A cultura que a gente absorveu foi a cultura dos braçais que a gente contratava. A gente contratou, quando começamos a trabalhar. O primeiro acampamento foi em São Francisco, a idéia ali ainda foi fazer um acampamento de madeira, com tela etc., então contratamos um pessoal em Altamira, que era a cidade mais próxima. Contratamos um para mateiro e contratamos um carpinteiro para fazer o acampamento, o Feliciano Torres. Esse Feliciano acabou sendo um protótipo do trabalhador da Amazônia que trabalhou com a gente. Acabou se aposentando como capataz de alto nível, já na Vale, na Docegeo, e ele acompanhou a gente até a década de 80. Ele era um carpinteiro que no fim acabou sendo o líder, era o capataz de toda a equipe e chegou a chefiar mais de 200 homens em Carajás. Era o maior capataz que nós tínhamos. Chefe dos outros capatazes e uma pessoa com uma capacitação fora da série. Ele subia em corda, descia em corda, descia do helicóptero em corda para abrir clareira com a maior naturalidade, coisas que tinham que ser feitas com pessoal altamente especializado. Ele fazia isso com a maior naturalidade! Deixava a corda para fora do helicóptero para ficar baixo, descia e abria uma clareira embaixo para depois o helicóptero descer. Ele operava com machado, moto serra, carpintaria. Fazia tudo. E a maior parte deles eram analfabetos, excepcional índole. Marabá já tinha tido algum garimpo no passado, já tinha os castanhais, já tinha uma mão-de-obra um pouco viciada. Já havia um certo conflito de patrão- empregado. Em Altamira eram pequenos proprietários rurais, era uma cidade sem tantos conflitos sociais, uma sociedade mais homogênea, mais pobre, mas mais homogênea. Não havia o senhor da terra, não havia o senhor da castanha. Havia os seringalistas. Nos seringais havia um certo conflito. Você tinha aquela mão-de-obra submetida ao senhor do seringal, mas em Altamira nós contratamos mão-de-obra excelente, talvez tenha sido a melhor mão-de-obra que nós tivemos em toda a vida de trabalho na Amazônia, foi talvez essa inicial da Meridional com a turma de Altamira. Sem vícios, muito aberto, muito honesto e se adaptaram de uma maneira espetacular.

Organização dos acampamentos

Você tinha a estrutura do campo, você tinha um staff, que era os geólogos, os pilotos de helicóptero ou de avião que ficavam no acampamento e os mecânicos do helicóptero. Esse é o staff. Depois, aos poucos, começamos a contratar os enfermeiros. Tinha essa dificuldade para enfermeiros. Depois vieram os rádio-operadores também para operar. No começo, não tinha rádio-operador. Depois se passou a trabalhar com telégrafo, para ser mais rápida a mensagem, então aquele telégrafo convencional do Morse, a mensagem era muito mais rápida de se passar, não ficava dependendo só da telefonia. Então você também tinha o rádio-operador. E começou a ter, no início, o enfermeiro que virava administrador. Era um misto nos acampamentos pequenos. Virava o chefe da administração do acampamento. O próprio enfermeiro, ele tinha esse misto. E muita coisa era improvisada, era inventada, muita coisa foi feita errada, coisas que se hoje a gente fizesse, do ponto de vista ecológico, era um crime sair para caçar, matar jacaré por farra. Isso a gente fazia no começo. Hoje seria um crime hediondo e naquela época se achava que era uma farra natural fazer isso. Do ponto de vista da estrutura, aos poucos a estrutura social do acampamento foi se adaptando, começamos, quando chegamos à descoberta de Carajás, a equipe toda. Cozinheiro também era outro nível intermediário fundamental, tinha o cozinheiro, o ajudante de cozinha, os capatazes, três ou quatro capatazes no acampamento e os braçais. E no início da descoberta de Carajás, a equipe não tinha vinte pessoas. Eram três geólogos, dois pilotos de helicóptero, nenhum mecânico, um piloto de avião que ficava um pouco com a gente e um pouco fora e cozinheiro. Não tinha enfermeiro no começo. A gente mesmo fazia o enfermeiro.

Aprender com os erros

No tempo do Xingu, aconteceu até um fato interessante. Nós fizemos um acampamento próximo a uma pequena vila do seringal, mas um pouco afastada, no acampamento tinha o barraco dos braçais, outros fizeram tapiri. E alguém do Rio, ligado à administração, deu a idéia. Como era época que não chovia, não precisava de cobertura. Surgiu uma tal de rede selva, que era feita de náilon, na época era novidade. Ela tinha a parte de baixo de náilon, uma cobertura de náilon e mosquiteiro lateral. E não era uma rede convencional que é agradável de dormir. Era daquela rede tipo americana que fica reta. Só que aquilo, se você se desequilibrar, ela vira de lado. Para desvirar era um sacrifício porque se você fizesse força demais revirava do outro lado, como desenho animado mesmo. E alguém deu a idéia brilhante de, para economizar ponto de apoio da rede, fazer um ponto de apoio central e colocar as redes radiais. Existe fotografia com esse acampamento também. As redes radiais. Só que quando acontecia de alguém se mexer e virar a rede, e ele ficar tentando se desvirar, ficava balançando o esteio central e todo mundo balançava junto. Acontecia também na pista e pasto. Tinha uns cavalos do seringal, que ficavam ali e, às vezes, à noite, andavam. Ali é espaço deles. E vinham se coçar no esteio e você acordava com aquilo balançando à noite. Você dormia naquela rede com revólver dentro. Eu dormia com 38 no meio das pernas. De vez em quando, o 38 amanhecia no pescoço. Os primeiros tempos foram bem difíceis porque no lugar de usar a tecnologia do morador da região que já estava acostumado, a gente usou a tecnologia de alguém do Rio de Janeiro que deu a brilhante idéia de que tinha que ser daquele jeito. Uma tecnologia mais de gringo, do cara que lê o manual, vê um catálogo: “Olha, isso aqui vai dar certo.” A melhor forma de cobertura não era de lona, era de palha porque ficava muito mais fresco dentro. O chão era terra. Quando já em Carajás, a gente conseguiu o primeiro chão cimentado, quando já ia avião grande, um escritório de alumínio. Não era para dormir, era só para trabalhar. Aquilo foi um progresso fora de série. Você ter uma área limpa, que o papel caía no chão e não suja. E você, quando passou a ter rádio, mandava um relatório diário para o Rio de Janeiro, para o Tolbert. Foi bolado um sistema de informação do que tinha sido feito. E chegamos, em Carajás, no auge do início da pesquisa, em 1968, a ter 250 homens. Em junho de 1968, quando nós completamos um ano de operações de campo. Nós começamos em junho no Xingu e quando foi em 1968 nós estávamos em Carajás. Aí convencemos o Tolbert a dar uma festa para comemorar. E isso é tudo fotografado. É interessante você ver as fotografias porque você não acredita. Se tivesse vídeo, então teria sido fabuloso.

Futebol e diversão

Acho que foi no dia 26 de junho ou alguma coisa, nós fizemos um diploma para entregar para todos os pioneiros que tinham um ano de trabalho e fizemos um dia de comemoração. Foi a segunda vez que entrou bebida em Carajás. A primeira vez foi no Natal de 1967. O Adão foi buscar em Marabá a cerveja e, como não tinha geladeira, ele veio bem alto para a cerveja não esquentar. E fizemos a primeira comemoração em Carajás. E o outro, nessa festa, fizemos um dia de comemoração com vôlei, futebol, corrida, corrida de saco e a peãozada toda, 250 pessoas, se divertiram como se fossem crianças. Um negócio impressionante! Não tinha mulher. Teve bebida, feijoada, churrasco etc. Ninguém brigou, não teve nenhum incidente. O pontapé inicial: o Tolbert saiu do acampamento, foi até o campo de futebol que ficava a 50 metros, de helicóptero, desceu no meio da pista e deu o pontapé inicial com helicóptero do lado , como se estivesse em pleno Maracanã. E o campo era de piçarra, não tinha nada, não era terra, era aquelas pedrinhas de ferro. Você só tinha um problema, não podia cair. Porque era impossível você cair e não se machucar. Então, a pior coisa que podia acontecer no jogo era você cair. E já havia dois times de futebol que, por coincidência, são os nomes que existem até hoje, mas eles nem sabem que existiam esses times. Um era Carajás e o outro era Serra Norte. Um era do staff e o outro da peãozada. Logicamente, nesse dia, o time do staff ganhou de dois a um. Eu era um dos piores jogadores do staff, nas peladas de fim de dia. Todo fim de tarde, a gente chegava no campo às 5 horas, você jogava até mais ou menos 5h30 e 6 horas, porque escurecia. Para descarregar o estresse, carregar a adrenalina. Tinha aquela partida de futebol diária, de vôlei ou alguma coisa assim. E as partidas eram 15 a 8, pelada mesmo. E tinha um jornalzinho. O Raimundo Albuquerque, que eu comentei que era o mecânico, ele fazia o jornalzinho de lá. E no final do jogo ninguém lembrava quem tinha marcado. Então alguns lembravam. O saldo sempre ficava para mim, como Gerente do projeto. Eu era artilheiro em todos os jogos porque o saldo que sobrava era o meu.

O interessante também, eu não estava nesse dia, mas em Carajás, quando ascendemos às clareiras, tinha muita anta nas lagoas. Muita anta. É impressionante! Você voa de helicóptero e vê um bando de antas. É um bicho calmo. Até o próprio local que nós pousamos na N4 a primeira vez era um brejo seco, um lugar que as antas deitavam. Ficou aquele limpo onde o helicóptero pousou da primeira vez, não tinha anta nenhuma mas era onde elas deitavam quando tinha água. E um dia, em pleno jogo de futebol, entrou uma anta no meio do jogo. Atravessou o campo de futebol com o pessoal jogando bola. E o Rideg, que era muito brincalhão, aquele geólogo que tinha se formado nos Estados Unidos, colocou um quadro de aviso que era: “Proibida a entrada de antas durante a partida de futebol.” Na beira do campo tinha esse aviso! A gente passava o dia-a-dia formando uma comunidade. Tinha uma pracinha. Não era uma pracinha, um lugar perto dos banheiros, com uns banquinhos. Então um ficava empinando pipa, no final de tarde, um braçal. Entre o futebol, o banho e a janta, era a hora da descontração, cada um contava uma história, um caso. Depois da janta, o pessoal que não era do staff, enfermeiro, mecânico e piloto iam jogar baralho invariavelmente e, depois, o pessoal dos geólogos ia fazer relatórios do que tinha sido feito e ficava até dez horas da noite trabalhando. O acampamento era separado em quadro geral. Tinha um barraco para os capatazes e cozinheiros, mas ficava de um lado do acampamento. E tinha um barraco para os pilotos, mecânicos e geólogos. E a administradora do acampamento separado. A gente tinha sempre, no mínimo, quatro barracos. Dois para o pessoal, um para cozinha e refeitório e um para escritório.

As conquistas

No começo era muito espartano. No tempo do Tolbert era padrão de Segunda Guerra. Não tinha folga de campo. A gente trabalhava um mês, quatro semanas, e depois passava uma semana trabalhando em Belém, no escritório em Belém. Então a folga não era folga. Você passava dois fins de semana em Belém e uma semana trabalhando no escritório, inclusive nos sábados se trabalhava naquela época, até meio-dia. Depois aos poucos foi tendo uma conquista, mas nunca chegou a ser algo espetacular. Coisa que na Petrobras chega a ser um por um ou três por três. Nós chegamos, no máximo, a quatro por um. Trabalhava quatro semanas e daí era uma semana de folga, mas já não era no meu tempo de campo. Isso aí foi uma conquista. As conquistas que se teve no trabalho de geologia na Amazônia, da Meridional até chegar na Docegeo, foi essa forma de campo regularizada de ser quatro por um e conseguir helicóptero com duas turbinas, com maior segurança. Foram as conquistas que se teve e que alguns depois, mais novos, começaram a achar que... queriam usar monomotor. “Vocês não sabem o que custou a gente chegar a esse ponto e vocês agora querem rejeitar o que foi conquistado.” Era uma conquista porque não havia nada. Na Meridional aconteceu uma coisa absurda. Já vou falar o que não devia, mas deixa para lá.

Carne e farinha

Por exemplo, quando nós chegamos no Cinzento o grande problema era carne. Tinha duas coisas do acampamento que era essencial: farinha, que houve a guerra de farinha no Henry Ford. Um dos levantes que houve na Ford foi por falta de farinha de mandioca. Houve no Trombetas uma guerra da farinha porque faltou farinha. E nós também tivemos um pequeno problema lá nesse sentido. Muito pequeno. Então carne e farinha eram essenciais para a alimentação do pessoal. E nós conhecemos, quando estivemos no Cinzento, passaram por lá dois caçadores. As pessoas saiam de Marabá só com sal e farinha e iam caçar para pegar pele de onça para vender e comiam só caça, passavam comendo caça com farinhas um mês, dois meses. Daí eu conversei com eles, se eles não queriam trabalhar com a gente para serem caçadores. Tinha muita caça na região, porco-do-mato, veado, cotia, paca etc., carnes que podiam ser usadas para a população, era essencial. Você não tinha como não ter carne, então a caça era realmente uma alimentação. E nos primeiros anos nós contratamos. Chegou lá no final do ano, na época da chuva, o avião do Adão foi para Marabá buscar farinha e deu quatro dias de chuva que ele vinha e não conseguia pousar e voltava para Marabá. E acabou a farinha no acampamento. Os caras chegaram no meu escritório lá e falaram: “Doutor, dá as contas que nós vamos embora.” “Mas por quê?” “Porque não tem farinha.” “Vocês estão vivendo no acampamento com todo apoio, com tudo, ganhando dinheiro, fazendo o que faziam antes e vocês vão embora? Espera pelo menos o avião chegar.” “Não precisa, não. Dá a nossa conta.” Paguei, eles pegaram o mato e foram embora. Não tinha farinha e entraram no meio do mato e foram embora com a maior naturalidade.

O parteiro e o doutor

Um incidente que aconteceu, interessante. Uma noite vieram me acordar na rede: “Por favor, doutor, tem uma criança nascendo.” Então, para eles, aquele negócio de chamar engenheiro de doutores, que é um anacronismo tremendo, é a cultura quem traz. Doutor para ele é doutor. Doutor tem que fazer parto e tudo. Fiquei apavorado. Cheguei lá: “Como eu vou fazer um parto? Nem sei como é. Como eu vou fazer um parto?” “Não, o senhor tem que fazer. A mulher está passando mal.” Daí tinha um capataz meu, abaixo do Feliciano, o Chico, e ele já tinha feito o parto da esposa. E naquele rebuliço todo ele falou: “Pode deixar que eu faço o negócio lá.” Mas era nesse tipo de ambiente que você vivia. Depois, quando nós fomos para Carajás, você não tinha mais contato nenhum com pessoas, só tinha em Marabá, quando ia. Aí, em Marabá nessa época o solteiro deitava e rolava. Marabá tinha mil habitantes; o cara geólogo, chegando de helicóptero. Na época o homem estava pousando na Lua, era o astronauta, tudo o que voava era importante. Então você chegava de helicóptero, os pilotos da velha guarda, todos eles zoneiros. Piloto, casado ou não, estava acostumado a viver na zona, porque o cara vive sempre viajando. Metade em Marabá quase era zona, zona boêmia. O cara chegava e a primeira coisa era dar um rasante na zona para avisar que estava chegando, ficava voando em cima das casas, fazia tchau etc. Então essa era a vida. Você chegava, descia na cidade, normalmente Marabá tinha um campo de pouso que ficava do outro lado, não tinha ponto do outro lado em Itacaiúnas. Tem a Nova Marabá, tem a Marabá Nova e a Velha Marabá hoje. Tem três cidades, uma que nasceu, foi planejada, que fica junto à velha; e tem uma que cresceu junto ao aeroporto, ao lado da Transamazônica. Então o helicóptero ficava no aeroporto, mas ele normalmente pegava um lugar limpo na entrada da cidade, deixava a gente e depois ia pousar no aeroporto. Aí você descia e toda a garotada da cidade já tinha ido ver o helicóptero pousar. Aí você vinha em um trecho de 500 metros, um quilômetro para chegar na pensão, e aquela procissão de garotos atrás de você. Parecia um astronauta que havia descido naquele meio. Isso dava um poder falso na cidade.

O poder e os coronéis

Você passava um poder que não tinha na cidade, convivia com os coronéis, com aquele pessoal todo. Apesar de ter uma violência dos coronéis e tudo. O próprio Demostino autorizou a gente a entrar no castanhal. Uma vez encontrei com ele na cidade para conversar comigo e ele parou o jipe no meio da praça, no meio da rua. A cidade era pequena, mas tinha guarda de trânsito, aquele negócio todo, parou e formou uma fileira de três, quatro carros que, para Marabá, na época, era um congestionamento. E os caras começaram a buzinar atrás; outros coronéis estavam impedidos. Daí o guarda de trânsito veio muito apavorado: “Doutor Demostino, o senhor poderia colocar o carro um pouco para o lado para os outros poderem passar por ali”; com muito jeito, assim. Ele pegou, tirou o revólver para fora e falou: “Olha, mostra isso aqui para eles e se alguém está com pressa manda vir falar comigo.” E não tirou o carro do meio. Então, essa era a cultura. Na ocasião em que a gente estava mudando para Grande Praia, que era aquele acampamento em Tocantins. E saí com Aguiar em um helicóptero pequeno. E aí, com um pouco de folga, nós resolvemos almoçar em Marabá para comer uma comida diferente etc. Então saímos de manhã de Buritirama, pousamos em Marabá e à tarde a gente ia para Grande Praia. Daí tinha havido um crime na cidade. Tinham matado o irmão de um dos chefes da cidade, de um coronel de lá. Era um cara que convivia com a gente na pensão. Os coronéis lá não eram coronéis. Eram coronéis para Marabá. E a polícia, combinada ou não, tinha deixado o cara fugir, o assassino do irmão numa briga na zona boêmia à noite. Não sei se tinha razão ou não. E o cara veio então lá, todo de preto, inteirinho de preto, chapéu preto, camisa preta, calça preta, tudo preto, tenso, me convencer a alugar o helicóptero para ele que ele pagava para ir atrás do assassino para matar o cara. Era comum na cidade naquela época você encontrar pessoas sem orelha. Sem orelha, porque quando um braçal ficava devendo dinheiro ou transava com a filha de alguém na cidade que o pai não queria ou alguma coisa assim, o cara contratava um pistoleiro para matar o outro. E às vezes o pistoleiro, ou conhecia o cara ou tinha pena ou qualquer coisa assim, e ia atrás do cara e a ordem era a seguinte: “Você me traz a orelha do cara.” E, às vezes, o cara não matava, mas tinha que levar a orelha. Então cortava a orelha do cara e o cara sumia no mundo. E depois de alguns anos aparecia na cidade, mas sem orelha. Era um mundo, era uma selva, uma violência com regras definidas. Diferente da violência de hoje que é uma violência urbana sem regra definida. Ou seja, se você fosse contra o que era estabelecido naquela sociedade, naquela hierarquia de poder e tudo aquilo, você se dava mal. Se você vivesse de acordo não tinha problema nenhum. Agora, hoje não. Hoje você está sujeito à violência urbana independente do que você faça ou deixe de fazer.

RELAÇÃO DE TRABALHO

Quando eu cheguei na Meridional, eu não sabia como era a estrutura da Meridional. Eu vinha de uma companhia muito bem organizada, que era a Icomi, onde você falar com o Gerente lá já era uma coisa... Só em festinhas etc. Mas trabalho se falava com o Superintendente e não com o Gerente. Havia um departamento e uma hierarquia rígida. Embora todo mundo fosse amigo, convivesse junto, mas durante o trabalho havia uma hierarquia rígida. E se um Diretor da Icomi, ou o próprio Antunes, ia visitar lá, o departamento quando muito via de longe, não chegava nem perto. Quando eu vim trabalhar na Meridional, no primeiro dia que eu vim trabalhar no Rio, no dia seguinte a gente foi para Belém, eu estou na fila do elevador e chega um que é amigo meu até agora. Outro dia eu fui nas bodas de ouro dele, Nilton Resende, que era Vice-Presidente da Meridional. Tinha um Vice-Presidente brasileiro, que era uma figura sem muito poder de decisão, mas que cuidava de toda a parte do dia-a-dia da empresa na realidade. O americano ficava mais no Clube Americano. Ia jogar golfe e tal, e ele que cuidava do dia-a-dia da empresa. Era uma grande figura humana, engenheiro de minas, de Ouro Preto, e o Tolbert me apresentou ao Vice-Presidente. Eu me lembro que eu liguei para minha mulher, à noite, falando que ia para Belém no dia seguinte e falei para ela: “Imagine que eu fui apresentado ao Vice-Presidente!” Que para mim era coisa! Na Icomi eu nunca tinha visto isso. Tinha uma estrutura muito menos hierarquizada. Daí nós fomos para Belém, antes daqueles sobrevôos que eu falei que a gente fez em Carajás. E ficamos no Grão-Pará, que era o único hotel de lá. E todo mundo enchendo a cara ali, daí o Nilton Resende chega para mim e fala: “Você toma muito cuidado na Meridional com a sua prestação de contas, porque o caixa da empresa não merece confiança.” O Vice-Presidente fala para mim que o caixa não merece confiança e não manda embora? Não entendi nada mesmo! Por que tinha acontecido aquilo? A estrutura da empresa era paralela a Pittsburg. Então o Vice-Presidente, quem podia mandar embora o caixa era o Diretor financeiro. O Vice-Presidente não podia mandar embora. Então, se o Diretor financeiro não quisesse mandar o caixa embora, não ia embora e eu não sei se ele era desonesto ou não, mas era trapalhão. E aquilo fez com que tudo o que eu fizesse na Meridional eu tirasse uma cópia para mim. E o que aconteceu? Naquela época foi aberta uma conta em meu nome em Belém e eu pagava tudo com essa conta, a conta da Meridional, mas eu tinha que assinar uns cheques. Quando eu ia para o campo eu deixava com a pessoa, deixava no escritório, alguns cheques assinados em confiança. Era o único jeito. Só eu assinava os cheques e pagava tudo quanto era recibo. Nós não tínhamos registro de pessoal. Imagina se tivesse morte, acidente, hoje o problema que seria! Era tudo desse jeito! Trabalhava com 250 empregados, tudo conta-recibo. Eu falava: “Tolbert, se eu quisesse ficar rico, eu ficava rico.” Era só arrumar 20 empregados fajutos aí e embolsar o dinheiro todo dia. Era tudo conta-recibo. Ninguém sabia se o empregado existia ou não. Era só na confiança do Tolbert comigo. Quando começou a regularização com a Vale, já em 1969, no fim de 1968, quando começaram a fazer o levantamento das contas para entrar no capital da nova empresa e para a Vale entrar com a parte igual. Porque tudo aquilo virou capital. Eles me fizeram uma cobrança que eu estava devendo para a empresa, que eu devia não sei quanto. Era igual ao valor de passagens de avião. E só aí que eu descobri que toda operação da Meridional, durante um ano e meio, foi registrada na empresa como adiantamento de viagem em meu nome, não havia contabilidade nenhuma na empresa. Saiu tudo como despesa de viagem do geólogo Breno. Um ano e meio de operação pagando helicópteros, avião, pagando tudo. Era uma despesa na época que chegava a... para hoje seria barato, mas na época não era tanto. Chegava a quase 800 mil dólares na época. Hoje seria irrisório, mas na época era quase um milhão de dólares. Estava como despesa. Eu fiquei preocupado com Imposto de Renda, com coisas desse tipo, mas me garantiram que não tinha problema nenhum e felizmente eu fui ver o que era. Umas passagens que eu tinha usado e não havia dado baixa. Felizmente, não houve problema nenhum. Então a estrutura da empresa era muito simples, muito primária do ponto de vista de... a Meridional, no início. E no campo era tudo muito simples também. Não tinha grandes atividades burocráticas.

TITÂNIO

Logo após o acidente, nós ficamos impossibilitados de chegar de helicóptero e coube a dois geólogos, o Zini e o Otávio, fazer o trabalho por terra. Era um trabalho muito difícil. Eles foram até uma pista que ficava em Maicurú, de avião monomotor e de lá seguiram por um igarapé que nascia na Serra de Maicurú, a pé, em um trabalho de dois, três dias para chegar lá e fazer a pesquisa. E os primeiros indícios revelaram que não era uma jazida do tipo Carajás, de minério de ferro, embora tivesse aquela crosta de canga semelhante. Mas tudo indicava que pudesse ser um complexo alcalino ultrabásico, como posteriormente as sondagens confirmaram. É uma região talvez com a maior reserva de minério de titânio que tem no Brasil. Uma reserva de alguns bilhões de toneladas, mas infelizmente sob a forma mineralógica semelhante a que ocorre na região de Tapira, na região de Araxá, na forma de anatásio. Existe tecnologia econômica para aproveitamento do titânio. Titânio é usado em ligas especiais, como metal, mas é usado principalmente para pigmentos de pintura, quase toda tinta usa pigmento de óxido-titânio. A Vale desenvolveu tecnologia para isso, mas ela não é competitiva do ponto de vista econômico, então é uma reserva estratégica que o país tem, fabulosa para titânio. Titânio é um metal cada vez mais usado na indústria moderna, mas isso vai ficar para os nossos futuros herdeiros, futuros descendentes. E posteriormente, quando a Docegeo entrou na região, ela foi novamente requerida pela Docegeo, foi feito um trabalho adicional para titânio e acabamos descobrindo também uma reserva muito boa de fosfato, que podia ser importante para agricultura regional, na margem do Amazonas. Talvez interesse mais ao governo do Pará do que à Vale essa reserva, mas para competir do ponto de vista internacional, para trazer para o Sul, é mais barato importar o fosfato de outra região do que implantar uma mina para exploração naquela área, que ficaria antieconômico. Eu até certo ponto acho ótimo porque a região tem aí uma beleza com lagoas e vegetação muito própria, e é bom que aquilo fique intocado por algum tempo. A Steel, depois inclusive da nossa saída da Meridional, completou a pesquisa naquela região, verificou que era anatásio e abandonou a área também. Depois a Docegeo, pela Vale, requereu e fez a pesquisa complementar e chegou à mesma conclusão.

ENTRADA NA CVRD

A sensação da entrada

Eu sou Vale mas estou fora da Vale, quer dizer, eu sou um corpo estranho na Vale hoje. Eu tenho amigos lá dentro mas eu não tenho nada a ver com a Vale, e mesmo que eu for visitar alguém dentro da Vale, eu me sinto meio constrangido porque eu fui do grupo de poder da Vale, e hoje esse grupo não existe mais. Nessa época aconteceu a mesma coisa com Carajás, a sensação emocional é a mesma. Carajás era do grupo do Tolbert, que foi colocado fora. Nessa época, já em Carajás, já não sentia bem, mas a gente ainda era Meridional. E de repente, eu passei para a Vale e quando a Vale fez associação com a Amza, eles passaram a ter o projeto. Ela fazia pesquisa de viabilizar a produção mas tinha também um grupo de fazer pesquisa de geologia em volta, e foi marcada uma área, tudo que fosse encontrado ali, daquele quadrilátero em Carajás ou pela Vale ou pela Meridional, não importava o dono, quem descobrisse, era fifty-fifty. Era meio a meio. Além disso tinha um acordo de criação da Amza que ninguém podia tirar; um não podia tirar empregado do outro.

O salário

A proposta que eu tinha era de seis e oitocentos e alguma coisa, na época. Eu, quando fui entrevistado, falei que tinha um mínimo de sete, eu joguei um pouquinho mais para cima e um máximo de dez, o dez era quatro vezes mais do que eu ganhava antes na Meridional e me ofereceram dez. Era uma coisa fabulosa! Eu pegava financiamento no BNH, eu acho que era o maior salário que eu tinha na época. Eu acho que nem como Presidente! Eu tinha um poder de compra tão grande quanto nesse início. Depois, a inflação foi comendo, o salário caiu na normalidade, mas no primeiro ano era um dinheiro fabuloso. Era muito dinheiro mesmo. Eu pegava financiamento no BNH e o cara não acreditava que eu tinha. Ele disse que nunca tinha visto um salário como aquele, dez mil e alguma coisa na época, era quatro mil dólares na época! Era o dólar na época que daria hoje, mais ou menos, uns oito mil dólares. Era muito dinheiro! Mas quando chegou na década de 80 eu cheguei a ganhar 800 dólares, no início da década de 80. Foi achatando, achatando, achatando... Quando o Delfim entrou eu não tinha dinheiro para pagar a escola das crianças. Mas depois melhorou, mas na década de 80, naquela recessão, foi muito difícil.

Entrada na Docegeo

Na Docegeo eu entrei para ser o Gerente Regional, em 1971. Quando houve aquele problema de não poder tirar um empregado do outro, o então Presidente da Vale se sensibilizou muito com isso e falou: “Não, já que eles não querem que ele venha para cá e nós já assumimos o compromisso de contratá-lo, vale a pena a gente investir nesse profissional.” Então, contrataram uma empresa de São Paulo, a Protec, empresa de engenharia, a Terraservice contratou a Protec para ela me contratar escondido. Quer dizer, eu era empregado da Protec, não era mais nem da Terraservice e não me deixaram ir para Belém. A minha mulher estava grávida de gêmeos, ficou morando um período em São Paulo, na casa da minha irmã em São Paulo e eu fui para a Bahia. Em junho de 1971, eu saí da Docegeo para a Meridional em maio, no dia 31 de maio, e comecei no primeiro de junho. Fiquei um período em São Paulo trabalhando na Protec, e depois fui para a Bahia iniciar o plano na Bahia, junto com o geólogo da Protec procurando cobre, cromo, que era o objetivo na Bahia. Foi uma experiência interessante trabalhar na caatinga e o trabalho inicial era mais o conhecimento do que existia. Foi nesse período que eu sofri um acidente. E depois recebi apoio total, total. E me ajudou porque eu tinha saído da Meridional, mas não era inimigo de ninguém e as pessoas lá ficaram um pouco constrangidas. Se não fosse a frescura deles eu não tinha sofrido o acidente. E, daí, em uma reunião que eles tiveram lá com o Mascarenhas, o Hudson, que era o Presidente da Meridional, que havia brigado com o Tolbert, que veio lá da Venezuela, aquele que veio para tomar conta do Projeto, em uma reunião de Companhia, ele falou: “Oh, se vocês quiserem contratar o Breno podem contratar que nós não incomodamos mais.” Aí eu podia me expor e passei a continuar em Belém já como chefe da Docegeo lá.

CASOS DE TRABALHO

O acidente e o governador

Nós íamos para Pedra Verde no Ceará, uma ocorrência de cobre conhecida, já era conhecida na ocasião. Eu estava saindo com o geólogo Saragioto, dirigindo, ele tinha passado a noite na farra, era solteiro e ele falou: “Você dirige hoje e eu dirijo amanhã.” Saiu a tarde indo para dormir em Juazeiro e de lá íamos para Juazeiro do Norte que fica perto, no Ceará. Foi na época da morte do Lamarca. Mês de outubro, o Lamarca tinha sido assassinado em setembro, então a região estava toda policiada. Pararam a gente na estrada duas vezes para revistar o carro indo para lá. Nós íamos dormir em Juazeiro. E, se eu não tivesse parado eu não tinha sofrido o acidente. Essas duas paradas me atrasaram o suficiente para logo depois do Senhor do Bonfim, uma descida, subindo uma rampa longa, reta, um ônibus perdeu o pneu dianteiro, era recauchutado, e começou a dançar no asfalto na minha frente. Eu estava a uns 110 quilômetros por hora, mais ou menos, aí eu não me lembro mais nada. Eu só lembro do meu amigo gritando: “Olha o ônibus!” Eu me lembro tirando o carro para o acostamento e depois eu me lembro no meio do mato e no lugar que o aterro acabava, tinha um buraco na terra e o carro começou a virar no aterro. É interessante você sofrer um acidente que você fica lúcido. Você pega a seqüência em câmera lenta, aquilo dura alguns segundos e parece que demora um século. E nessa época não se usava cinto no carro mas eu sempre usava. E toda vez que a gente viajava, às vezes, em grupo, os caras paravam no posto e ficavam de lado esperando eu abrir a porta e soltar o cinto para me gozar. E nesse dia, o meu amigo ia dormir, colocou o cinto e eu já tinha perdido o vício, o hábito de usar o cinto, e não usei o cinto. E quando a pick up deu uma volta completa, foi até lento, não foi traumático! Eu quis proteger a cabeça e me apoiei no teto assim, para não bater a cabeça. Eu achei que a cabeça era vulnerável! A pick up deu uma volta completa e no fim do aterro tinha um corte com uma vala, e quando ela deu uma volta completa, ficou em pé, por sorte, e caiu em pé a uns dois metros. Ela estourou os pneus mas os pneus amorteceram, mas eu perdi o equilíbrio e bati essa parte na direção. Foi um drama! Eu perdi o fôlego, fiquei lá. O meu amigo saiu pelo pára-brisa que tinha quebrado, subiu aquela rampa. O ônibus tinha caído em baixo. Estava partido no meio, sangue por todo o lado, pessoal todo machucado e tal. Caiu do nosso lado mas não bateu na gente. Aí tinha que parar uma pick up, teve que orçar o preço para o cara levar a gente para o hospital. Não sabia se ia morrer, se tinha quebrado a espinha, eu estava andando com dificuldade, não sabia o que era. O meu amigo tinha fraturado o punho também. E aquele drama, o cara na ladeira desligava o motor para economizar gasolina, você com pressa para chegar no hospital. E no hospital, estava mais ou menos bem, falei: “Vamos para o hotel então, já que está tudo bem vamos para o hotel.” O médico falou: “Não, o teu amigo vai engessar e vai, mas você fica aqui.” Eu falei: “Por que?” “Você está em estado de choque.” “Como eu estou em estado de choque?” “A sua pressão está 5 por 3.” Você fica elétrico, você não sabe o que está acontecendo! Aí, deu um trauma forte, uma dor muito forte aqui, nessa parte. Eu tinha fraturado uma costela, fiquei imobilizado sem poder mexer e com muita dor um dia e depois me deram um anestésico e eu melhorei. E voltamos para Salvador. O acidente foi na segunda-feira e na quarta-feira eu tive alta. Fiquei na terça e na quarta tive alta. Aí, aluguei um táxi para ir para Salvador já com os amigos. Voltei no local do acidente para ver o que tinha acontecido, porque eu tinha saído fora do acostamento? Porque eu tinha entrado no meio do mato? O ônibus tinha passado pelo acostamento, a marca do ônibus raspou no acostamento. Eu não me lembro disso! O ônibus passou por mim e eu não me lembro do ônibus passando, quer dizer, instintivamente eu tirei o carro da direção do ônibus sem perceber. Por sorte! Podia ter ficado anestesiado, batido no ônibus. Aí, era morte certa, não tinha dúvida nenhuma! E daí na sexta-feira eu comecei a passar mal, com hemorragia interna. Quer dizer, o que eles chamam de rompimento bicapsulado do baço, rompeu internamente mas a pele, a mucosa continuou retendo a hemorragia. Aí, foi enchendo como uma bexiga até que estourou. Se eu tivesse isso durante a viagem eu morreria porque o baço, a hemorragia do baço mata em duas horas, seca totalmente o indivíduo! É uma artéria muito grande que passa. E por sorte, o médico da Companhia, assim que eu cheguei em Salvador fui lá, ele falou: “Olha, você não sai de Salvador. Não faz esforço, você está sob observação, teu quadro é meio complicado. Você fica em observação, qualquer sinal, você me avisa.” Eu tive hemorragia numa sexta de manhã, na hora do café, e eu não quis tomar café. E era diretor do pronto-socorro ali no bairro do Canela, em Salvador. Ficava a meia quadra do apartamento que eu morava. Eu fui andando até lá quando eu comecei a passar mal: “Seja frescura ou não, eu vou para o hospital.” E lá, eles constataram a hemorragia e pediu autorização para operar. Fui operado no pronto-socorro municipal de Salvador, numa época que não tinha Aids, felizmente, porque eu levei dois litros e meio de sangue. Aí, foi o drama, porque eu sabia que a minha mulher estava grávida em Belém. Eu fiquei no pronto-socorro e depois fui para o Hospital Português onde fui excepcionalmente bem tratado, hospital de cinema americano, coisa fabulosa o atendimento que eu tive lá! E ligava para a minha mulher para não ficar preocupada que eu estava no campo, eu tinha chegado, mas o dia seguinte eu ia voltar para o campo para ela não ligar para mim. Ligava do hospital, ligava sempre para ela desse jeito. “Daqui três dias, eu te ligo.” E eu tive uma infecção, uma paralisia intestinal, depois a minha irmã esteve lá e falou que o meu caso era quase desenganado e eu não sabia. Mas depois de 15 dias eu tive alta. No dia que eu tive alta, chegou o aviso que os gêmeos tinham nascido em Belém, o Paulo e a Márcia tinham nascido. A Sandra, então, nasceu no Amapá. A outra, nasceu em São Paulo, mas eu morava em Belém e os dois nasceram em Belém; e eu estava na Bahia. Aí, no domingo, eu fui para Belém, foi um geólogo, o mesmo geólogo da Meridional que foi levar aquela carta para mim, o Marcos Albuquerque. Ele estava trabalhando comigo na Docegeo. E ele, na época, foi emissário de uma carta, depois foi meu portador, foi me levar até em casa. Eu cheguei lá, a minha mulher já tinha ido para casa com dois dias, foi parto normal, e ela teve que cuidar de dois gêmeos que tinham nascido e de mim. Os médicos na Bahia recomendaram que eu tinha que ficar em repouso, fazer um tratamento, que eu fiquei com derrame pleural. Até hoje eu tenho uma mancha, que colocou o diafragma, colou na pleura. Tenho uma mancha quando tiro radiografia aqui. E o derrame pleural é um tratamento difícil. E, através de um amigo meu, que era dono de um taxi aéreo de Belém que eu comecei a usar quando cheguei em Belém, depois ele acabou sendo padrinho de uma das gêmeas, da Márcia, ele ficou apavorado comigo daquele jeito e falou: “Ah, tem um parente do Virgílio...” que é um outro piloto, que é diretor de um hospital de pulmão muito grande aqui em Belém, Barros Barreto, um hospital famoso lá de Belém. E no dia seguinte ele me levou, junto com o Virgílio, que era o piloto, me levaram lá para falar com o diretor do hospital. O diretor do hospital falou: “Olha, eu tenho um médico muito bom aqui, inclusive não precisa nem atender no hospital, ele tem consultório aqui. É um médico novo, mas muito competente, especialista em coração e pulmão. Ele vai cuidar muito bem disso.” E chamou o médico e me apresentou. O nome desse médico era Almir Gabriel. Eu me tratei com o Almir Gabriel, e ele foi muito honesto comigo e falou: “Olha, tudo o que podiam fazer com você fizeram direitinho, lá na Bahia, só que te falaram que a sua recuperação vai ser de um mês. Não vai ser de um mês. A sua recuperação vai ser de dois meses, se você fizer tudo direitinho. Então, você vai ter repouso absoluto, só sair de casa para fazer as radiografias e para vir no consultório, e só isso.” Foi cortisona, estava na base de cortisona! Praticamente em dois meses eu tive alta, foram duas consultas que eu tive com ele no consultório, depois umas três ou quatro vezes que eu comecei, talvez por frescura, por mal estar, achar que estava com insuficiência respiratória e a minha mulher apavorava ligava para a casa dele, ele ia em casa. Foi umas duas ou três vezes em casa. E nessa época eu comecei a conversar nas consultas, conversar de Carajás, conversar disso, daquilo, foi fazendo uma amizade. Na hora de pagar eu falei: “Bom, quanto lhe devo?” “Não, conversa com a minha secretária que eu não mexo com isso.” Aí, fui falar com a secretária e ela falou: “São duas consultas.” “Não, mas há um engano porque ele foi umas duas ou três vezes e não está cobrando isso.” “Ah, então o senhor fala com ele.” Voltei a sala dele e falei: “Têm essas consultas em casa que você não cobrou.” Ele falou: “Não, são só as duas consultas mesmo. Aquilo foi visita de amigo.” E assim começou a amizade com Almir Gabriel. Depois disso, nós precisamos de um médico na Meridional para ser médico do trabalho, eu o consultei, ele indicou Alfredo de Oliveira, que ficou depois um grande amigo. É até um compositor lá no Pará, hoje. Depois, o Alfredo de Oliveira construiu uma casa em Salinas. Eu o conheci em Salinas, aí comprei um terreno em Salinas, construí uma casa ao lado. Então, parte do tempo que eu trabalhei em Belém, meu filhos curtiram as primeiras férias em Salinas, na praia. E depois o Almir Gabriel, nessa época, foi depois diretor do Barros Barreto e, na segunda vez que o Alacid foi governador do Estado, antes de ser governador do Estado, antes disso, o Almir Gabriel foi Secretário Municipal de Saúde. E nessa ocasião, no início da década de 80, por aí, tomando cerveja lá em casa, na beira da piscina e jogando conversa fora, e discutindo da falta de liderança política no Pará e tudo, eu saí com essa, falei: “Quem devia ser uma liderança política no Pará é o Almir Gabriel.” E ele fala: “De jeito nenhum. Você não conhece o Almir Gabriel. O Almir Gabriel é meu compadre, nós fomos colegas de faculdade. Almir Gabriel jamais vai ser político, ele é refratário a qualquer atividade política. Eu sim já tive atividade política e não vou ser político no Pará, e tal.” Ele inclusive era do Partido Comunista, sobreviveu, tinha estado em Cuba na época do Ministro Fidel Castro. “Mas, o Almir Gabriel jamais vai ser político etc.” Dali a 15 dias dessa conversa ele foi convidado para ser Prefeito porque quem nomeava o Prefeito era o Governador, e o Alacid era Governador, e o Almir Gabriel era Secretário Municipal de Saúde nessa época. Uma atividade puramente médica. Foi convidado para ser prefeito de Belém pelo Alacid Nunes! O Alfredo imediatamente me ligou: “Quando o Almir me ligou eu falei: 'Mas o Breno falou isso 15 dias atrás!'.” Ninguém sonhava com a candidatura dele. Depois, acabou sendo Senador e duas vezes eleito Governador do Estado. Foi uma coincidência ter vindo assim da Bahia e acabar conhecendo o Almir Gabriel.

Lenda de Martírios e Serra das Andorinhas

Uma história interessante é a história de Martírios. É algo interessante. Eu sou um cético, que sou surpreendido, de vez em quando a vida me apronta alguma, e falo: “Eu preciso deixar de ser cético.” Aí depois eu falo: “Não, foi simples coincidência.” Mas as coisas que aconteceram na minha vida tem uma espécie de, não digo premonição, mas parece que as coisas são muito predeterminadas. Então, quando eu tinha uns 14 anos, o irmão de minha mãe, tio Aldo, deu dois livros para mim, chamados “A Serra Misteriosa” e “A Volta à Serra Misteriosa”, de Francisco Marins, da edição Melhoramentos. E eu lia pouco nessa época, mas esses livros eu me interessei em ler. Era a história de uns garotos que seguiam os bandeirantes, filhos dos bandeirantes e seguiam em busca da Serra Misteriosa. E a Serra Misteriosa era um lugar que os primeiros habitantes do Brasil, de Piratininga, quando começaram as bandeiras, encontraram muito ouro, depois esse lugar ficou perdido e uma outra bandeira foi feita para descobrir... As duas aventuras foram feitas para o rio Araguaia e para o Cuiabá, e não acharam a Serra Misteriosa, então chamava Serra dos Martírios, o lugar da Serra Misteriosa. Bom, quando eu saí da Icomi e fui trabalhar na Meridional, peguei os primeiros mapas da região. Imagine que eu ia com helicóptero, ser chefe de uma equipe que ia voar com helicóptero, sem nunca ter voado de helicóptero! O medo! O que me ajudou muito foi o Tolbert, eu perguntei: “Como eu faço?” Ele falou: “Ninguém sabe fazer porque nunca ninguém fez, então a empresa está pagando para que você aprenda.” E foi assim que nós aprendemos a trabalhar de helicóptero na Amazônia. Não pilotar, fazer a operação de geologia usando helicóptero, criando técnicas específicas para a região e tudo. E peguei uns mapas da região, e de repente peguei um do rio Araguaia e estava lá a Serra dos Martírios. Eu falei: “Interessante coincidência, então o nome Serra dos Martírios aqui é o mesmo daquele livro que eu li.” Aí estava lá, Serra das Andorinhas ou Serra dos Martírios, bem em frente a Xambioá no rio Araguaia, no Estado do Pará. Mas também registrei aquilo, deletei e acabou, e no tempo da Meridional, procurando manganês, com a fotografia aérea, vi uma serra que fica entre Carajás e Conceição do Araguaia. Falei: “Essa serra pelo jeitão aí pode ser que tenha manganês e etc.” E tentamos trabalhar, mas depois não conseguimos trabalhar na região. A Meridional acabou fechando o programa e começou a Docegeo. Quando chegaram os helicópteros da Docegeo para trabalhar, essa região de Conceição do Araguaia etc. era uma região mista de cerrado e floresta, era uma região boa para começar a treinar os pilotos, treinar os geólogos. E selecionei essa serra para começar o trabalho. E como a serra não tinha nome, e passava um igarapé, um córrego como se diz em São Paulo, ou ribeirão, ou arroio como se diz no Rio Grande do Sul, um pequeno rio, chamado rio Maria, ou Ribeirão das Andorinhas, e a serra parece uma asa de andorinha, eu batizei Serra das Andorinhas. E hoje no mapa, ela é conhecida como Serra das Andorinhas, foi batizada dessa forma, na época não tinha nome nenhum. E nós começamos a trabalhar com a Docegeo, procurando ver o que tinha na época. O objetivo era cobre. Encontramos alguma coisa, começamos a intensificar a pesquisa e acabamos descobrindo ouro nessa área. E o ouro numa época, que a cultura da Vale na época era mais ou menos assim: tinha gente que não admitia trabalhar em ferro fora de Itabira; tinha os mais liberais que permitiam trabalhar em ferro em Minas Gerais; e Carajás, que a Vale tinha sido obrigada a entrar por força do governo, era um negócio profundamente rebelde. Imagine você trabalhar com outra coisa e fora de Minas Gerais, ainda mais ouro? A Docegeo era pioneira tentando criar uma cultura nova, etc., de diversificação. O Romeu foi o grande idealizador da Docegeo, um dos grandes idealizadores. E então trabalhar com ouro. Então o ouro a gente começou a mexer, assim, por aquela curiosidade profissional. Tinha um químico muito bom no laboratório de Belém, então a gente fazia quase que escondido análise para ouro, para ir criando uma cultura de ouro. Então essa é a pré-história do ouro na Vale, quer dizer, não é a história do ouro, é a pré-história que praticamente hoje ninguém lembra o que aconteceu. E nós estávamos procurando logicamente cobre, que era o objetivo da empresa encontrar cobre e as amostras para cobre a gente fazia cobre, chumbo, zinco, análise, e fazia para a prata, porque a prata podia ser também indicador da presença desses metais. E de uma determinada amostra lá deu um valor muito alto em prata e muito baixo nos outros metais. Sempre havia uma relação da prata com esses metais. E o químico, infelizmente já falecido, um químico irlandês, que veio com uma multinacional de alumínio e acabou ficando com a gente lá na Docegeo em Belém, William McManus, uma pessoa fabulosa, um grande cientista, ele está enterrado em Niterói, faleceu quase pobre em Niterói, uma pena. Ele então chegou para mim: “Oh, Breno, não sei o que aconteceu com essa amostra, porque deu prata muito alta e muito baixo o resto.” E eu falei para ele: “Serra a amostra, vamos dar um olhada no que tem.” E na hora que a amostra foi serrada e ele trouxe para eu olhar, cortou um pedacinho de ouro, então ficou aquele risquinho amarelo... Aí, analisando para ouro deu mais ouro que os outros. Tinha um pedaço de ouro, ia dar um valor absurdo! Daí começamos a fazer uma pesquisa de ouro, isso em 1976, nessas serras. Tem tudo ligação com o Martírios!!! Vai chegar lá!!! Então surgiu esse valor, essa amostra de ouro, e começou uma pesquisa de ouro. Ia haver mudança de governo, então era importante que houvesse alguma descoberta de impacto e o atual Presidente da Docegeo, Manoel Magalhães, incentivou que a gente fizesse, embora fosse dentro da Vale um palavrão ainda falar em ouro. E nós começamos então a fazer essa pesquisa com muito sigilo. Em 76, que foi um ano eleitoral na região. Havia uma rodovia que ligava Marabá até Conceição do Araguaia, passando por Redenção. Nessa área, onde o rio Maria cortava essa rodovia, surgiu uma cidade, que hoje chama-se Rio Maria. Lembram que o rio chamava ou rio Maria ou Ribeirão das Andorinhas? Eu peguei o nome andorinha para colocar na serra, quem fez a cidade pegou o nome do rio para colocar nome na cidade, e começou uma estrada em direção do Xingu. Na região da junção da estrada, como era eleição, eles começaram a incentivar a migração para arrumar eleitores e começaram a dar lotes na região. Então surgiu da noite para o dia em 76 a cidade de entroncamento que hoje chama-se Xinguara. Surgiu em 76 dessa forma com serrarias e migrantes, e nem todos conseguiram ter essas áreas de conflito de terra, tudo, essa é a pré-história dos conflitos de terra no sul do Pará também, as pessoas foram atraídas, foram incentivadas, depois não tinha terra para todo mundo. E alguns que foram atrás de terra já tinham trabalhado em garimpo e não conseguiram lotes, e começaram a garimpar os rios que drenavam a região da Serra das Andorinhas cortando a estrada. E acharam ouro. Então aquele nosso segredo mantido durante um ano ali, virou um segredo de polichinelo. E o que aconteceu? Houve uma premonição que haveria uma corrida garimpeira na região, e a direção da Docegeo foi a Brasília. Na época tudo que fazia a Docegeo, a Vale, era o Conselho de Segurança que tomava conhecimento, e foram pessoas do Conselho de Segurança para lá etc., daí é uma outra história que entra Curió, começou Curió aí nessa época. Mas, a notícia ficou pública, e o jornalista Lúcio Flávio, na época trabalhava no Estado de S.Paulo, esse meu amigo de Belém, ele recebeu ordens dos Mesquitas, que havia uma descoberta fabulosa ali na região de 20 mil toneladas de ouro. Tem uma idéia do que é 20 mil toneladas? As maiores minas do mundo têm duas mil toneladas, o Brasil produziu até hoje talvez umas 3 mil toneladas, desde a época colonial até hoje umas 3 mil toneladas. O Brasil produz hoje por ano 60 a 70 toneladas de ouro, a África do Sul na melhor época produzia 600 toneladas de ouro, 700 de ouro por ano. Então ali tinha 20 mil toneladas! Que ele publicou, deu manchete no jornal “O Liberal” em Belém e no “Estadão”, em São Paulo. No dia seguinte – assim que começou a minha amizade com o Lúcio Flávio – ele foi lá no escritório e falou: “Bom, Breno, me deram ordem para que eu publicasse isso, o que tem por trás disso?” Eu falei: “Não tem nada, não existe nada sobre isso, simplesmente nós temos uma ocorrência de ouro, esse garimpo, mas ninguém sabe o que tem.” Parece que foi uma jogada da antiga direção da Vale, que era uma direção política, junto com o Ueki, para jogo de Bolsa, e eu fui proibido pela direção da empresa de desmentir, até que chegou um dia, se deslocou daqui para lá o “Jornal Nacional”. Com um cinegrafista e um repórter foram até Belém e falaram: “Você tem 30 segundos para falar a verdade sobre Andorinhas.” E saiu em Jornal Nacional o desmentido, três meses depois das ações da Vale terem subido etc., daí eu pude desmentir que não havia 20 mil toneladas. Durante esse período, em três meses, essa área de Andorinhas foi capa da “Newsweek”. “Newsweek”! “Senhor” fez uma reportagem de capa, todos os jornais, “Veja”, “IstoÉ”, todos os jornais e revistas do Brasil fizeram uma reportagem de Andorinhas. Essa é a pré-história de Serra Pelada, do ouro da Vale, do ouro no sul do Pará, essa é a pré-história.

Aí eu tive que falar que não era bem isso, que havia uma área com potencial, etc. e tal, como realmente depois se encontrou algum ouro mas chegou a 20 toneladas alguma coisa assim. Mas quando essas notícias estouraram, a região era Serra das Andorinhas, daí aparece uma notinha em São Paulo, no jornal “O Estado de S.Paulo”, do Manuel Ferreira Rodrigues. É um engenheiro espetacular, eu sei que ele é vivo ainda, o meu irmão outro dia conseguiu na internet, quer dizer, sabe que ele está vivo ainda, deve estar com quase 90 anos. Ele escreveu “A Ferrovia do Diabo, a Madeira-Mamoré”, um livro famoso dele. Mas essa pessoa então colocou que sabia que tinha muito ouro na região, porque a Serra das Andorinhas estava muito perto da outra Serra das Andorinhas, ou da Serra dos Martírios, onde desde o tempo dos bandeirantes se conhecia muito ouro. Então a direção da empresa pediu os livros dele, e daí conseguiram os livros, e ele havia descoberto em 70, quer dizer, antes de quando eu fui para região, eu vi os mapas de Martírios, ele também pegando esses mapas de Martírios começou a fazer pesquisas, e conseguiu comprovar que realmente a Serra dos Martírios dos bandeirantes era essa Serra dos Martírios que estava lá. Ele encontrou os desenhos na pedra que representava um sol e que os bandeirantes acharam que era a Coroa de Cristo, daí o nome dos Martírios. Perto de Xambioá, numa pedra lá no rio, existe essa marca. E essa expedição, ele fez só em 70, depois da descoberta de Carajás, quer dizer, quando eu fui para Carajás ele ainda não tinha a confirmação de que lá era a Serra dos Martírios. E depois ele me confidenciou – depois eu acabei ficando amigo dele –, mais tarde ele me confidenciou que havia só uma grande dúvida, porque nos mapas antigos, dizia que os Martírios ficavam no Paraopava, e ele pensava que o Paraopava era a lagoa ali na região da Ilha do Bananal, aquele alagado que tem ali. Ele só identificou alguns anos depois, já nos meados da década de 70, um antigo mapa em Portugal que marcava o rio Araguaia com o nome de Paraopava. Então teve a comprovação, quer dizer, a lenda toda inicial é que quando os bandeirantes chegaram em Piratininga, em contato com os índios, os índios falaram uma lenda que no centro do continente do país, havia um grande lago com muita riqueza, e daí as bandeiras começaram a ir para o Araguaia em função dessa lenda que havia em Piratininga. Era a lenda de Paraopava.

E é uma lenda real! Daí nós pegamos os livros do Manuel Ferreira que falava de Martírios, e que estava ligado com o Francisco Marins, tinha uma ligação com Francisco Marins mas eu ainda não sabia qual era. Quando houve esse estouro das 20 mil toneladas, então foi o Conselho de Segurança Nacional lá etc., e tinha uma brigada em Marabá, então nós descemos lá para tentar congelar o garimpo que tinha duzentas e poucas pessoas, para não ter uma corrida na época na região, com o general de brigada, General Valdemar. General de brigada, com SNI, com tudo que tinha direito na época para tentar congelar, descemos com helicópteros, avião etc., aquela força-tarefa toda. E lá nesse dia o General pediu ao Presidente da Docegeo, que ele tinha um ciclo de palestras lá no quartel e queria que alguém fosse fazer um ciclo de palestras sobre as riquezas, fosse fazer uma palestra sobre riqueza mineral na Amazônia, e o Presidente da Vale então me indicou para essa palestra. Nunca tinha feito uma palestra, imagina fazer palestra no quartel! E marinheiro de primeira viagem, o que acontece? Eu quis fazer uma palestra que falasse onde tinha um pedacinho de ouro na Amazônia, não podia deixar de falar, tinha que falar aquilo. Então fiz uma palestra, que massacrei o pessoal no quartel, de três horas. Imagina uma palestra num quartel de três horas! E no dia que o Geisel havia destituído o Frota! O Frota havia sido destituído do Ministério do Exército, ele foi exonerado no dia que eu fui fazer a palestra. Cheguei no quartel de manhã lá e falei: “Quero falar com o General Valdemar.” Os caras vieram com baioneta e me levaram preso, o pessoal do dia: “O que esse cara quer falar com o general?” Daí até explicar que eu ia fazer uma palestra e tal, então a palestra foi feita num dia de muita tensão dentro do quartel. Bom, essa palestra então está ligada a Martírios, quer dizer, em função de Andorinhas, Martírios, eu acabei fazendo esta palestra. Esta palestra acabou virando um folheto, lá, um livreto, e caiu na mão de um amigo meu, na época era mais conhecido como confidencial, e tinha um jornalista da “Gazeta Mercantil” que foi ficar na casa dele e levou um exemplar. Escondido! E quando o Figueiredo assumiu, ele publicou com chamada de primeira página da “Gazeta Mercantil” o resumo da palestra, dizendo que aquilo era o plano secreto do governo Figueiredo para a Amazônia na era mineral. Capa, chamada: “URÂNIO NA AMAZÔNIA”. Na minha palestra falava dois parágrafos que não se conhecia ainda o urânio na Amazônia, mas ele daí colocou: “Urânio na Amazônia” como chamada. E foi um bafafá, e uma editora de São Paulo, a A.T. Queiroz, me mandou uma cartinha perguntando se eu queria transformar aquela palestra em livro. E eu acabei relutando, acabei, no final aceitei, e o livro foi escrito em 80 e publicado em 81. Chama: “Amazônia: potencial mineral e perspectiva de desenvolvimento”. Minha primeira chance de desquite foi nesse período porque eu fiquei trabalhando todas as noites no escritório, e fim de semana, maquininha, uma Olivetti, era aquelas portáteis, escrevendo lá com dois dedos, e sem nenhuma estrutura, a não ser algum apoio da empresa para fazer de material só, de secretária ajudando. O livro foi publicado em 81, no começo de 81, e quando foi no final de 81, início de 82, não me lembro direito, o editor me ligou e falou: “Olha, está de parabéns. O teu livro ganhou o Prêmio Jabuti!” Eu falei: “O que é isso?” . Não sabia o que era o Prêmio Jabuti, e ele falou: “Não, é mais ou menos o Oscar editorial no Brasil.” Então ele ganhou na parte de Ciências Naturais, na categoria de Ciências Naturais. Mas a ligação está com Martírios ainda, vamos ver onde vai chegar lá. E aí fui com a família, com tudo que tinha direito na Biblioteca Municipal de São Paulo para a entrega do Prêmio Jabuti, acho que foi em 82. Ele ganhou o prêmio de 81, a entrega foi em 82. E foi meu irmão que já sabia da história do Francisco Marins e etc., quando compuseram a mesa, um dos que foram chamados para a mesa foi o Francisco Marins, que eu nem sabia se era vivo, se era morto. Francisco Marins compôs a mesa, e meu irmão me cutucou e falou: “Olha quem está lá?” E na hora da entrega do prêmio uma coincidência, não estava predeterminado, quem me entregou o prêmio foi o Francisco Marins. Tanto que na hora do prêmio, eu falei: “Eu quero falar com você.” Daí eu saí e contei a história para ele. Mas nesse meio tempo, entre a publicação do livro e a entrega do prêmio, aconteceu um outro fato. Foi feito um “Globo Repórter” sobre Carajás, começo de 82, alguma coisa assim. E foi uma pessoa que trabalhava na Vale, que depois trabalhou comigo, mora em Niterói também, Sebastião Lopes, que era um assessor da Vale, e ele foi acompanhando a equipe da Globo. Era o Pedro Rogério, da Globo, na época trabalhava na Globo e fazia o “Globo Repórter”, e eu peguei um livro para dar para esse Sebastião Lopes, e a única pessoa que eu cito no meu livro é o Manuel Ferreira, quando eu falo da lenda de Paraopava. Quando eu falo em ouro na Amazônia eu falo do ouro dos bandeirantes, eu falo de Paraopava. E num avião indo para Carajás eu comecei a ler o livro e abri nessa página e comecei a reler esse trecho, e falei: “Não mandei um livro para o Manuel Ferreira ainda, preciso mandar um livro para ele.” Quando cheguei em Carajás, eu dei o livro para o Sebastião com dedicatória, até falei: “Eu estava lendo aqui esse pedaço, eu preciso mandar para o Manuel Ferreira.” Ele falou: “Por que você não dá para ele agora?” Eu falei: “Por que?” “Ele está na sala do lado.” Foi assim que eu conheci Manuel Ferreira. O que o “Globo Repórter” fez? Eles pegaram a lenda de Paraopava para fazer um “Globo Repórter”. O lago a ser criado por Tucuruí, que estava em construção, era a grande lagoa que tinha sido uma premonição histórica dos índios, que havia um grande lago com riqueza, e que as riquezas de Carajás, e o ouro de Serra Pelada, eram as riquezas daquela época. Então fizeram um “Globo Repórter” com Manuel Ferreira e comigo criando essa história toda. Aí o Manuel Ferreira foi a Belém e bateu um papo comigo, colocou nos livros que eu já tinha dele dedicatória em todos, uma pessoa muito interessante, e daí eu fiz uma pergunta, eu falei: “Escuta aqui, e o que o Francisco Marins tem com isso?” Ele falou: “Eu comecei a conhecer isso que eu fiz parte da expedição Roncador, como engenheiro, com os irmão Villas Boas, quando penetraram o Mato Grosso, e quando andando por lá, eu achei muitas ruínas, no meio da selva, e que nós identificamos como ruínas dos tempos das bandeiras, que ficaram perdidas no meio das selva, e eu comecei a me interessar pela história dos bandeirantes, cheguei a Paraopava, e freqüentava muito a Melhoramentos. E lá eu conheci um jovem escritor e contei as histórias para ele, e ele perguntou se eu podia transformar essas histórias em histórias para crianças, adolescentes.” Daí fechou o círculo do Francisco Marins e desde da história de Martírios. E hoje existe uma Associação – a área de Andorinhas se transformou em área de preservação ambiental, uma área chamada Parque das Andorinhas esse lugar –, eu nunca visitei, sobrevoei várias vezes mas nunca... tive várias chances de descer com helicóptero lá, mas achava que ia desviar do trabalho, nunca desci lá. E a Serra dos Martírios também é um nome de premonição, porque a Guerrilha do Araguaia se entrincheirou lá na Serra dos Martírios. E quando o Exército com o Curió etc. entraram lá, eles foram massacrados na Serra dos Martírios, quer dizer, o nome Martírios era por causa da Coroa e o confronto maior do Exército e da antiguerrilha com a guerrilha foi na Serra dos Martírios, lá em Araguaia.

Repressão, militares e Docegeo

Hoje existe repressão policial, existe tortura, existe violência, mas existe um espaço para você protestar. Naquela época não havia nada. Você tinha que se virar sozinho. Então o que aconteceu? Um braçal nosso, em Rio Maria, foi na zona de Rio Maria, e viu uma garota lá e estava transando com ela. Só que tinha um soldado da PM que devia estar apaixonado, alguma coisa, por essa dona. O cara simplesmente entrou lá, chutou a porta e atirou e matou os dois. Bom, aí, isso aconteceu em 76, naquela época que eu contei a história do quartel, que andei trabalhando em Andorinhas, naquele clima que havia naquela época, e a gente já tinha contratado um coronel para ser segurança da Docegeo. Foi naquele período que a coisa estava em transição. Aí, o que aconteceu? A polícia de Rio Maria já tinha uma briga com a Docegeo, porque logo que a Docegeo começou a atuar lá eles pegaram os nossos braçais ali, na estrada, e deram uma surra nos nossos braçais, sem razão nenhuma. E daí tinha um capataz mais forte, pegou o cabo ou o sargento que tinha comandado aquele negócio na cidade de Rio Maria, e deu uma surra nele na frente de todo mundo, de toda a população da cidade. Então, ficou aquela animosidade, Docegeo e PM de Rio Maria. Mas era mais ou menos tolerável. Quando houve esse crime, aí você tem a obrigação de não deixar esse negócio parado. Tinha que ter um inquérito. E eu, inocentemente, ingenuamente, pedi que o meu administrador fosse até a delegacia para ter idéia de como estava indo o inquérito, o que tinha constado no inquérito. Ato normal de qualquer situação, tem um crime, você vai à delegacia e pergunta como é que está indo o inquérito. E dali uma meia hora me chamaram no rádio, o rádio operador de Rio Maria, pedindo socorro, porque o Carlos, que era esse administrador, estava sendo torturado. Pegaram a mão dele com uma palmatória, e começaram a bater. Simplesmente falaram que quem era ele para pedir satisfação para a polícia. Então começou com a palmatória nele. E a sorte minha é que um ex-vizinho meu, que era amigo, hoje é uma das grandes fortunas do Pará, Danilo Remor, tinha a Serraria de Rio Maria, a Serra de Rio Maria cresceu dentro da fazenda dele, e era uma espécie de dono da cidade. Então, imediatamente telefonaram para ele, que fossem lá no Dirceu, que era o irmão do senhor amigo do Danilo, e que o Dirceu fosse lá tomar uma atitude. Aí o Dirceu foi lá, quer dizer, o Dirceu era respeitado, então o Dirceu foi lá. Inclusive o nosso acampamento era dentro do terreno da serraria. E daí conseguiu se tirar o rapaz de lá, nós mandamos um avião, trouxemos para Belém, levamos para o hospital, a mão dele ficou toda com sangue pisado. Quebraram o relógio dele e tudo. Então, esse era o clima que a gente vivia. E o geólogo que foi preso, ele estava com malária e veio para Belém para trabalhar no escritório e saía do escritório para ir na Fundação Sesp tomar o comprimido da malária todo dia. Eles faziam esse ritual para o cara realmente se tratar. Então, ele saiu umas 4 e meia da tarde, e, vizinho à Docegeo, lá, na Almirante Barroso, em Belém, era o quartel da PM. Era época de eleição, o ano de 76. Ele, a hora que estava passando na calçada, estava tudo com sentinela, quer dizer, época de eleição era época de Segurança Nacional. Tudo era segurança. Então você não podia passar na calçada junto ao muro do quartel. Então, o sentinela falou para ele: “Passe ao largo.” Ou seja: passe distante. Aí, o geólogo estava indo à pé para ir tomar o remédio dele. Aí ele olhou para o soldado, deu uma risadinha e se afastou. Mas só deu aquela risadinha: “O que eu estou fazendo?” Quando chegou em frente a porta do quartel, o sargento prendeu. “Mas por que eu estou preso?” “Desacato à autoridade. O senhor riu do nosso sentinela.” Trancaram ele na sala, ele ficou lá junto à PM. Lá pelas tantas, o sargento entrou na sala e ele falou: “Olha, eu queria saber ao menos o seu nome, porque daqui a pouco você vai embora, eu fico aqui e ninguém sabe que eu estou aqui dentro.” “Ah, o senhor quer o meu nome para dedar? O meu nome é fulano de tal.” Mostrou nome. “E a minha ficha está limpa.” “Agora só porque você falou isso, você não vai ficar mais aqui, você vai para a delegacia.” Colocaram no camburão, levaram para a delegacia e colocaram ele lá com preso comum. Aí, quando foi mais ou menos oito horas, foi a esposa de um preso levar comida, e ela morava a uma quadra da delegacia que ele estava preso, e, através dessa mulher, da esposa do preso, pediu que fosse à casa dele avisar a família, os amigos da Docegeo, tudo aquilo. E mesmo assim, só conseguiram tirar ele de manhã, às seis horas da manhã, ele teve que passar a noite na prisão. Então esse era um momento. Agora isso que aconteceu com a gente, hoje não acontece mais, está acontecendo com quem mora em morro. Quem mora em favela de São Paulo está acontecendo todo dia. Ou seja, você ser preso sem culpa e não saber porque que é, e morrer. Naquela época da repressão, parte da elite era afetada também. Porque você não estava em um Estado de Direito. Hoje, o Estado de Direito é Estado de Direito para uma parte da população. Que o restante da população não tem Estado de Direito, não. Bom, então nesse clima que aconteceu, esse negócio de Rio Maria. Aconteceu um fato interessante, mudou o comando da PM em Belém, em 76, e entrou um coronel. E daí foram relatados todos esses incidentes que aconteceram. É uma figura fabulosa, ficou meu amigo. Um cara fabuloso, depois largou a PM, foi trabalhar no Jarí etc, Coronel Gilberto Siqueira. Era um coronel do Exército, na época era comum colocar pessoal do Exército na PM, uma pessoa íntegra, uma pessoa fora de série. Então aconteceu uma cena, foi uma cena em que eu lavei a minha alma. Nós fomos a Rio Maria com ele e com o coronel da Docegeo, ele fardado como comandante da PM do Estado do Pará. E fomos lá na Delegacia. Daí, chegamos na Delegacia, a Delegacia fechada e uma mulher lavando roupa lá, do lado da Delegacia. Daí, eu falei: “Eu queria falar com o...” o Coronel sabia o nome do Sargento, comandante lá, da Delegacia. Aí ela falou: “Ah, eu não vou chamar não, porque quando ele está dormindo ele não gosta de ser incomodado.” “Diga a ele que eu quero falar com ele.” “Aí ela foi lá, acordou. Voltou: “Ele quer saber quem quer falar com ele.” “Diga a ele que é o comandante dele.” Aí o cara saiu de cueca lá da rede, tal. “Quem quer falar comigo?” Quando viu o comandante da PM com tudo quanto é galão que tem direito na frente dele, imagine o susto que esse cara levou. Quer dizer, vem o comandante da PM dentro da Delegacia dele, ele dormindo. Aí ele foi calmo: “Olha, o senhor vai lá, coloque sua farda, e se apresenta ao seu comandante.” Aí nós saímos, saímos de lá. Aí ele falou, falou com o cara, tal. À tarde ele obrigou toda a corporação da PM a ir ao acampamento da Docegeo. Ele falou: “Isso aqui é uma empresa de governo, está atuando aqui na região, é política de governo para atuação de governo. E vocês estão aqui para apoiar essa empresa e não para hostilizar essa empresa. Não quero mais nenhum ato de covardia, de violência contra os empregados dessa empresa.” Dali para frente a gente fez convênio com a PM, montamos acampamento para eles, melhoramos o posto da PM, daí passaram a ser aliados. Mas você vê como as coisas dependem muito da atitude de um homem que está no comando. Se fosse um outro comandante da PM talvez nem ligasse para o que aconteceu, deixasse tudo em branco. Entrou uma pessoa íntegra, então, o Brasil, só vai começar a mudar quando as pessoas que tiverem os postos que exigem decisão tomem decisões coerentes com o que deve ser feito. Quer dizer, quando houver essa mudança geral. A reação do próprio comandante: “Não, a PM é desse jeito mesmo, não tem como mudar.” E deixava como estava. Quer dizer, ele fez uma pequena mudança ali, criou um pequeno gérmen de mudança na população, que talvez depois, com o tempo, vem um outro comandante que não deu a mesma importância, e a coisa volta a ser o que era. Mas se todo mundo fosse dando essa continuidade, aí muda o nosso sentimento de comunidade, de nação. Enquanto isso a gente vai ser um bando de pessoas que estão atrás de saque, de enriquecimento pessoal e nada mais que isso.

DOCEGEO

O germe da empresa

Havia um germe de geologia dentro da Vale. A Vale foi uma empresa sempre de engenheiro. Todas as grandes empresas de mineração começaram com geologia porque os outros países de mineração, tipo Canadá, Estados Unidos, Austrália e África do Sul sempre tiveram uma geologia muito forte. Então ia a equipe de geologia procurar um desses países, tinha sucesso e surgia uma empresa de mineração, vinha o capital por trás, etc., mas a geologia sempre fazia parte da estrutura de poder dentro da empresa. A Vale não é uma empresa assim porque Itabira surgiu, historicamente, depois houve um acordo com o governo americano, num esforço de guerra eles devolveram Itabira, e aquilo já começou com uma mineração. E uma mineração que não sabe geologia porque ia lá, e no começo não precisava de geologia. Então, ela começou a ter geologia sistemática mesmo. Tinha um engenheiro que fazia geologia mas não era geologia mesmo sistemática. Já surgiu quando formaram os primeiros geólogos e o Machado foi um dos primeiros geólogos a trabalhar lá. Antes, o engenheiro de minas fazia mineração e geologia. Então ela passou a criar um germe de geologia, já na década de 60. Aí como já tinha um certo germe de geologia antes... mas a Vale começou a ter mais geologia nesse período.

De geologia mesmo, sistemática, de fazer pesquisa, para fazer laboratório de lavra, isso era feito junto com a mineração. Não é que não havia geologia, mas era uma geologia misturada com a mineração. Culturalmente é diferente. E aí havia a idéia de sempre: surgiram alguns núcleos para se fazer um grupo de pesquisa não só em Minas, mas, quem sabe, em outros lugares, mas principalmente em Minas havia essa idéia de fazer um grupo de pesquisa. O Romeu, uma dessas pessoas, o Machado, que era o geólogo, tinha essa idéia também, e há outras pessoas que talvez eu não tenha conhecimento que deviam fazer parte desse grupo. Quando surgiu a comunicação no Congresso de Geologia em Belo Horizonte, em 1968, em que foi tornado público a descoberta de Carajás, aquilo foi uma sacudida na Vale. Quer dizer, a Vale estava deitada em berço esplêndido que as reservas eram inesgotáveis para aquele nível de produção daquela época. Não havia Tubarão, a escala era muito menor de produção, ainda. E de repente é surpreendida ao ver um gringo com meia dúzia de geólogos ali. E descobre uma imagem daquelas, que estava dando sopa para quem chegasse primeiro. Então, isso deu força para a Vale se tornar mais agressiva pelo menos na reposição de reservas de ferro, não se pensava ainda em diversificar. Mas foi evoluindo daí para diversificar. Então foi um misto de tudo isso, a ida de um ex-Presidente da Vale que, embora não fosse do quadro tradicional da Vale, tinha sido Presidente da Vale, para Ministro, que foi o Dias Leite. E na política do governo militar, nacionalista, descobrir as reservas industriais, de ocupação da Amazônia, veio tudo no mesmo contexto. Quer dizer, havia um clima político favorável para a Vale entrar para a geologia. Então resolveram criar esse grupo de geologia. A idéia foi ganhando corpo. Uma vez o Machado me visitando no tempo da Meridional, em Belém, eu fui mostrar como o escritório funcionava, pequeno, depósito de amostra, arrumadinho, ele falou: “É isso que está faltando na Vale.” Quando ele falou aquilo eu falei: “Será que a Vale está pensando em ter um time de geologia que nem a Meridional?” E quando o Tolbert saiu, ele não foi embora do Brasil, ele foi procurado pelo Machado e talvez pelo Romeu. O Machado falou para o Romeu que o geólogo americano que tinha comandado Carajás estava disponível. E aquilo juntou o contexto favorável político. O governo resolvendo criar a CPRM, uma empresa do governo para fazer geologia no país. Diferente do DNPM, que fazia geologia mas era um órgão mais de controle, de fiscalização. Então criou a CPRM. A idéia de criar o Projeto Radam já estava lá, era o germe de criar. E a Docegeo, a nível empresarial. Então veio, a nível institucional, a CRPM e o Projeto Radam para você dar condição de investimento em geologia e, a nível empresarial, junto à principal mineração do governo, criar uma geologia que foi a Docegeo. E a fórmula encontrada para poder contratar o Tolbert, que ia ser muito difícil colocar um gringo ganhando um salário equivalente a um diretor da Vale ou alguma coisa assim, foi fazer um contrato. O Tolbert criaria a estrutura de uma empresa para fazer isso. Essa empresa seria contratada como subsidiária da Vale, controlada pela Vale, a Docegeo, para dar o pontapé inicial. E foi feito um plano trienal, expressão geológica, financiado pelo BNDES. Também foi uma forma para a Vale, interessante, porque ela captou recursos com juros baixos. Então a Docegeo passou a ser um instrumento de diversificação da Vale e um instrumento também de captação de um certo investimento com juros favorecidos, do BNDES. O objetivo inicial não foi estabelecido pela Vale, foi estabelecido pelo governo. Então, qual era a diretriz inicial? A diretriz inicial era cobre e cromo.

Estrutura da Docegeo

Nessa época, na Docegeo, eu já entrei como Gerente regional. Aquela função que eu tinha na Meridional, mas só que cuidando de uma estrutura muito maior. A estrutura na Meridional tinha helicóptero, tinha um barco, etc., nessa época nós passamos a ter uns quatro, cinco projetos grandes na Amazônia com vários gerentes de projetos e a estrutura era fabulosa. Tinha 20 barcos de alumínio, cem espingardas, dois helicópteros, 100 aparelhos de rádio. Então, uma estrutura muito pesada, muito forte e chegamos a ter, no auge de Serra Pelada, 1.200 empregados na Amazônia.

A Docegeo toda tinha 2 mil empregados, lá em Belém chegou a ter um 1.200 empregados no auge de Serra Pelada. É uma estrutura dada para a época totalmente absurda hoje. Porque você dependia de tudo. Você dependia do seu transporte aéreo, do transporte fluvial, transporte terrestre com jipe, picape, caminhão.

Docegeo e privatização

De repente eu passei a ter um trabalho que embora eu não tivesse uma chefia direta na Vale, mas a Vale, hierarquicamente, era subordinada a mim na Secretaria. Logicamente que nunca houve nenhum mando meu em relação à Vale, nem seria ingênuo a ter essa pretensão, mas, hierarquicamente, havia uma subordinação da Vale à minha secretaria. E passei a ver pessoas de fora criticando a Vale e percebi pontos fracos da Vale em atuação política, coisa desse tipo. Então, passei a ter uma visão de fora, da Vale e da Docegeo mais ainda. Então, aquilo deu um amadurecimento muito grande. Quando eu voltei para a Docegeo, eu tinha assistido há pouco tempo um desses seminários top da Vale, numa palestra não sei de quem, que usou aquele célebre exemplo do sapo. Da água quente no sapo. Se você colocar um sapo numa água fria e for esquentando a água muito lentamente, ele não percebe a água esquentar e acaba morrendo cozido. Agora se você pegar o sapo, e colocar ele imediatamente onde a água está quente, ele dá um pulo e cai fora. Então essa expressão, esse exemplo é usado por um homem de empresa, que acaba se acostumando com os vícios da empresa, com os erros da empresa, sem fazer mudança. Então a minha passagem por Brasília, quando eu voltei para a Docegeo, o primeiro exemplo que usei quando eu voltei foi: “Olha, eu sou o sapo que cheguei aqui, estou pulando fora, porque a água está quente demais.” Quer dizer, comecei a perceber os vícios da empresa, coisa que a gente fazia, parte do dia-a-dia, e você não... e na Vale também a gente começou a perceber isso. Então, isso foi muito bom para que, junto com o Godoy e o Armando, que era Diretor da Docegeo comigo, e os outros gerentes, para que a gente começasse a fazer algumas discussões internas e a adaptar a empresa para a privatização. Senão, dificilmente, talvez, a Docegeo tivesse sobrevivido à privatização. Se você pegar o perfil dos que ganharam a privatização, vai ver que é um perfil de mercado financeiro, sem essa visão de longo prazo. E pegasse uma empresa que estava consumindo 30, 40 milhões de dólares por ano, e sem retornos de grande porte nos últimos anos, ia ser muito difícil. Ainda mais com o perfil que veio. Então houve um questionamento muito interno disso, e consegui convencer o Ulisses Rodrigues Freitas e ele acabou aceitando, achando que era uma boa idéia. Fizemos um planejamento estratégico na Docegeo, porque foi feito da Vale e da Docegeo, não. Então pegamos a mesma empresa, fizemos um investimento caro, mas que valeu a pena. Questionou toda a Docegeo, junto com a equipe, empresa de primeira linha, a mesma que fez o da Vale. E isso preparou a Docegeo para mudanças. Talvez as mudanças tenham sido um pouco mais violentas do que a gente pensava. Mas mesmo assim, a cultura da empresa já não era mais intocável. Antes havia uma reação muito grande a qualquer mudança. Então, talvez o grupo, com as mudanças, não ficasse. Se a empresa sobrevivesse eles não ficassem. Mas eles já estavam com uma mentalidade mais aberta, ter uma nova orientação, voltada mais para a parte financeira etc., e tudo isso foi feito nesse período de 95, 96 e começo de 97. Então essa passagem por Brasília foi muito boa. A gente fazia várias reuniões. Os cafezinhos que havia com o Presidente, a gente pegava os empregados todos, discutia a maioria das vezes, lá ninguém falava. Eu falei: “O que é, vocês estão com medo? Medo do quê?” “Da privatização.” Então a gente discutia o medo. Mostrava que o medo existe desde que a gente nasce, medo do pai morrer, medo da mãe morrer, aquele medo que existe constante e que a gente tem que enfrentar. Eles que pensassem a vida deles antes de trabalhar na empresa. Quer dizer, que eles não iam morrer se eles não estivessem mais na empresa. Que eles iam continuar atuando em outros lugares, iam continuar vivendo. Então, tudo isso foi trabalhado, desde a mulher do cafezinho até a diretoria. Que as mudanças iam acontecer e que todo mundo tinha que estar preparado para elas, fosse quais fosse, inclusive, fora da empresa. Esse foi um período muito rico, muito difícil, porque o processo de privatização foi bastante traumático da forma como foi feito. Porque pensava-se num tipo de privatização, e depois o modelo foi diferente, com o trem andando.

ALUMÍNIO

O interesse pelo alumínio

Como surgiu o alumínio da Vale? Lá na Amazônia, desde meados da década de 60, as grande irmãs do alumínio mundial... você conhecia a minério de alumínio na Jamaica, Guiné, na Austrália e no Suriname, que era uma área de produção bem desenvolvida. Elas começaram a achar que na Amazônia brasileira também haveria a possibilidade de alumínio. E todas as grandes, Alcan, Alcoa, a Billiton, começaram a fazer reconhecimento na Amazônia. Em quase todos os lugares, depois que a Docegeo entrou, a gente encontrava vestígios de pesquisa dessas empresas. Só que o objetivo delas nessa época era muito mais saber se tinha ou se não tinha. Em muitos pontos eles chegavam no minério e paravam porque não interessava saber quanto tinha. Só interessava saber se tinha ou não. E uma delas levou o programa mais a sério, que foi a Alcan, lá no Trombetas, já na década de 60. Eu estava na Icomi ainda e deve ter começado em 1965, por aí, a pesquisa da Alcan, e essa levou mais a sério e pegou uma das áreas melhores da Amazônia. Atrás disso, uma empresa grande, que atuava principalmente na Austrália, uma empresa inglesa mas que atuava principalmente na Austrália, a Rio Tinto Zinc, resolveu vir atuar na Amazônia. E ela veio com uma metodologia toda diferente porque a pesquisa de bauxita na Amazônia é feita através de uma morfologia específica, que cria aquela laterização em alumínio em zonas privilegiadas. Uma rocha que ao longo do tempo cria, com a atuação do intemperismo, aquelas concreções de bauxita na superfície. Quase todo lugar cria concreções de ferro e de laterita gelatinosa e, em alguns locais, a laterita luminosa também que é a bauxita. Ela, além disso, tinha desenvolvido uma técnica, não sei se na Austrália ou onde, de usar uma geofísica, uma cintolometria, onde havia mais alumínio dava uma resposta diferente. Eu não sei direito como funciona esse método, mas eles usaram isso. Eu sei porque os pilotos que voaram com eles diziam que eles levaram o aparelho dentro do avião e selecionaram as áreas. De repente, quando já estava o embrião de criar a Docegeo e eu estava me segurando, o Tolbert falou: “Agüenta mais um pouco na Meridional que você vai trabalhar com a gente na Docegeo, na Vale.” No início de 1971, em setembro, outubro, ele saiu. Em 1971, surge anúncio em Belém procurando geólogo. Eu já estava aborrecido na Meridional, o Tolbert não se definia se ia sair ou não do emprego, eu mandei meu currículo. E o geólogo Antônio Zini que trabalhava comigo na Meridional, gaúcho, ele tinha vindo de férias, as famílias ficaram amigas, ele estava sem casa, estava morando em casa. Ele com a esposa estavam hospedados lá em casa, em Belém. Eu falei ao Zini: “Vamos mandar o currículo, eu não sei se a Meridional vai acabar ou não.” Ele falou: “Vou mandar também o meu currículo.” E nós dois fomos selecionados. Na ocasião, não havia nenhuma outra empresa atuando em Belém fora a Petrobras, a Codim e a Meridional. E de repente surgiu uma nova empresa lá. E nós não sabíamos o que ia acontecer com a Meridional, a gente estava mais ou menos inseguro, o Tolbert havia saído. “Vai fechar? Não vai fechar a área de geologia?” E a gente resolveu ficar mais agressivo e procurar alternativas e, para surpresa, nós fomos selecionados. Veio um inglês lá num hotel bom em Belém para a entrevista. E o meu salário na época seria equivalente a mais ou menos mil e duzentos dólares na época. Era três mil e alguma coisa. Aí, não sabia onde ia trabalhar ainda, nós não sabíamos nada onde essa empresa... o que ela ia procurar, não tinha notícia ainda. E eles resolveram contratar o Zini como geólogo e resolveram me oferecer para me contratar como Gerente, como chefe da equipe deles lá. Me ofereceram mais ou menos o dobro do que eu ganhava. Foi seis mil e oitocentos e alguma coisa. Devia dar quase três mil dólares. Era um bom salário na época. Na época era um bom salário mesmo! E fiquei vibrando lá, vibrando, mas nisso o Tolbert me garantiu que ia sair e o Zini saiu e foi trabalhar. O Zini continuou depois nessa empresa e foi fazer cursos na Austrália etc. Chegou a Diretor da empresa aqui no Brasil, da Riofinex, que era a Docegeo da Rio Tinto aqui no Brasil. Depois acabou saindo da empresa. Interessante que o fato de estar na minha casa fez com que ele tivesse uma carreira diferente. E eu, daí, tive garantia do Tolbert e desisti do emprego e depois fiquei sabendo então que era bauxita que eles haviam descoberto na região de Paragominas, totalmente fora do eixo de bauxita da Amazônia, que estava toda ao longo do rio Amazonas, na região de Almeirim, de Juruti, perto de Santarém e, principalmente, em Trombetas, onde a Alcan estava atuando. Então, foi uma surpresa. O que aconteceu com isso? Com a entrada dessa empresa, uma coisa nova aconteceu, aconteceu com o alumínio o que aconteceu com a Steel em ferro. Uma empresa vem de fora e descobre uma área importante e a Docegeo sendo criada. Não sei quem decidiu dentro do governo, mas veio uma instrução para a Docegeo – eu não participei dela, mas o meu geólogo que participou e me contou como foi – de requerer todas as áreas disponíveis em Paragominas que haviam sobrado. Aquela área não tinha radar, não tinha fotografia, tinha alguma coisa do exército americano, da época da guerra, que eles fizeram um levantamento bom e fez alguns mapas da região que daria para você selecionar alguns platôs, onde podia ter bauxita. E essas áreas, então, a Docegeo estava começando. A Docegeo tinha dois ou três meses de vida e recebeu ordem para requerer essas áreas e essas áreas foram requeridas pelo grupo CBA e pela Vale. A ordem que veio de Brasília, não sei dada por quem, foi feita e quem acompanhou o processo foram oficiais do serviço secreto da Marinha. Esse homem que participou, ficou numa sala com o oficial do serviço secreto da Marinha fiscalizando enquanto selecionava as áreas para serem requeridas para a Vale. Então, essa foi a entrada, ou a pré-história da Vale Alumínio. Ninguém na Vale pensava em entrar em alumínio, quer dizer, no Brasil não havia produção de bauxita na Amazônia. Existiam grupos que atuavam aqui: Alcoa, Alcan e a CBA, o Ermírio de Morais que atuava em Poços de Caldas e em Ouro Preto, que eram áreas de produção de minério de alumínio. E na Amazônia tinha a Alcan, era a única que estava levando as pesquisas mais adiante, que era a Alcan. E a Docegeo, então, foi incumbida, foi colocada como prioridade, também para a Docegeo, além do cromo que era principalmente na Bahia, o cobre que era na Bahia e na Amazônia e em qualquer lugar do Brasil, foi colocado também, o alumínio na Amazônia como objetivo de pesquisa.

A costura do alumínio

Porque na época, como estava com o preço muito bom para exportação, havia uma busca principalmente do mercado japonês, mercado americano para cromo. E conheciam-se reservas boas na Bahia e com possibilidades de haver outras descobertas, como realmente aconteceu depois. Não pela Docegeo, mas por outras empresas na Bahia na descoberta do cromo. Hoje já não tem a importância estratégica que tinha naquela época. E o cobre, que depois do petróleo era o principal item mineral na pauta de importação. E havia projeções na época – ainda não havia fibra ótica – que a tendência de crescimento do consumo de cobre no Brasil era muito grande, então o Brasil ia ficar muito dependente da importação do cobre. Depois com a fibra ótica, o cobre continuou importante mas não tanto quanto eram as projeções do início da década de 70. Então, o cobre era prioridade, prioridade número um nossa era cobre. E se aprendia na escola que o Brasil não tinha cobre. O que você aprendia na escola que a evolução geológica do Brasil, os modelos e associações de cobre existia na Bahia, que era aquela descoberta mas era um tipo de rocha com um outro grau de metamorismo que não dá as grandes jazidas de cobre, etc. e tal. Que associação para as grande jazidas de cobre no Brasil já haviam sido erodidas. Isso eu aprendi na escola, nos cursos de geologia! Então era assim, você procurava alguma coisa. A única coisa que você tinha aprendido é que não existia. O geólogo já procura uma coisa que não perdeu, porque se você procura uma coisa que você perdeu é difícil, imagine uma coisa que não perdeu. Agora, se você não perdeu e falam que não existe, é uma coisa mais complicada ainda. Continuando a história do alumínio, pegando um gancho, o que aconteceu? Nessa época, o Ministro já era o Dias Leite e isso ele deve contar muito melhor do que eu. Eu não participei, só o que eu li, o que me contaram e foi feito. O Japão, com o primeiro choque do petróleo em 1973, ficou com um problema energético sério porque o Japão importava energia e matéria-prima. E entrava com mão-de-obra e tecnologia. Então, um país que depende de petróleo e tem que produzir, queimar petróleo, ou carvão, ou gás para fazer energia elétrica. 50% do preço do alumínio é energia elétrica e num período de crise energética, então, a indústria do Japão, a siderurgia, mas principalmente a do alumínio, que é eletrointensiva, ela começou a verificar que não ia ficar competitiva. E o Japão tomou uma decisão drástica de fechar suas plantas de alumínio. O Japão já era um grande produtor de alumínio e procurava alternativas junto aos países que fossem produtores de minério e que tivessem energia barata tipo a Austrália, tipo Venezuela, tipo Brasil. E foi feito esse acordo dadas as ligações que a Vale já tinha com o Japão em minério de ferro, dadas as ligações de que o Ministro tinha sido da Vale, o professor Dias Leite vai poder contar muito bem o que foi isso. Então, houve um acordo para que o Japão entrasse na indústria de alumínio aproveitando as jazidas da Amazônia porque as do sul já estavam controladas por essas empresas e eram de porte pequeno, e usando a Vale como sócio por ser uma empresa do governo. E, para isso, havia a necessidade de viabilizar a produção de energia. Então surgiu, de um lado, a adição de governo em construir Tucuruí, inicialmente com a participação japonesa e depois totalmente brasileira com apenas algum empréstimo japonês. E do outro lado, a Vale viabilizando reservas de alumínio para, junto com o capital japonês, construir uma planta de alumina, que é o produto intermediário que sai do óxido bruto da bauxita para o óxido puro que é a alumina, sem impurezas, sem óxido de ferro, sem nada. E da alumina chegar a planta do alumínio onde você usa mais eletricidade produzindo metal. E voltado, principalmente, para exportação. Então, esse primeiro modelo, embora tenha viabilizado a entrada do Brasil entre os grande produtores mundiais de alumínio, na realidade a preocupação básica era para atender o mercado consumidor do Japão, para onde você está exportando energia em lingote de alumínio. Porque 50% do lingote de alumínio é energia. Você está exportando energia sob a forma de lingote de alumínio! Então, é o preço que você paga por ser um país em desenvolvimento porque você não pode ter uma política própria, agressiva. Você fica numa política dependente e com erros e acertos, quer dizer, houve erros e acertos. Foi dessa forma que a Vale entrou. Inicialmente, a Alcan ia produzir bauxita para as suas plantas no Canadá, não era para a produção de alumínio local. E ia entrar a Vale com os japoneses usando a área que a Vale estava pesquisando via Docegeo. E nós já havíamos tido algum sucesso, tanto em Almeirim como Paragominas, mas a idéia estava mais para o lado de Paragominas por ser mais próximo de Belém e mais próxima da futura planta. Então, essa foi a época, em termos de projeto, da porra-louquice generalizada, quer dizer, você tinha pouca informação e qualquer idéia era possível. Então, foram feitos estudos de navegabilidade do rio Capim para verificar se podia colocar a barcaça trazendo a bauxita de Paragominas. Foram feitos vários estudos e se pensava totalmente só em fazer a produção via Paragominas. Os primeiros japoneses que vieram, que vinham das empresas que iam participar da Alunorte, da Albras-Alunorte com a Vale, os técnicos que vinham iam visitar Paragominas. Ninguém ia a Trombetas e nem a outro lugar. Então, a primeira vez que foi, quando o Ueki foi com o embaixador do Japão no local que seria construída a barragem, o apoio foi dado pela Docegeo porque era a Vale em Belém, lá naquela região. A Amza já estava praticamente fechada, já tinham terminado as pesquisas, já estava praticamente parada. E a Docegeo estava cuidando da infra-estrutura que a Vale tinha, dos helicópteros. Então quem deu apoio? Os helicópteros da Docegeo foram a Marabá receber o Ueki com o embaixador e até Tucurui, para fazer a primeira visita onde seria construída. Então, a Docegeo estava muito próxima desde o início dessas negociações todas. No ministério Dias Leite foi criada a idéia base do alumínio na Amazônia e foi concretizada já no governo Geisel, quando o Ministro era o Ueki e isso talvez tenha favorecido as negociações com o Japão e o Brasil. E quem cuidou disso na Vale foi o Diretor Eduardo Carvalho, que foi já um cargo político. Ele era do grupo do Delfim Neto e foi colocado na Vale como Diretor de Desenvolvimento para cuidar da área do alumínio e da área de desenvolvimento da qual a Docegeo fazia parte. Então, a implantação, se havia algum erro filosófico no início, na hora da implantação então houve acertos e erros. Houve algumas idéias. O Eduardo Carvalho ia muito a Belém, depois a gente teve uma certa intimidade de discutir projetos. Por exemplo, o Projeto Valesul, que foi colocado aqui. Na época, para nós que estávamos em Belém, era um contra-senso você colocar um projeto de alumínio no Rio de Janeiro, por que em uma área que você não tem minério, não tem energia? Energia é cara, então foi uma falta de senso! Por que isso? Hoje, até o projeto é mais ou menos viável, mas ele custou para sair do vermelho e ser viável, etc. Eu perguntei para ele: “Não sei, talvez eu não tenha informação, mas por que o Projeto Valesul?” “Foi simples, eu estava indo para o Japão para negociar com os japoneses e tinha dois inputs, uma pressão do Presidente Geisel para que a Vale arrumasse um projeto de impacto para o Rio de Janeiro, para compensar o problema do fim do Estado da Guanabara, que tinha acabado, aquela negócio todo. Então, tinha que arrumar um projeto de impacto a nível industrial. E eu tinha que pressionar os japoneses que estavam fazendo corpo mole no financiamento da Albras e Alunorte. Então, no vôo para o Japão me veio essa idéia: porque não colocar uma planta de alumínio no Rio de Janeiro? Porque a gente atende uma coisa e assusta os japoneses”. Isso ele me explicou! Essa foi a decisão, quer dizer, não houve nenhum estudo da economicidade prévia não, foi uma decisão puramente política, e colocaram. Talvez válida na época, a gente não pode questionar isso. Do ponto de vista empresarial, se a Vale, hoje, fosse implantar uma planta, dificilmente iria colocar uma planta de alumínio no Rio de Janeiro, mas na época foi uma saída. A primeira vez que o Eduardo Carvalho foi a Belém junto com a Docegeo para ter conhecimento, foi a primeira vez que Trombetas entrou no esquema. A Alcan teve alguns problemas lá de gestão de pessoal, entrou uma certa crise etc., e resolveu congelar o projeto. E a Vale pensando em explorar Paragominas que era o objetivo inicial para a planta de alumínio. Tinha que viabilizar uma jazida para produzir uma planta perto de Belém, e nessa viagem foi a primeira vez que nós fomos recebidos pelo geólogo da Alcan que mostrou a jazida para nós, e que começou a se pensar numa associação. Quando surgiu essa associação, embora a Docegeo queria continuar a pesquisa de bauxita em Almeirim e Paragominas, e descoberto algumas jazidas importantes, não tão boas quanto o de Trombetas, mas com importância econômica, já havia perdido a importância estratégica porque Trombetas já viabilizaria a planta da Albras e da Alunorte. Você já tinha uma fonte de alumínio. Então, nós começamos com Paragominas com a idéia de atender o mercado japonês e aí passou por Trombetas e... a função da Albras... com isso viabilizado, começou a construção da Albras lá no norte. E aí nessa parte, o Romeu deve ter dado uma aula sobre isso porque ele participou das negociações, inclusive do dumping que as empresas internacionais fizeram e que motivaram a paralisação da Alunorte. Porque o mercado de alumínio era cartelizado e você controlava a produção, com a produção da alumina, então estratégico era a produção da alumina e de repente o mercado internacional baixa o preço. As grandes produtoras, principalmente a Alcoa, que estava instalando a planta da Alumar em São Luís, semelhante a da Albras, ela passou a colocar no mercado a alumina baixa, quase a custo de produção. Para o japonês foi ótimo, porque o japonês queria só o lingote, não queria fabricar alumina. Para o governo, Delfim Neto, que estava numa época de crise, na década de 1980, de falta de investimento, não era ótimo porque não ia fazer empréstimo etc. e tal. Então, você aceitou a regra do dumping. Quer dizer, eles baixaram o preço, você comprava alumínio e produzia o alumínio. Daí a Albras ficou dependente. O Projeto Alunorte ficou muito mais caro do que devia porque o projeto ficou interrompido, o custo financeiro foi lá para cima e, no fim, finalmente, a Vale conseguiu viabilizar a Alunorte tornando ela totalmente independente, desde a produção do minério até a produção do lingote.

Docegeo e o alumínio

A Docegeo entrou aí de várias formas: primeiro na pesquisa de alumínio, segundo porque ela era a Vale em Belém. Então, vinha, por exemplo, visita dos japoneses a Tucuruí. Quem fazia a logística? A Docegeo que participava. Contatos com o Governador do Estado para autorização da planta, quem viabilizava? A Docegeo alugava barco, então, a Docegeo participou de todas as discussões como agente operacional em Belém por ser o único representante da Vale em Belém. Por exemplo, eu participei de uma reunião onde o Eduardo chegou comigo lá em Belém e falou: “Breno, você que mora em Belém, o que você acha da gente colocar a planta de alumínio em Mosqueiro?” Mosqueiro é um lugar próximo a Belém, a uns 80 quilômetros. O veraneio do paraense era Mosqueiro. É uma ilha, você ia só de barco para atravessar e lá é praia de rio. Paraense tradicional não ia ao mar, ia ao Mosqueiro que era uma vila já do começo do século, com casas, mansões, etc. e tal. Então, se você colocar uma planta de alumínio aí. De jeito nenhum! Hoje, talvez não sei se fosse tanto problema, mas naquela época era. A coqueluche paraense era Mosqueiro. Salinas estava começando, a praia de mar estava começando. Hoje, Salinas é importante, fica a 200 quilômetros de Belém, mas na época não se falava muito em praia de mar, era praia de rio. E nós resolvemos tentar. Eu acompanhei uma reunião, na época era o Aloísio, já falecido, depois foi Senador da República, era o Governador do Estado e ele tocou no assunto. Ele simplesmente falou: “Se for para falar do Mosqueiro está encerrada a reunião.” Daí surgiu a Vila do Conde que era outro local. Vila do Conde era uma localidade perto de Barcarena, onde era possível colocar navios para transportar minério. Não são navios iguais aos do ferro, são navios menores, de 30 mil, 40 mil toneladas, no rio Tocantins, próximo a Belém, próximo a Barcarena. E aí foi feita uma visita, foi feito um show room, alugar um barco, levar o Governador, televisão, lançamento do início do programa, onde está hoje a fábrica. Essas coisas estão todas documentadas em Belém, essas viagens com Governador etc., as primeiras vezes, a pedra fundamental no início da Vale. Antes disso, houve uma outra queda de helicóptero por causa do alumínio. Antes de chegar, o Eduardo Carvalho estava em uma reunião em Belém de inauguração da CPRM, em Belém, num domingo de manhã, solenidade, coquetel, e o Ueki foi nessa inauguração do prédio da CPRM. E foi um amigo meu até hoje, ele está escrevendo crônicas para a revista e está com 77 anos, e continua amigo até hoje, pessoa famosa. E acabou a solenidade ele falou: “Olha, Breno, você dá um jeito aí, hoje à tarde o Ministro quer ver onde vai ser a fábrica da Albras.” Eu falei: “Mas eu não sei onde é. Eu sei no mapa, mas eu nunca fui lá.” “Não, vai ter um helicóptero da FAB, você aparece às três horas lá na base aérea e leva a gente para lá.” Aí, era 12:00 mais ou menos, eu saí com a minha mulher, procurei um amigo que tinha contratado a sondagem: “Ah, tem um barracão com telha de alumínio, você vai ver de longe.” E saí orientando o piloto: “Olha, vai nessa direção.” Aí, de longe eu vi o barracão, falei: “É pousar lá.” E no pouso, estava um vento muito forte ali na foz do Tocantins, a tarde bate muito vento, ele pegou uma turbulência na hora de pousar e perdeu a sustentação. E a gente ia cair dentro do rio e ia morrer todo mundo. Ele conseguiu dar a queda de pedal de 180 graus e pousamos. Pousamos não, em lugar de cair no rio nós caímos em terra, o helicóptero quebrou todo, mas não morreu ninguém, não teve acidente nenhum. Foi a segunda queda com o Ueki. Nessa ocasião que o Ueki conversou comigo e falou que duvidava que Carajás tivesse sido descoberto por acaso, que aquilo era carta marcada dos gringos, que já estava tudo pré- estabelecido, que ele só se lembra que foi feito.

PESQUISA GEOLÓGICA

Nós ficamos com esse problema todo, inicialmente, de bauxita na Amazônia e problema do cobre que era um desafio. A gente não sabia. “Onde vai ter cobre, onde vai ter cobre?” E começamos a usar as técnicas escolhidas, geofísica, geoquímica, coisas que não haviam sido usadas sistematicamente na Amazônia e começamos a ter sucesso. Primeiro indício de cobre que surgiu em Carajás foi onde está Igarapé-Bahia, foi em 1976. Houve uma anomalia geoquímica muito forte na região. O que é uma anomalia geoquímica? Anomalia geoquímica é o seguinte: todos os elementos minerais existem na crosta da terra. No Pão de Açúcar tem urânio, no Corcovado tem urânio, em qualquer lugar tem qualquer elemento. Só que em quantidades tão pequenas que para você ter um proveito econômico é impossível. Agora, por qualquer razão, na evolução da crosta em alguns lugares se concentra mais um metal do que outro. Daí, vira jazida. Ou seja, é possível se tirar jazida.

A jazida é uma anomalia da crosta, uma anomalia da natureza. A evolução da crosta levou a ter jazida. Então, o geólogo estuda os fenômenos de evolução da crosta terrestre que levam a ter jazidas, um lugar de cobre, em outro lugar de ferro etc. Tem instrumentos para saber onde procurar cobre, onde procurar ouro, onde procurar manganês. Agora, se uma jazida é uma anomalia, ela vai causar anomalias onde ela está. Anomalias físicas e químicas. Físicas porque o material pode ser mais radiométrico, ter mais radiação. Não precisa ter urânio ou tório. Pode ter outros elementos que tenham radiação e você pode medir essa radiação. Pode ser mais magnético ou menos magnético, pode ser mais sensível ou não a uma corrente elétrica, pode ser mais sensível ou não a uma indução eletromagnética, você induz o campo magnético a dar uma determinada resposta. Esses são os elementos físicos que você usa na prospeção chamada geofísica. Quer dizer, é a física da terra. Então você usa essas características na profissão geofísica. Você pode fazer por terra ou pode fazer por avião, há elementos que medem isso aí. Agora, também ele cria anomalias químicas. Ou seja, uma jazida é um agente poluidor natural. Em um lugar onde você tenha arsênio, as águas que drenam aquela jazida vão ser contaminadas por arsênio. Se você beber você morre. É uma poluição natural! Não foi o homem que induziu aquela poluição. Você morre! Então, a prospeção geoquímica sempre foi usada. Sempre! Na década de 40, 30, que começou a ser usada junto com a geofísica, mas ela foi excepcionalmente desenvolvida no Canadá, na década de 50. Na década de 50 e começo da década de 60 pelo Canadá. Por quê? O Canadá, a exemplo do que acontece na Amazônia, tem aquela cobertura de solo por causa de clima úmido muito grande, que você não vê a rocha que está em baixo e tem só aquela terra vermelha em cima. E no Canadá você tem uma cobertura de sedimento glacial. Quando a geleira recuou na última glaciação, que vinha até para baixo dos Grandes Lagos, o gelo acabou ocupando até ali, aí quando ela recuou foi deixando aquele material, pedra, terra etc., em cima da rocha. Então você tem 30, 40 metros no Canadá, você não sabe a rocha que está embaixo. Então eles passaram a ter métodos indiretos para saber o que tinha embaixo. E um canadense também passou a desenvolver, talvez não tanto para uso no Canadá porque seria limitado o método, um tipo de prospeção geoquímica. Por que a primeira, qual era? Era mais simples. Você tem uma jazida aqui, ela está criando uma poluição em volta. A terra, o solo que cobre aquela jazida foi oriundo daquela jazida. Então, aquela terra vai estar contaminada, poluída por aquele metal. Se pegar aquela terra vai ter mais cobre ali do que no lugar onde não tem uma jazida de cobre. Essa foi a primeira prospeção geoquímica de solo, amostra de solo. Mas, você pegar a Amazônia e fazer picada em toda a Amazônia, ir pegando amostra a cada 20 ou 30 metros para saber se tem uma jazida em baixo, a coisa fica inviável. Alguns colegas, no passado, chegaram a usar isso, mas só que eles acharam que se saíssem pela Amazônia e pegassem uma amostra a cada 500 metros, só na beira do rio, ia descobrir jazida. Era a mesma coisa que você dar um tiro e acertar uma mosca voando! Totalmente aleatório! Então esse canadense desenvolveu uma tecnologia diferente que é geoquímica de sedimento de corrente. O que acontece? Ela parte do seguinte princípio: a jazida é uma anomalia, uma poluição natural, ela está contaminando o solo, mas está contaminando também as águas subterrâneas que passam por aquela jazida. Aquela água corre para as drenagens, água subterrânea aflora nas nascentes, vai para as drenagens e leva o elemento metálico, o íon metálico seja de cobre, seja de zinco, ouro, seja do que for. E, esse íon, as argilas do fundo desse igarapé, dessa corrente, absorvem esse íon e a argila fica impregnada com aquele íon. Então, se você no lugar de fazer pelo solo você pega as correntes de água e em cada 500 metros vai pegando uma amostra da lama e analisa os elementos você, então, passa a estabelecer o background da região. Vamos supor, para Carajás tem background alto para cobre, vamos supor que seja 80 partes para 1 milhão, você tem que ter um instrumento preciso só com espectômetro de absorção atômico, que também surgiu na mesma época, um instrumento barato para se fazer análise. A Docegeo já passou a ter dois, três lá em Belém, e você fazia análise dessa lama do fundo. Você cata aquela lama, coloca no saquinho, depois vai para Belém ou para o acampamento e aquilo era analisado. E você, então, tem ao longo dos rios 80, 80 passa para 1 milhão. De repente, você começa a pegar 100, 200, 300, 400, 500. Ou seja, a medida vai aumentando... Depois, passou dos 500 começa de novo 80, 90... Ou seja, ali no 500, ali perto, tem alguma coisa que está poluindo aquela água. Daí você pega as drenagens secundárias e faz a mesma coisa e daí você determina um local que tem anomalia. Dessa forma, foram descobertas as jazidas de cobre em Carajás. Com esta tecnologia bastante simples! Então o que aconteceu: no tempo da Meridional nossas atividades de conhecimento baixaram, mas a Meridional procurava só manganês. Então, a técnica dela não ia interessar muito, mas o Bradshow visitou a Meridional. Mas foi só para fazer contato. Então, quando começou a Docegeo nós sugerimos a diretoria que fosse buscar o Bradshow. E o Bradshow veio iniciar o programa nosso na Amazônia de produção geoquímica. Isso, então, nós começamos a fazer sistematicamente. O primeiro trabalho para entrar em uma área é ir mapeando o igarapé, a geologia de igarapé, e ir pegando as amostras, é uma tecnologia de você coletar 4 mil, 5 mil amostras por mês. Para isso, tinha que ter um laboratório próprio em Belém. Daí, nós tivemos a sorte de quando estava construindo o laboratório, a Rio Tinto fechar o laboratório dela em Belém porque ela resolveu não tocar para frente o projeto dela lá, congelar o projeto dela, e o químico de lá, um irlandês muito competente, formado em Londres, ficou disponível. Não queria ir embora de Belém. Nós contratamos um químico junto com duas químicas, trouxerem também a tecnologia de análise de alumínio para nós. Então, essa tecnologia que entrou, que era da Rio Tinto, que entrou para a Docegeo, depois ela foi transferida para a Albras, foi transferida para a Rio do Norte junto com Mark Nunes, que era o químico que dominava a análise. Então, todos esses fatos, um amarrando o outro, foram criando uma cultura para a Docegeo. Uma cultura muito forte também na área de química, de análise química. Dessa forma nós começamos a procurar cobre em um lugar que a gente não sabia se tinha cobre e haviam nos ensinado que não havia. Nós tínhamos reuniões, que eu vinha aqui no Rio. A reunião de Chefe de Distrito no Rio é interessante: cada um queria puxar o recurso quando você vinha vender o projeto para conseguir o recurso. Era um recurso junto a diretoria, cada um tentando vender o seu projeto. Não tinha muita coisa para vender. A gente tinha o de bauxita que era garantido, mas os outros tanto fazia você vender um projeto na Bahia como vender em Goiás ou vender no Rio Grande do Sul ou na Amazônia, o desconhecido era igual. Você não sabia. A Amazônia você não tinha idéia, por ser mais desconhecida havia mais chance, mas não tinha a certeza. E esse geólogo, engenheiro de minas, formado na Politécnica, um francês, Axel de Ferran, pessoa interessante, ele brincava. Ele duvidava e queria rasgar o diploma dele se existisse cobre na Amazônia porque se existisse já tinha sido, o intemperismo de lá já havia destruído. E a gente também acreditava que era bem possível. Quer dizer, às vezes, o cobre só é conhecido em clima semi-árido, no Chile, nas Rochosas. Agora, de repente na Amazônia tem uma jazida de cobre e ela fica inalterada? Não ser destruída por um intemperismo, que é sulfeto, é um mineral muito suscetível a ser destruído pelo intemperismo químico, principalmente? E com essa forma surgiu, de repente, o primeiro indício de cobre, em 1976. Em 1976? 1975, 1976, por aí. Começou em 1974. Não, aliás, foi em 1974, surgiu o primeiro indício no Igarapé-Bahia. Porque chamar Igarapé-Bahia, na Amazônia? Ia dar o maior problema. Porque o cobre tinha na Bahia. Então, o nome Igarapé-Bahia com cobre também. Mas, é na Bahia ou no Igarapé Bahia? Porque os chefes de mineração, os pioneiros, que faziam serviço de amostragem eram do Rio Grande do Norte. Então, eles chegaram naquela região lá, primeira coisa foi batizar todos os igarapés que não tinham nome com nome de Estados do Nordeste; Piauí, Rio Grande do Norte, Bahia, Ceará e o Bahia é que deu essa anomalia. Então, para vocês terem uma idéia do significado, aquele barro do fundo do igarapé, Igarapé-Bahia, o background, vamos supor que na região fosse 80. De repente, foi subindo e chegou lá a 4 mil. É 0,4%. Quer dizer, para você chegar a minério, 0,8 já é minério em quantidade grande. Ali, aquele barro tinha 0,4! Quer dizer, a gente ficou, levamos.... “o que pode ser isso?” Logo depois, o Vanderley ainda estava na Amza e a Amza ficou parada, não tinha o que fazer, e ele resolveu fazer uma geoquímica de cobre lá, em um lugar que a Amza tinha requerido para manganês, não tinha manganês e tal. E fez geoquímica de solo. E de repente ele entra na minha sala e fala: “Eu nunca mexi com cobre, nós fomos em umas picadas lá – aquele jeitão dele do interior de São Paulo –, umas picadas lá e pegamos umas amostras. Isso aqui significa alguma coisa?” E era 8 mil ppm, 6 mil ppm. Aquele valor absurdo! Falei: “Vanderley, a gente está procurando isso há um tempão!” Aí, surgiu então uma outra área, que era da Amza, que era a área Pojuca, muito perto da N1. Então assim começaram as duas ocorrências de cobre. A gente tinha aquele indício de Igarapé-Bahia e surgiu Pojuca. Quando surgiu Pojuca a gente resolveu seguir o tramp de Pojuca para leste. Daí, a equipe do Décio Mayer pegou ali perto do Igarapé do Cinzento, quer dizer, seguindo o Vale do Cinzento, onde tinha sido o primeiro acampamento da Meridional, e pegou uma seqüência de serras, que eram batizadas de Serra do Cinzento, inicialmente pela Meridional, e depois o Décio, a parte que estava mais perto do Igarapé Salobo, ele batizou de Serra do Salobo. Então, o nome Salobo do rio era sugestivo. Ou seja, a água salobo, uma água não muito potável, uma água que tem um gosto ruim porque ela drenava uma região que tinha sulfeto de cobre. Alguém, no passado, deu esse nome de salobo por qualquer razão. E, usando essa técnica de amostragem, saímos de Igarapé-Bahia para pegar outra seqüência. Em 1976, pegamos uma anomalia muito boa, fizemos o solo, daí começou a sondagem e começou a surgir o Cobre Salobo que, hoje, é o maior depósito de cobre já dimensionado que tem no Brasil. Está associado a Anglo América para sair em mineração, etc. Então, ele foi descoberto em 1976, foi feita pesquisa intensivamente até o começo da década de 80, depois foi construído estrada até lá, na área de acesso e tudo aquilo, mas no começo era só de helicóptero. E surgiu a entrada da Vale no cobre. Até hoje, só em reserva e não em produção. Quer dizer, do cobre, uma vez surgido o cobre, foi feito pesquisa no Pojuca, lá era uma reserva marginal não muito grande, aquela área descoberta pela Amza e ficou aquela idéia: “Será que em Carajás, tem outras áreas potenciais para cobre?” Porque o background de Carajás é muito alto. É muito alto em relação a outras regiões. Dessa forma foi o germe de cobre, quer dizer, a Docegeo acabou provando através da persistência que não há nunca uma verdade definitiva, ou seja, era ensinado que não poderia haver... Ou a evolução não tinha levado a formação de jazida, ou, se estivesse levado, havia sido destruída pelo nível de erosão que estava o escudo brasileiro. Escudo é o conjunto da crosta pré-cambriano. E que não haveria essa possibilidade. Esse trabalho, que foi uma equipe do Décio que teve sucesso, provou que isso é um mito. Depois, foi mais grave ainda, com a evolução dos garimpos próximos a Parauapebas, garimpos de ouro, já no começo da década de 80, eles acabaram descobrindo um pequeno garimpo de ouro associado a cobre, a Serra Verde. Cobre sob a forma de carbonato, que só ocorre em clima semi-árido, em pleno clima úmido! Esse mineral tinha uma condição de estabilidade química para ele existir com toda aquela chuva e tudo. Crostas de pseudogarnerita, que era um mineral verde, aquela crosta na superfície. Foi descoberta durante um garimpo de ouro uma pequena ocorrência, numa jazida próxima a Parauapebas.

OURO

O interesse pelo ouro

O ouro sempre foi uma palavra meia complicada dentro da Vale. E era natural, a cultura da Vale era muito voltada para o ferro, aprendeu muito bem a ganhar dinheiro transportando, minerando, transportando para longas distâncias grandes quantidades de minério de ferro. Preço barato, mas pela economia de escala, ela sempre conseguiu ter um produto conhecido a nível mundial, pela logística que ela montou para produzir e vender esse minério de ferro. Então, falar em ouro, alguma coisa que se leva numa malinha, sem colocar um cara com metralhadora para tomar conta, é uma coisa complicada. É como o pessoal falava comigo: “Minério de ferro a gente guarda lá no porto, montanhas e montanhas, ninguém vai roubar. Como a gente vai trabalhar com ouro?” As primeiras idéias de trabalhar com ouro, na Docegeo, surgiram ainda em 86, quando nós fizemos o Segundo Plano Trienal. A Docegeo foi montada com financiamento do BNDES. Então, a Docegeo tinha duas vantagens: descobrir para poder diversificar a atividade mineral da Vale, mas também, tinha uma vantagem financeira já que conseguiu empréstimo do BNDES com juros bem vantajosos. Então foi uma forma de capitalizar a Vale também pegando recursos do BNDES, a cada um desses empréstimos. E foi o Primeiro Plano Trienal, que foi de 71 a 73, 74. Em 74 começou o Segundo Plano Trienal. Na ocasião do segundo plano, eu tinha um amigo em Belém que era engenheiro de minas e estava começando a trabalhar em Tapajós. E no primeiro choque do ouro e do petróleo, em 73, o ouro já começou... porque ele valia 33 dólares a onça, era uma mixaria, nessa época começou a ser liberado. Deixou de ser padrão ouro atrelado ao dólar e começou a ser liberado com o primeiro choque do petróleo. Então, os garimpos de Tapajós que eram alguma coisa muito incipiente, muito isolado, começou a ter interesse em estar presente lá. E eu, na programação do Segundo Plano Trienal, sugeri à diretoria que fizesse alguma coisa com o ouro, algum recurso em ouro. Mas não foi aceito, porque na época, até para nós, geólogos, é difícil aceitar o fato da Vale trabalhar com ouro. Mas ficou aquele gérmen dentro. E tinha um químico lá em Belém, um irlandês, que tinha trabalhado na Rio Tinto Zinc, e quando a Rio Tinto Zinc acabou o programa de bauxita na Amazônia, lá em Paragominas, ele ficou sem emprego e quis continuar em Belém, foi procurar emprego com a gente, uma pessoa muito criativa. E ele começou a ensaiar algumas brincadeiras com amostras nossas de ouro. Começou, com algumas amostras que haviam na região, ele fazia algumas análises para treinamento de equipe etc. E aconteceu então que, em 76, nós estávamos trabalhando no Sudeste do Pará, na Serra das Andorinhas, região de Rio Maria, e nós encontramos uma anomalia muito interessante que é zinco naquela região. Nosso objetivo era encontrar, além da parte de cobre, também encontrar os outros metais base, principalmente o zinco. Metais base são metais básicos para indústria moderna. Então é cobre, chumbo, zinco, níquel etc., são os metais base. Encontramos um indício muito bom de zinco e começamos um trabalho grande na região. E as amostras sistematicamente eram analisadas para cobre, chumbo, zinco e a prata, porque podia ser indicada da presença desses outros metais, os sulfetos que tem esses metais. E na parte Sul da Serra das Andorinhas, uma região conhecida como Babaçu, porque tinha muitos pés de babaçu, então, o geólogo Armando, batizou de Babaçu. Aliás, o Armando não estava trabalhando lá, foi o Rigon que estava trabalhando lá. Houve um valor grande para prata nessas amostras. E o McManus entrou na minha sala e falou: “Interessante. Essa amostra não deu nada de zinco, cobre, chumbo, mas deu prata elevada.” E eu pedi então que ele mandasse serrar a amostra. E ele quando serrou, trouxe para mim e tinha uma pequena... cortaram uma pequena pepita. Essa amostra foi fotografada pela “Veja”, “n” revistas fotografaram essa amostra, que foi a amostra que deu origem a corrida de Andorinhas. E a quantidade dessa amostra era muito grande, era de alguns quilos por tonelada, naquela amostra, não no depósito mas, naquela amostra, e a empresa se interessou. Se interessou e começamos a fazer algo meio escondido da Vale, a Diretoria da Docegeo permitiu que ele fizesse aquilo um pouco escondido da Vale e a gente começou uma pequena pesquisa de ouro na região. Isso em 76 nós estamos falando ainda. E, ao mesmo tempo, aconteceu que a Docegeo havia descoberto, com a equipe da Bahia, um green stone belt na região do Itapicuru. A geologia evolui com modelos que se criam de vez em quando. Então, de vez em quando, você cria um modelo de ambiente favorável à jazida mineral e, na época, estava muito em moda o tal de green stone belt. São cinturões de rochas vulcânicas, muito antigas, arqueanas, com 2 bilhões, 2 bilhões e pouco de anos. E esse modelo foi muito bem resolvido no Canadá. Tinha sido muito bem resolvido no Canadá, na África do Sul e na Austrália na década de 60, 70. Ainda estava na moda, só se falava nisso. Porque nesse tipo de cinturões e rochas vulcânicas dessa idade, eles são muito favoráveis a ter cobre, zinco, ouro e, na Austrália, níquel também. Na África do Sul mais ouro e no Canadá cobre, zinco e ouro. Então, a gente, primeiro procurava onde tinha green stone belt, para depois então, tendo ambiente, procurar os metais. E se falava muito, então, em green stone belt, e na Bahia, foi identificado o primeiro green stone belt brasileiro. Hoje sabe-se que até Carajás é um green stone belt atípico, no modelo Carajás. Carajás, o ferro, tudo está associado a um enorme green stone belt. É uma seqüência de rochas vulcânicas arqueanas, também, hoje se sabe isso, e só existe em Carajás daquele tipo de green stone belt, é diferente dos outros lugares. Lá, na época, era novidade. O primeiro a ser caracterizado no Brasil foi pela equipe da Docegeo, na região de Itapicuru. Então, se tinha um ambiente já propício para encontrar cobre, que era o objetivo, e se começou um trabalho sistemático para achar cobre. E até hoje não foi descoberto o cobre. E havia uma área muito favorável, que o geólogo lá, o Darci Lindemayer, que era o Gerente de lá, analisou, não conseguiu encontrar nada, e mandou para Belém, para que o laboratório de Belém checasse os resultados do laboratório que ele tinha usado. E como a gente analisava por brincadeira para ouro, o McManus falou: “Ah, eu vou analisar para ouro também.” Aí analisou para ouro, não deu nada para cobre, mas deu para ouro. E eu liguei para o Darci, falei: “Olha, Darci, você está procurando cobre, cobre não tem nada, mas ouro tem bastante. Os resultados foram esse e esse.” E, daí, foi o primeiro resultado que deu origem à pesquisa onde é a Mina, hoje. É mais ou menos um pouco de coincidência, de sorte. Daí foi divulgado e começou uma pesquisa para ouro. Isso no âmbito da Docegeo. Quer dizer, a Docegeo tinha um programa na época mais independente do que passou a ter no final, mais atrelado à Vale. Nessa época a Docegeo era mais autônoma da Vale. Só prestava contas anuais para a diretoria da Vale etc., dos resultados. E se começou a mexer com alguma coisa de ouro.

Garimpos, Andorinhas e a Docegeo

O que aconteceu em 77? Em 76 foi um ano eleitoral no Pará e foi um ano que se começou a abrir estradas. Tinha uma rodovia que saía de Marabá e ia até a Redenção, que é a BR150, e abriram uma rodovia para São Félix do Xingú, aquele mesmo São Félix do Xingú de 67 etc. Foi aberta a primeira estrada em 76. E, no local onde as duas rodovias se encontravam, surgiu uma cidade chamada Entroncamento. Por que é Entroncamento? Porque as duas cidades se encontravam. E hoje o nome é Ximboara, a área é o município de Ximboara. E, para arrumar votos, os políticos da região começaram a dar terra. E começou a atrair bastante gente, para arrumar bastante eleitores. Alguns vieram do garimpo de Tapajós e não conseguiram terra e começaram a garimpar nos Igarapés que eram cortados pela estrada. E começaram a encontrar ouro. E nós tínhamos um segredo lá guardado, quer dizer, ninguém, nem na Vale, falava daquele ouro. Porque era um segredo, porque se o ouro do Babaçu de Andorinhas fosse revelado, a região ia ser invadida por garimpeiro. Até que, então, começou o garimpo. Eu comuniquei à diretoria da Docegeo que tinha que fazer alguma coisa. A diretoria foi ao Eduardo Carvalho que, na época, era Diretor de Desenvolvimento da Vale, responsável pela Docegeo, e o Eduardo Carvalho pegou a diretoria, na época era assim que se trabalhava, e foi para o Conselho de Segurança Nacional, em Brasília. E dali a alguns dias, eles chegaram, então já em 77, em Rio Maria, junto com pessoas do Conselho de Segurança Nacional, um General da brigada de Marabá, General Valdemar. E o general Valdemar também foi lá para a brigada, então foi feita uma força-tarefa com todos os órgãos de segurança do país, Conselho de Segurança, SNI, para confinar o garimpo, que na época tinha umas 200 pessoas, ao longo da rodovia BR150, entre Ximboara e o Rio Maria. E entre as pessoas que vieram, estava o Curió que, na época, tinha o nome de doutor Luquini, Coronel Moura, ou melhor, Major Moura, que é o sobrenome dele e Curió, que era o apelido. Por que o Curió estava na região? Curió tinha atuado para as forças repressoras da guerrilha do Araguaia. A guerrilha foi combatida na primeira metade da década de 70 com forças regulares do Exército, o resultado não foi muito bom e, depois, entraram as forças mais de informações e segurança que aos poucos foram compactuando com os moradores da região, infiltrando moradores dentro da guerrilha e, através de informações, foram descobrindo os acampamentos, os esconderijos etc, e foram dizimando grupo a grupo, através da repressão. Quer dizer, o serviço secreto do Exército, junto com o SNI, é que dizimou a guerrilha do Araguaia. Com ações regulares, o confronto direto, eles ficaram entrincheirados na Serra das Andorinhas, na Serra dos Martírios, e foi muito difícil o Exército penetrar lá, não tinha treinamento para esse tipo de combate. Então o Curió surgiu nessa região.

A censura era total. Na época, a gente conhecia um jornalista da “Manchete”, que era amigo de um Gerente da Docegeo, o Claudiano Carneiro Cunha. E nas reuniões de fim de semana ele contava que tinha feito a reportagem mas que não tinha sido publicado, que era proibido. Tinha ecos, dessa forma. Às vezes quando passava por Marabá, Conceição do Araguaia, a gente verificava uma revista um pouco maior do que o normal, então desconfiava. Durante uns dois, três anos ninguém trabalhava naquela área ali. Bom, aí houve então toda essa mística da Andorinhas, que foi criada, e o garimpo foi confinado. E nós acertamos com o Departamento Nacional da Produção Mineral, para que aquele ouro fosse comercializado só através da Docegeo, para que não colocasse um intermediário que desse incentivo ao garimpo. Então nós aceitamos garimpeiro ganhando 200 e pouco. Eles continuariam trabalhando e nós compraríamos o ouro. E foi assim que a Vale entrou em ouro. Nós comprávamos aquele ouro, fundíamos em Belém. As primeiras barrinhas de ouro da Vale foram feitas pela Docegeo, em Belém, e se colocava o símbolo do CVRD na barrinha. Pelo McManus, em Belém, era guardado, depois ele trazia para o Rio e era estocado no cofre da Vale, e depois ele passou para a Vale do Rio Doce como empréstimo aquilo ali. E no fim essas barrinhas sumiram, mas ele passou a ser um capital que a Docegeo colocou dentro da Vale, no início. E se começou a trabalhar mais intensivamente então na área de Babaçu. Se chegou a colocar uma lavra experimental lá mas sem muito sucesso econômico, serviu como teste para ver que material era, mas sem sucesso econômico. Mas, antes da gente colocar essa lavra, o que aconteceu? Essa notícia que chegava do SNI etc, aquilo chegou ao Ministro e, de repente, eu estou com uma cópia desse jornal aí, um jornalista que trabalhava em Belém, no “Liberal”, e trabalhava também no “O Estado de São Paulo”. Num domingo, eu estou em casa, pego o jornal “Liberal” de Belém e ele fala que Andorinhas tinha, parece, 19 mil toneladas de ouro. Quer dizer, nós não sabíamos nada do que tinha. E saiu que tinha 19 mil toneladas de ouro! Para se ter uma idéia, a produção do Brasil na época colonial chegou a 2 mil, 3 mil toneladas. Quando o Brasil encheu a Europa de ouro, 2 mil, 3 mil toneladas. A produção do mundo, naquela época, era ao redor de 600, 700 toneladas de ouro por ano. E nós tínhamos um lugar só que tinha 19 mil toneladas! Então, eu conhecia de vista esse jornalista, o nome dele é Lúcio Flávio Pinto, até hoje é um jornalista famoso, trabalhou na Editora Abril e tal, como ele é muito crítico, ele foi colocado por toda a mídia brasileira para escanteio e tem um jornalzinho próprio chamado “Jornal Pessoal”, porque ele não faz média com ninguém, nem com a esquerda nem com a direita, então ele não agrada ninguém, e colocaram ele para escanteio. E, por incrível que pareça, na ditadura ele tinha mais liberdade jornalística do que tem hoje. A força empresarial é até mais cruel do que a força militar. Mas ele, então, na segunda-feira, apareceu no meu escritório. Assim que ele entrou já foi dando desculpa: “Não, não fala nada. Eu vou fazer uma pergunta. Mandaram publicar. O Mesquita ligou para mim e falou para eu publicar isso. O que tem por trás disso aí? Que eu sei que isso não é verdade.” Daí eu contei para ele a verdade, o que existia até aquela época, o que tinha acontecido naquela época. Mas também não conseguiu publicar o desmentido. E daí veio ordem do Rio, da minha chefia, de que eu não podia desmentir, que tinha que ser mantida a versão das 19 mil toneladas. Durante a visita, quando foi o General lá, o Emanuel, doutor Emanuel, que era o Presidente da Docegeo, ele comentou com o General que suspeitava-se ter 400 toneladas de ouro, que já era uma coisa absurda. Igarapé-Bahia, que foi uma boa mina da Vale, chegou a cento e poucas toneladas de ouro, na realidade. Então 400 toneladas de ouro era uma coisa absurda. Morro Velho deve ter chegado a esse ponto desde o século passado, chegou a 400, mais ou menos. Então, nesse dia eu fui dormir com o Armando, o acampamento ficou com o pessoal de Brasília, nós ficamos num hotelzinho na cidade, numa pensão. E eu comentei com o Armando, de noite: “Pois é, Armando, faltam dois meses para entregar o relatório de pesquisa. Para chegar a 400 toneladas, já pensou quantas toneladas você vai ter que descobrir por dia para chegar a 400 toneladas?” Que era uma coisa absurda, totalmente fora da realidade. E aí começou a mística do Andorinhas. Para ter uma idéia, Chico Anísio, no “Fantástico”, fez piada sobre Andorinhas. O que foi Serra Pelada três, quatro anos depois, Andorinhas foi na época. Quer dizer, hoje a mídia não se lembra mais disso, mas Andorinhas saiu na capa da “Veja”, “Manchete”, toda a imprensa nacional esteve em Andorinhas fotografando os acampamentos, aquela coisa toda. Na época, o Presidente era o Roquette Reis, na Vale, e ninguém sabe a quem interessou essa mentira. Quer dizer, o boato que surgiu é que foi jogo de bolsa com as ações da Vale. Agora, quem estava por trás disso, se era o Ministro, se era o Diretor da Vale, se eram os dois ou se não era ninguém, se era outros grupos que estavam por trás, se era o Mesquita. Não sei. O fato é que o desmentido foi proibido, até um belo dia que me ligaram e falaram: “Vai uma edição do 'Jornal Nacional' aí, um repórter do 'Jornal Nacional', em Belém, gravar uma entrevista com você, para você desmentir as 19 mil toneladas.” Eu já estava no meu escritório, montaram a câmera, eu gravei 30 segundos de desmentido e saiu no Jornal Nacional no dia de finados de 1977.

Daí, Andorinhas continuou aquela pesquisa, houve várias manipulações, o então Prefeito de Conceição do Araguaia, que hoje é Deputado Federal, montou vários garimpos também, surgiu lá no Rio Branco, começaram a surgir algumas vilas, cidades, em direção da estrada de Ximboara para o Xingu, onde até hoje tem garimpos. Até que, de repente, a Funai, o governo, resolveu começar a diminuir os garimpos, porque estava dando muitos conflitos na região, além do problema dos posseiros, que na época não eram sem-terra, chamavam apenas de posseiros. Mais do que construir garimpo, resolveram confinar. Até 78, 79, ficou mais ou menos calma a região. Nós fizemos uma pesquisa, sem grande sucesso para alguma coisa econômica, mas o ouro, o gérmen do ouro, tinha tido o lançamento na Vale. A Fazenda Brasileiro começou a fazer umas pesquisas, teve sucesso lá com o ouro, a gente tinha Andorinhas e o cobre, o Salobo, as análises começaram a dar ouro associado. E os garimpeiros que ficaram naquela região, o Ueki deu uma entrevista falando que lá na região do cobre tinha ouro também. Então eles começaram a tentar pegar a rodovia que ia para Carajás, assentar, e ir subindo a rodovia garimpando os Igarapés. E no Km 30 se montou um garimpo. O Igarapé cortava a rodovia de Carajás no Km 30, então, surgiu um garimpo. E vai até mais ou menos 79, esse garimpo do Km 30. O Venâncio já estava lá com a gente, já estava monitorando todos os garimpos, fazendo relatório do que estava ocorrendo.

O ouro e a CVRD

Tudo isso que estava acontecendo com o ouro, mas o ouro não era um objetivo de produção da Vale, ainda. E havia aquela política de governo de a Vale ficar só com ferro e alumínio. Era contraditória porque havia produção de ouro dentro da Vale, aquela de garimpo, e a Vale não trabalhava com ouro. Houve uma viagem, marcada em Fazenda Brasileiro. Fazenda Brasileiro já tinha um potencial predeterminado, já sabia-se que Fazenda Brasileiro ia ser uma mina boa. Então foi lançado Fazenda Brasileiro para privatização. Quer dizer, ao mesmo tempo que a Vale trabalhava em Serra Pelada, o Ministério determinou que Fazenda Brasileiro iria ser entregue à iniciativa privada. E foi feita uma licitação, várias empresas se interessaram, a Anglo American, a Paranapanema parece que também, mas a mais interessada foi a Anglo American. E isso começou a dar um certo ruído político, porque podia cair com uma empresa de capital estrangeiro, que ia entregar o ouro da Vale à Transamérica etc e tal. E aí o César Cals bolou um modelo tripartite, que seria uma empresa estrangeira, uma empresa brasileira e a Vale continuaria, mas não como operadora. Começou a ter uma saída mais ou menos nessa linha. E dentro dessa linha foi feito um grande show room em Fazenda Brasileiro. Na última hora eu fui convidado pelo César Cals para ser o garoto-propaganda. Garoto-propaganda mesmo! Ia para fazer uma exposição sobre Serra Pelada para os empresários que iam acompanhar. Então foi uma viagem onde o Deoclécio foi, na Bahia, numa cidade com fontes termais, onde tinha um posto da Petrobras com piscina de água quente, hotel muito bonzinho lá. Foi o César Cals, que tinha sido Governador do Ceará, Triches, que era o Vice-Presidente da Vale, Euclides Triches, que tinha sido Governador do Rio Grande do Sul, foi o Nilo Coelho, que tinha sido Governador do Pernambuco, e o Lomanto Jr., que tinha sido Governador da Bahia. Então tinham quatro ex-governadores nessa reunião. E foi aquele empresário do Nordeste, Edson Queirós, que depois faleceu naquele acidente do avião da Vasp, que bateu numa montanha um ano depois, uma figura muito interessante. E foi uma reunião daquelas típicas lá de Brasília, regada a uísque etc. Mas a idéia era então atrair os empresários. Tinha outros empresários. Mas o César Cals tentava levar à frente essa idéia de privatizar o ouro da Vale, principalmente Fazenda Brasileiro e, ao mesmo tempo, nós estávamos vivendo um momento de abertura na política brasileira, com o governo Figueiredo, mas com um núcleo dentro do governo, núcleo militar muito nacionalista, que achava que a Vale era governo, a Vale era Brasil e a Vale não podia ser privatizada e nem entregar o que ela tinha, nem para a iniciativa privada e muito menos para o estrangeiro. E uma vez, eu me lembro de um telefonema do Coronel Léo, ele comentou comigo: “Não é estranho que o governo esteja usando a Vale em Serra Pelada, para tomar conta do garimpo, e incentivando para ela fazer uma pesquisa para colocar uma mina. Ao mesmo tempo a Vale diz que não vai trabalhar com ouro. E ao mesmo tempo o outro lado do governo, o Ministério, fala que a Vale não tem que ser do ouro. Não está estranha essa situação?” Eu falei: “Bom, eu acho estranho, mas eu não posso falar nada. Eu sou apenas um geólogo da empresa.” “Ah, não, eu vou conversar com a direção da Vale e vou conversar com o Palácio.” E houve uma reunião no Palácio, parece que quem foi o mentor disso foi o Venturini, Danilo Venturini era profundamente nacionalista. Então, não sei, isso quem pode contar é o doutor Eliezer, que na época era Presidente da Vale. Aí se decidiu que Fazenda Brasileiro não seria mais privatizada, que continuaria com a Vale, e que a Vale ia ter uma política de produção do ouro. Isso deve ter ocorrido em 82, 81. Esse primeiro gérmen foi lançado então, com uma postura dos órgãos de Segurança Nacional, que foram contra que o ouro saísse da Vale, contrariando a própria cultura da Vale, que era refratária a trabalhar com o ouro e contrariando o próprio governo, através do Ministério, que recebia pressão do empresariado nacional, e talvez o empresariado estrangeiro de mineração, para que a Vale não crescesse muito. Nessa época, pouco antes, eu tive uma viagem com Oziel Carneiro, que era um carajazão, e discutindo essa política da Vale, de só ficar com aquilo e que a linha política era a seguinte: não deixar a Vale crescer demais, porque senão a Vale seria a maior empresa de mineração do mundo. E não interessava ao governo ter... não interessava à classe empresarial nacional ter uma estatal que fosse a maior empresa de mineração do mundo. Isso foi dito pelo Oziel Carneiro. Então, começou o gérmen do ouro. Essa decisão política, a nível de governo federal. E, dentro da Vale, aconteceu outro fato. Foi criada a Superintendência de Desenvolvimento, subordinada ao Deoclécio, que era Diretor de Desenvolvimento. E foi levado para o Ministro, o Darci Germani, e depois, Darci Germani saiu, e foi Ulisses Rodrigues de Freitas, que era Superintendente de Desenvolvimento da Docegeo e acompanhava a Docegeo desde a pesquisa de bauxita na Amazônia. Ele era da Vale mas transferiu para a Docegeo, e tinha acompanhado os garimpos de cassiterita. Então já tinha a cultura da Docegeo, a cultura de diversificação de produção mineral. Ele não tinha uma formação ortodoxa de só minério de ferro. Ele tinha uma visão mais diversificada do setor mineral. E ele, então, começou a implantar, dentro da Superintendência... levou o Zé Adolfo, que era da Docegeo também, para trabalhar com ele. Depois o Adolfo chegou a ser Presidente da Docegeo, no início da década de 90. E começaram então a montar um esquema de como produzir ouro porque, até aquela época, a Vale tinha produzido ouro através da Docegeo, em Andorinhas, através de compra do garimpo e uma pequena produção de teste. Alguma coisa no garimpo que surgiu também no Salobo, a invasão do Salobo foi concretizada. E nós compramos algum ouro também do Salobo. E o ouro de Serra Pelada, que no início foi para a Docegeo e depois entregue ao Banco Central e à Caixa Econômica. Então, dentro da Sudes, que era a Superintendência de Desenvolvimento da Vale, começou-se a criar esse gérmen de trabalhar com ouro, começaram a se aculturar, iniciando então com Fazenda Brasileiro, que era o primeiro lugar que já tinha uma jazida mais ou menos dimensionada. E foi criado primeiro um departamento para mexer com ouro, depois foi criada a Sumen, que é a Superintendência dos Metais Nobres, que passou a ser responsável pela produção de ouro que nasceu dentro da Sudes. Então foi essa a cultura que foi dada à Docegeo com Ulisses, com José Adolfo e com o apoio de Deoclécio, que abriram espaço político dentro da Vale para que a Vale pudesse trabalhar em ouro. Começaram com uma pequena lavra em investigação em pilha no Fazenda Brasileiro até ganhar terreno, espaço e cultura para poder começar a lavra subterrânea. Então o ouro, a partir do momento em que a Vale começou a entrar em ouro e começou a sentir, o preço estava bastante bom na época, passou a perceber que podia produzir pouca coisa mas ganhar muito dinheiro, relativamente, então passou a ser prestigiado pela Vale. O ouro passou a ser ainda mais apoiado quando entrou o Wilson Brumer como Presidente, que vinha da área financeira, então nessa época, quem mexia com bolsa, a cultura do ouro já era alguma coisa mais enraizada e o ouro foi se fortalecendo dessa forma. Há um ligeiro enfraquecimento agora, porque o preço do ouro está muito baixo a nível mundial. Todas as empresas que trabalhavam com ouro estão com um pouquinho de pé no freio agora. Mas essa foi a entrada do ouro na Vale. Quer dizer, a partir disso, surgiram outras descobertas, a mais importante foi a Igarapé-Bahia, em 86, que entra em operação no final da década. E Igarapé-Bahia começou a mina, chegou a ser a maior mina de ouro da América Latina. Hoje já não é mais, mas na época que foi inaugurada produzindo 10 toneladas de ouro, era a maior mina em atividade em toda a América Latina. A Vale passou a ser a maior produtora de ouro da América Latina. Do Brasil e da América Latina também, uma empresa que não queria entrar em ouro! Nunca chegou a ser uma grande produtora de ouro, mas em termos regionais ela se tornou importante.

Daí, o que era feito escondido, passou a ser disposto às claras e incentivado. Talvez o azar foi que, o que a gente fazia escondido, teve mais sucesso do que quando se fez às claras. Talvez tudo que é escondido é melhor. Então, na época a gente trabalhava nos bastidores, e a gente teve a sorte que tropeçou nas jazidas melhores, e a última foi Fazenda Brasileiro. E hoje a própria geologia de Carajás é mais bem conhecida, sabe-se que o ouro em Carajás está sempre associado a cobre. Então hoje sabe-se que Carajás vai ser uma área potencial, além de ferro, cobre, com ouro associado. Então a visão hoje é muito mais clara do que no passado, quando a gente estava tentando descobrir o Eldorado em cada morrinho que encontrasse pela frente.


SERRA PELADA

A notícia da descoberta

No começo de 80, deve ter ocorrido no final de 1980, o Venâncio chegou com a notícia que tinha surgido outro garimpo próximo ao Km 30. Um posseiro que estava entre a Serra Leste e a Serra do Sereno, não se sabe bem a versão, se era um garimpeiro, se era um topógrafo, o que era, o fato é que eles foram mexendo no Igarapé na região ali e descobriram pepitas muito grandes no Igarapé. E começou então a corrida do pessoal do 30 para esse garimpo, que ficava ao pé da Serra Leste, que era uma Serra Pelada sem vegetação em cima, então o garimpo embaixo no sopé da Serra levou o nome do Garimpo da Serra Pelada. Quer dizer, não era na montanha onde estava o ouro, a pequena colina onde estava o ouro, mas sim, a Serra do Ferro que deu o nome ao Garimpo de Serra Pelada. E esse garimpo surgiu dentro do decreto de lavra de Serra Leste, a Vale já tinha o decreto dessa lavra de ferro e, de acordo com a lei, tudo que for encontrado dentro do decreto de lavra pertence ao decreto de lavra. Então, surgiu, de repente, algo muito grande ali, dentro de uma área nossa, e que a gente não sabia direito o que fazer. Conversando com a diretoria, a diretoria deu autorização, com aquela experiência da gente intervir em garimpo, quer dizer, já tinha uma experiência com cassiterita já na década de 76, lá no Xingu, uma área nossa foi invadida por garimpeiros. Então a gente já tinha comercializado cassiterita. Foi uma outra aventura bastante interessante. Depois, já tinha uma experiência de começar o ouro na região, ali, nas Andorinhas, de Rio Maria. E, trouxemos aquela experiência que a gente achava que era vasta para garimpo, para Serra Pelada. Eu não me lembro direito como foi, nessa hora o ouro já estava mais ou menos, j tinha subido, devia estar 200 a 300 dólares a onça. Era um valor bastante alto, mais ou menos o valor que está hoje. Para a época era alto, porque tinha partido de 30 e poucos dólares no início da década de 70, e já estava, com o segundo choque do petróleo em 79, subindo. Então, a Companhia adiantou um dinheiro lá para o Distrito do Amazonas para começar o garimpo. E fomos lá, revolver, entrou o Venâncio etc, e começamos a comprar o ouro e a baixar o intermediário. Nessa época devia ter uns 10 mil garimpeiros já. A gente estava acostumado a mexer com garimpo de 800, 1000 pessoas. Ali já tinha uns 10 mil garimpeiros. Era uma situação bem mais assustadora. E começamos a mexer.

Política e SNI no garimpo

Em 77, quando houve aquele contato com os órgãos de segurança em Brasília e, depois, eu fiz uma palestra na brigada de Marabá em virtude desse tipo de informação, tinha havido antes o contato com o quartel em Belém, quer dizer, as forças militares, o SNI etc., começaram a saber que existia uma Docegeo em Belém. Então, desde 77, a agência de Belém destacou um economista que de 15 em 15 dias ia no meu escritório, em Belém, e fazia uma entrevista comigo sobre a atividade mineral na Amazônia. Nunca usaram deduragem. Felizmente, nunca fizeram. A única coisa que eles perguntavam de vez em quando é se tinha padre na região. Como eu não mexia com padre, eu nunca sabia se tinha padre na região ou não. Que a obsessão com eles era a atividade da Igreja junto aos posseiros, desde aquela época. Eles tinham esse tipo de preocupação. Mas a atividade era mais para eles fazerem um relatório sobre quem estava atuando na Amazônia em pesquisa mineral, as empresas que estavam atuando, se eram nacionais se eram estrangeiras, um relatório mais de nível econômico, mais de nível técnico. E aí eles começaram a acompanhar o que estava acontecendo lá. E Serra Pelada foi crescendo, crescendo, e um dia eles falaram que o governo queria agir naquilo porque estava com medo de que aquilo crescesse demais e surgisse um quisto perigoso, porque o projeto já estava sendo implantado, então, um quisto em uma zona de tensão social, junto à implantação do principal projeto do governo da Amazônia que era Carajás. E, involuntariamente, indevidamente, com responsabilidade ou não, eu acabei sugerindo por que eles não colocavam o Curió para liderar o processo, já que ele já tinha atuado em Andorinhas com a gente. E o Curió continuava andando lá, perambulando pela região. E, por coincidência ou devido a minha sugestão, não sei, o fato é que logo depois vem a resposta de que Brasília tinha concordado em colocar o Curió. E o Curió visitou incógnito a região. E o Zé Arara, que era um importante comerciante. Lá no Tapajós, já estava atuando em Serra Pelada. E o Curió, quando chegou em Marabá com o pessoal de Brasília, num avião de Brasília, o Zé Arara entra no avião com um saquinho de ouro. E ele foi lá, usando toda a documentação que tinha na época e confiscou o ouro do Arara. Falou: “Se você quiser você vai buscar em Brasília porque esse ouro aí é ilegal. Você não tem documentação para levar esse ouro.” Confiscou o ouro dele e levaram, segundo Curió me relatou, levaram para a agência do SNI, em Brasília, na época era o Newton Cruz que era o chefe da agência. Levou para o Medeiros e para o Figueiredo. E o Brasil, na época, estava iniciando aquele período recessivo. E houve uma decisão de Presidente da República de intervir no garimpo para controlar o garimpo. Foi com essa amostra que o Curió levou lá que houve a decisão.

Em Andorinhas ele era um figurante. Depois, um outro contato que eu tive com o Curió, nós fizemos aquele trabalho, no Xingu, de garimpo, com cassiterita, lá para o ano de 77, 78, por aí. E um dia me chamaram no rádio, o rádio operador me chamou, que tinha um tal de Curió que queria falar comigo no rádio. Ele estava lá no nosso acampamento em São Félix do Xingu, já na Docegeo. E ele queria saber se eu podia dar uma carona no nosso helicóptero, que ia de lá para Marabá, porque ele tinha saído com dois monomotores da FAB e os dois tinham caído. E o piloto não era muito experiente, então ele não queria mais voar na FAB, queria saber se eu não queria dar apoio para ele. Eu fiz esse contato só por rádio, nunca mais encontrei com ele. Então ele ficou atuando como informante do que acontecia no Sul do Pará para o SNI, era um homem de confiança do SNI, na região. Ele era Major nessa época, não era Coronel. Então, começaram contatos de Brasília com a Vale, para haver essa intervenção. Já era o Eliezer que era Presidente da Vale nesse período. Já não tinha mais a equipe antiga do Roquette Reis, do Eduardo, já tinham saído, era a equipe do governo Figueiredo. César Cals de Ministro etc. E logo que o César Cals entrou como Ministro, não sei se houve pressão do grupo do Antunes, se foi uma decisão política do governo mesmo, o fato é que houve uma pressão muito grande para bitolar a atuação da Vale. Então, uma reunião que o César Cals fez em Brasília, logo que ele assumiu, eu peguei o jornal, no início de janeiro de 79, e saiu lá uma reportagem, uma entrevista dele falando que a Vale dali em diante só atuaria em ferro e alumínio, que todas as demais jazidas dela seriam entregues à iniciativa privada e que a Docegeo seria transformada num departamento da Vale, não seria mais uma empresa. Aquilo deu um frio na barriga de todo mundo, a gente estava no auge do sucesso, descoberta de cobre etc. e tal. Aí houve uma reunião, nessa época o Romeu era o Presidente da Docegeo, no começo de 79, quando César Cals foi conhecer Carajás. E foi um negócio triste, o chefe de segurança do César Cals era um índio aculturado, mas presepeiro e tal, tinha boatos de alguma coisa entre ele e o César Cals, não sei se verdadeiro ou não, e tal. A coisa era complicada e o César Cals desandou com a Vale e o Romeu foi o único que reagiu. Eu me senti impotente, era um simples Gerente Regional, e tal. E tinha a imprensa, que a imprensa ficou revoltada com a prepotência do César Cals e a coisa foi muito difícil. A visão dele contra a Vale era muito grande. Então ficou aquele mal-estar, a Docegeo foi obrigada a reduzir sensivelmente a sua atividade em 79. Eu estou fazendo um flashback, aí. E nós fomos obrigados a mandar 40 geólogos embora, mandamos vários geólogos embora e, na época, os geólogos tinham formado a Conage – Confederação Nacional dos Geólogos –, que reuniu todas as entidades de classe dos geólogos e estava com uma atuação fervilhante. Começou a abertura política etc., questionando muito o problema do país, principalmente na área mineral. E, em Belém, foi criada a Apgam – Associação Profissional dos Geólogos da Amazônia –, da qual nós começamos a fazer parte, e, começou uma discussão muito grande contra essa demissão de geólogos, pressão na imprensa contra o César Cals e o fechamento da Vale. A privatização da Vale, já se falava em privatizar a Vale naquela época. Ermírio de Moraes saiu em defesa da Vale, da Docegeo, o Jarbas Passarinho, eu tive uma entrevista... um amigo comum, eu fui falar com o Jarbas Passarinho, ele me recebeu todo fardado lá e tal. Foi uma solenidade na Sudam, ele foi fardado. E recebeu... E o chefe fazia o pronunciamento... Nós começamos a atuar como guerrilha. Quer dizer, a gente não sabia se era a Vale que queria acabar com a Docegeo ou se era o governo que queria acabar com a Docegeo. O nosso objetivo era salvar a Docegeo. E nós começamos a atuar, então, através da Associação, como guerrilha, mas daí ficou uma situação difícil, porque eu era Gerente da Docegeo e não podia atuar contra a Vale se a Vale queria fechar a Docegeo. Nós nunca ficamos sabendo realmente qual o objetivo que estava por trás disso. E o Romeu daí me chamou no grito: “Olha, Breno, você é uma pessoa muito importante dentro da Vale, mas você restrinja a tua atuação política. Quer dizer, você é um homem de confiança da Vale, e o objetivo da Docegeo é fazer o que a Vale quiser, não o que a Docegeo quer.” Deu esse recado curto e grosso. Aí, eu passei a atuar através do Guerreiro, que era um geólogo nosso, Gabriel Guerreiro, e ele começou a atuar então na Apgam. Então, as reuniões da Apgam eram surrealistas porque o Guerreiro atacava o governo e a Vale, e eu como chefe dele defendia o governo e a Vale nas reuniões. A gente quebrava um pau homérico em público. E ninguém entendeu como eu não mandava o Guerreiro embora. Era tudo carta marcada, foi a estratégia que nós combinamos para eu não atuar politicamente. Quer dizer, atuava politicamente, mas indiretamente. Então foi um período muito tumultuado. E, conseqüência, isso começou a minar a imagem do César Cals. E daí, num belo dia, foi um assessor dele em Belém para mostrar que o César Cals não tinha nada contra a Docegeo, contra a Vale, que queria uma aproximação dos geólogos, que estava com muito desgaste. Então o que o César Cals fez? Os geólogos que a Docegeo mandou embora obrigou que o governo, para não ficarem sem emprego, os contratasse. Até hoje são meus amigos, o Rogério, Bosco, que eram geólogos da Docegeo. O que nós fizemos? Mandamos os geólogos mais novos que não tinham tanto a cultura da empresa, e eles foram construindo uma carreira brilhante no DNPM, no governo do Estado do Pará, até hoje trabalham com o governo do Estado do Pará, na Secretaria de Minas e Mineração do Estado. E foi marcado então, para o começo de 80, uma visita do César Cals em Belém, para desagravo perante os geólogos. Então foi pedido que eu levasse os geólogos da Docegeo a Carajás, que o César Cals iria lá para bater um papo com os geólogos para mostrar que ele não era contra os geólogos da Docegeo etc. e tal. E nesse dia, nós tínhamos estado antes, para aproveitar essa viagem que o Diretor da Docegeo foi junto, o Machado foi junto, nós fomos com o Venâncio conhecer Serra Pelada. Foi a primeira vez que eu fui à Serra Pelada, março de 80, alguma coisa assim. E por coincidência tinha uma pepita grande lá. Tinham achado. O Machado, o Venâncio, eu, os geólogos lá da área também, que no dia seguinte recebemos o César Cals em Carajás, vimos. E ele, quando chegou, viu a pepita também. O Venâncio mostrou a pepita para ele, ele então começou a ter interesse por Serra Pelada, como Ministro. Aí visitou o cobre e foi feito o desagravo. Aí o César Cals passou a ser um aliado da Vale e da Docegeo. Mas o gérmen da Vale ficar só com esses dois metais já estava lançado, também. Bom, voltando à questão da intervenção do SNI, então foi feito todo esse esquema e foi marcado, me foi dito então que preparasse um esquema para a logística para a intervenção em Serra Pelada, em maio de 80.

O garimpo era alguma coisa como se não existisse dentro do governo. Tinha havido o garimpo de cassiterita em Rondônia, que havia acabado no final da década de 60, quando as empreiteiras que atuavam na Amazônia, construindo estradas, foram convidadas para entrar na área de mineração. As empreiteiras que abriam a Transamazônica. Então, foi quando a Paranapanema entrou em cassiterita. A Paranapanema era uma construtora, a Camargo Correa foi incentivada, ela montou também uma equipe de pesquisa. Então, várias empresas que atuavam em construções de estrada, principalmente na Transamazônica, foram convidadas pelo governo para entrar na mineração. Foi a época, início da década de 70, quando surgiu o Projeto Radam. Criação da Docegeo, criação da CPRM, havia uma política de governo, não era uma política de Ministério. Há uma diferença muito grande. Existe no Brasil uma diferença muito grande quando a política é do ministério e quando a política é do governo. Podem pensar: “É tudo igual.” Não, não é igual não. Quer dizer, o ministério faz parte do governo mas tem algumas políticas que não fazem parte da macropolítica do governo. Quando se fala em governo é a cúpula do governo, o Presidente da República e a área econômica etc. Se o Presidente da República e a área econômica não entrarem naquele projeto, aquele projeto não sai. Então, nessa época, o mineral era uma política de governo, do Presidente da República e da área econômica. Então, várias medidas foram tomadas nesse sentido. O garimpo tinha sido alguma coisa que o governo, realmente, pensava ter acabado. Aí, o garimpo atuava mais em cassiterita, que na época tinha um valor muito grande e compensava ter garimpo. Hoje ele vale talvez, em valor real, 1/5 ou 1/6 do que era o valor naquela época, se fizer a conversão do dólar também. Então, não havia o ouro, existia no Tapajós, mas era um garimpo isolado. Não incomodava ninguém, produzia uma coisinha de ouro, não era uma produção muito grande. E daí surgiu no Sul do Pará, numa área onde havia grandes projetos do governo, onde já havia uma guerra fundiária entre posseiro, grileiro e fazendeiro, projetos da Sudam, grupos econômicos grilando terra e o povo miserável tentando pegar a posse da sua terra. Então, nesse contexto surge um garimpo, que era um complicador a mais, e o governo achou por bem intervir para tentar botar um tampão. Então, a Serra Pelada passou a ser um tampão para a tensão social. Isso foi dito inclusive pelo SNI, que eles queriam usar aquilo como uma válvula mas, confinada. Quer dizer, aqueles 10 mil, 20 mil que estavam ali dentro eram 20 mil potenciais posseiros, que estavam trabalhando no garimpo, mas confinados, para que aquilo também não se alastrasse. Só que a história não caminha como se pensa, a história caminha de maneira um pouco diferente. Ela é muito mais dinâmica do que querem os políticos, do que querem os que planejam a história do país. E o que aconteceu então? Fomos lá. Fui para lá junto com o Gerente da DNPM, o Sayão era o piloto na época, e fomos para uma reunião de planejamento, isso na segunda semana de maio, mais ou menos, em 80, nós já estávamos comprando ouro lá dentro. E o Incra tinha instalações, tinha a brigada, que era o quartel lá, e tinha o Incra, o Incra sempre foi usado então como base para os órgãos de informação. Nas reuniões era o Incra de Marabá. Ele saía de helicóptero de Carajás e pousava dentro do Incra de Marabá. Saía do Incra, pousava dentro do quartel da brigada com o helicóptero da Docegeo. Era desse jeito o planejamento lá. E o Curió mostrou toda a logística que ia ser feita, já tinha dois Hércules da FAB pousados em Marabá, com todo o grupo.

A intervenção em Serra Pelada

Eu até comentei que era dia 17, porque dia 18 é aniversário da minha filha Tânia, da segunda filha. Eu tinha que ir para Belém para o aniversário dela, só cheguei no final da tarde. E dia 17, que era um sábado, foi combinada a intervenção. A intervenção foi feita por um helicóptero da Docegeo pilotado pelo Sayão. Curió, o Diretor do DNPM em Brasília, do fomento, Manuel da Redenção, e eu representando a Docegeo. Tinha sido decidido o seguinte: que haveria uma intervenção, dali em diante todo ouro seria comprado com recursos do Banco Central, repassados através da Caixa Econômica, a Vale seria a operadora através da Docegeo, a operadora e administradora do garimpo. A Docegeo compraria o ouro, receberia uma taxa da administração de 3%. Isso foi acertado no Rio com o administrador da Docegeo. E esse ouro, depois de fundido, seria entregue à Caixa Econômica, que repassaria ao Banco Central, que entregaria à Casa da Moeda, e se fechava o ciclo. Então, na hora do pouso, quer dizer, um lugar que deveria ter na época uns 15 mil garimpeiros, você descer com um helicóptero e falar que ia acontecer isso, sabendo que tinha intermediários. Então, na hora que a gente estava indo para falar com os garimpeiros, tem uma pedra lá no meio do garimpo onde o Curió subiu em cima, daí o Redenção teve que subir, eu também tive que subir na pedra e falar também, cada um teve que dar o seu recado. Curió falou para mim: “Olha, fica tranqüilo, eu tenho 100 homens que combateram na guerrilha comigo infiltrados aí no meio. E todos estão armados. Se acontecer alguma coisa, pode ficar tranqüilo.” Fora a Federal: a Polícia Federal estava junto, sempre. O apoio foi dado pela Polícia Federal. Agora, o que aconteceu? Começou uma tentativa de invasão do Salobo. Porque surgiu a seguinte mística, se Serra Pelada que a Vale está lá, foi invadida, imagine a outra Serra que o ministro falou que tem ouro, o que não tem? Então, o Salobo começou a ser conhecido como a Serra Cabeluda. Nesse mesmo dia da primeira intervenção, que foi dito, o Venâncio já tinha informação do pessoal subindo de barco para ir para o Salobo, nós entramos então no helicóptero, o Almir, Curió, eu e um cara que eu fiquei sabendo depois que era da Polícia Federal, com uma sacolinha assim. E nós fomos seguindo o rio até descobrirmos o lugar onde os barcos estavam parados, num lugar lá. E daí a gente sobrevoou embaixo, o Sayão sobrevoou bem onde estava o pessoal acampado. Daí nós descemos. Quando descemos eu peguei aquela sacolinha e carreguei para dar para o cara. E era muito pesada. Eu falei: “Curió, o que é isso aqui?” Ele abriu a sacola, estava cheio de granada. Quer dizer, a irresponsabilidade! Colocou dentro do helicóptero da Companhia uma sacola cheia de granada! Eu não sei qual era a idéia, se era jogar em cima dos garimpeiros, o que era. Então esse pessoal atuava dessa forma, com total irresponsabilidade sobre o que pudesse acontecer. Bom, o dia seguinte foi algo fantástico, porque, uma pista de 250 metros, foi feita uma ponte aérea entre Marabá e Serra Pelada com dois Búfalos da FAB, isso está tudo documentado com fotografias minhas e do Venâncio. Era impressionante, aquele Búfalo pousou no meio dos garimpeiros e quando foram descarregar, armazém da Cobal, instalações para a Caixa Econômica, Posto de Saúde. Tudo foi montado de uma hora para a outra. Um baita de um armazém inflável, lá da Cobal, supermercado, tudo. Passou a ser tudo. Serra Pelada passou a ser um paraíso garimpeiro dentro da Amazônia. Quer dizer, uma área que era uma ilha da fantasia, uma irrealidade. E nos primeiros tempos de Serra Pelada parecia que tinha justiça social lá dentro. Era um campo de concentração com justiça social. Quer dizer, todo garimpeiro podia entrar e sair a hora que quisesse, mas com controle. Não podia entrar mais ninguém novo, só quem tinha aquela carteirinha de Serra Pelada, que foi dada pelo SNI. Uma carteirinha de lá. Para confinar o garimpo. Eu não me lembro o número exato. 15 ou 20 mil, mas o número é ao redor disso. Isso tem tudo documentado da época, mas foi feito tanta coisa no meio que a gente acaba não tendo mais o número exato.

A Docegeo em Serra Pelada

A recepção foi excelente. Por dois motivos, primeiro, o ouro estava subindo, o ouro estava num preço bom. Segundo, eles iam tirar o intermediário, a gente ia pagar preço de mercado para eles. Tinha essa vantagem. Eles iam ter toda segurança, assistência médica. Já tinha acontecido um fato, alguns dias antes da intervenção. A agência da SNI de Brasília começou a ter contatos telefônicos comigo. E o Venâncio pegou a informação de que tinha uns casos de meningite lá. Então, imaginem, na hora que o governo faz a intervenção tem um surto de meningite! Aí, o governo militar da ditadura é algo que a gente abomina, que não pode ter, mas as facilidades que tem para romper a burocracia são tremendas. Imagine hoje. Você está na Amazônia, tem um surto de meningite e, quando eu comuniquei isso lá em Brasília, foi numa segunda-feira, a intervenção ia ser no sábado, eles falaram o seguinte: “Pode deixar que nós vamos providenciar.” À tarde, ligaram para mim dizendo o seguinte: “Amanhã à noite, no vôo 250 da Varig, vai chegar alguns isopores com 15 mil vacinas...” Por isso eu acho que o número era em torno de 15 mil... “...15 mil vacinas para meningite. Vai estar um cara barbudo que trabalha com a gente na agência Belém para receber o material. Vai te entregar o material. Providencia um frigorífico e um avião que no dia seguinte ele vai para Serra Pelada.” Então eu providenciei condução, a picape da Companhia, providenciei o frigorífico para guardar e a condução para o dia seguinte. Só que cheguei no aeroporto e o barbudo não apareceu. Não sei o que houve lá. “Bom, agora eu estou num dilema, como eu vou tirar isso na Varig.” Como vão me entregar as vacinas. Não tinha nenhum papel, nada, para dizer que eu poderia pegar essas vacinas aí. E se eu não fizer isso? As vacinas vão se perder. “Como eu vou explicar para Brasília que as vacinas se estragaram?” Embora a culpa não fosse minha. Como eu já estava acostumado com eles, eles nunca se apresentavam como SNI, eles se apresentavam como Presidência da República. Quando chegavam no meu escritório para falar, falavam com a secretária: “Avisa o doutor Breno que o pessoal da Presidência da República chegou.” Tanto que a primeira vez ela falou: “Olha, chegaram uns amigos aí com gozação, falaram que era da Presidência da República. Eu falei para não amolar que eu não queria gozação.” Eu falei: “Célia, o pior é que eles eram da Presidência da República.” Fui o primeiro a ligar diretamente, na época, para o Presidente da República. Aí, eu fui no balcão da Varig e falei: “Olha, eu sou da Presidência da República, vim buscar umas vacinas que chegaram no vôo 250.” “Ah, sim, estão aqui. Você pode entrar aqui.” Eles não pediram documento, não pediram nada. Quer dizer, eu passei como agente do SNI. No dia seguinte, eu liguei para Brasília, informei o que tinha acontecido e estava tudo bem. Todos foram vacinados antes da intervenção. Foi lá o pessoal da Fundação Sesp. Então, eles tinham facilidade de mexer com tudo isso. Mas, antes disso, nesse período que a gente ficou comprando ouro antes da intervenção, a Vale, não sei quanto adiantou para nós. Vamos supor, comprar 1 quilo de ouro hoje está custando 16 mil reais, 1 quilo de ouro, no Brasil. Então, vamos supor que, na época, a gente imaginou que fosse comprar em uma semana uns 10 quilos, que a gente comprava no outro garimpo de Andorinhas 1 quilo por semana, então 10 quilos. Então, vamos supor que a Companhia estivesse adiantado para mim 200 mil reais, em dinheiro da época, o que eqüivale hoje a 200 mil reais. E foi o Venâncio, então, com 200 mil reais. Tinha que ser cash, porque garimpeiro não ia aceitar cheque. Tinha que ser cash. Levava o dinheiro cash, virava, imagine hoje com o controle de terceiros como você ia fazer isso! Era só na base da honestidade das pessoas envolvidas, não tinha nada mais que isso. E chegou com o dinheiro lá, e o que a gente pensou ser para uma semana acabou no primeiro dia. E o garimpeiro não queria saber se a gente não tinha dinheiro, porque ele estava acostumado com o comprador que chegava com o dinheiro. Daí, começou que a Companhia chegou a adiantar uma fortuna. Veio depois a intervenção. E o que aconteceu? A Docegeo comprou muito ouro nessa época, na base de 200, 300 dólares a onça. E quando foi no segundo semestre o ouro chegou a 800 dólares a onça. E a Docegeo vendeu. E o que aconteceu? A Docegeo recebeu, nesse ano, e depois dois anos em seguida, o título da melhor empresa de mineração do Brasil. Porque foi a que deu maior rentabilidade. Um capitalzinho desse tamanho e uma lucratividade enorme! Então a Docegeo recebeu três vezes. Tem no escritório da Docegeo as medalhas da “Exame”, três vezes seguidas, como a melhor empresa do ano, batendo a Vale do Rio Doce, batendo a MBR, batendo a Rio do Norte, Paranapanema. A Docegeo, que era uma empresinha pequena, foi a melhor premiação do ano por causa dessa gigolagem em cima de Serra Pelada. E houve vezes, não sei se é depois da intervenção ou não, que a contagem... foi antes da intervenção... porque depois ficou simples. Depois não era mais dinheiro, a Docegeo não comprava mais ouro em nome dela. E nesse período de quatro, cinco meses que a gente ficou comprando ouro e guardando dentro da Docegeo. Depois da intervenção o ouro era comprado, a Docegeo dava um vale, com aquele vale, dentro de Serra Pelada, na Caixa Econômica, recebia o cheque da Caixa Econômica, ou dinheiro, se quisesse. Com aquele vale, que a Docegeo tinha fundido o ouro, descontado as impurezas e sabia quanto ouro realmente tinha contido ali. Bom, então houve nessa correria, antes da intervenção de Brasília, que a quantidade de dinheiro era tão grande, que não dava tempo do Banco conferir. Então foi feita uma viagem, num bimotor, caixas de dinheiro enchiam o avião até em cima, no lugar dos bancos. E o caixa do Banco foi junto. Para contar o dinheiro lá, porque não deu tempo de contar no Banco e o avião tinha que chegar naquele dia em Serra Pelada, porque senão ia ter um tumulto em Serra Pelada porque não tinha dinheiro. Então imaginem hoje – que o pessoal está matando dentro do Rio de Janeiro, por qualquer 10 mil reais –, a gente colocar 300, 400 mil reais em dinheiro dentro de um avião e levar o avião dessa forma! Foi uma coisa surrealista. Talvez fosse uns 40, 50 mil reais, em notas, dentro de caixas. E o caixa do Banco foi junto.

Nos primeiros anos de Serra Pelada, que foi o ano de 80, houve reuniões com o Ministro, houve reuniões com o SNI, da diretoria da Vale, da Docegeo, nós fizemos várias reuniões dentro da agência central do SNI e, em todas as ocasiões, ficou muito bem claro que o garimpo ia acabar, que ele ia aprofundar o buraco até onde fosse possível, e que depois a Vale ia implantar uma mineração de ouro lá dentro. O que contradizia a diretriz do Ministério que era a Vale ficar só em ferro e alumínio. E o que contradizia até a política da Vale que não tinha decidido entrar em ouro até então. Quer dizer, a Vale estava mexendo com ouro, pesquisando ouro, comprando ouro, ia começar a ganhar prêmios por mexer com ouro, mas a Vale não tinha decidido entrar em ouro, ainda. E o Ministério também não tinha determinado que a Vale entrasse em ouro. Era uma situação bem contraditória. Então, era um garimpo interessante, porque daí começou... no início... já tinha infiltrado, médicos em Marabá já estavam como garimpeiros. E como funcionava o garimpo? Tinha um barranco, mais ou menos 2 por 4, na vertical. Então o cara era dono daquilo. E tinha várias formas. Algumas era de fora quem financiava o cara que estava ali. O cara que estava cavando tinha 10%. Outros eram pessoas de lá que cada um tinha 15%, 10%, tinha vários tipos de arranjo. Então tinha todo esse controle. O DNPM montou o escritório lá, o DNPM fiscalizava isso. A Docegeo coordenava todas as providências administrativas, por exemplo, de vez em quando o SNI ligava para mim e falava: “Olha, nós queremos até o final da semana um telefone público em Serra Pelada.” Então, nem quando eu fui Presidente da Docegeo eu tive tanto poder pessoal como nessa ocasião. “O senhor avise ao Governador o nosso pedido.” Era o Alacid Nunes. Eu ligava diretamente para o Governador e ele ligava para minha casa toda hora por causa de Serra Pelada, porque a pressão em cima dele era muito grande também, por causa da mídia, por causa de tudo aquilo. Daí eu ligava: “ Alacid, é o Breno. O pessoal está querendo um telefone público.” “Pode deixar que eu vou determinar à Telepará que coloque um telefone público.” No fim da semana tinha um telefone público em Serra Pelada. Era um negócio fora de série. Só quem viveu aquilo entende o que aconteceu!

Segurança em Serra Pelada

O que era a segurança? Era dada por alguns PMs e pela Polícia Federal. E tinha o Curió, que ficava lá, e alguns agentes do SNI infiltrados. E a Docegeo tinha um geólogo, Carlos José Tadeu Teixeira, que hoje está na Paranapanema, que era o Gerente do projeto e fazia pesquisa, e era o meu contato diretamente com o pessoal lá na linha de frente. E o Venâncio atuava como órgão de segurança da Docegeo, era o órgão de informação, de quando tinha informação porque ele tinha também que se prevenir contra esse pessoal todo. E atuava também em toda a Companhia. E a Docegeo, no Rio, tinha um Coronel que era o agente, assessor de segurança e informação, o Moacir. Mas ele não atuou muito em Serra Pelada, não. Quando entrou o Coronel Murad é que houve uma atuação maior, mas já no fim de Serra Pelada. Aí não sei se as histórias que surgiram em volta de Serra Pelada são... daria para ficar falando um ano só sobre isso. Mas aquilo foi evoluindo, evoluindo e quando alguém conseguia bamburrar, o SNI pressionava o cara, falava: “Olha, você já ganhou bastante, vai embora.” Bamburrou. Blefar é quando não acha nada e bamburrar é quando acha muito. Bamburro é uma área rica, blefe é uma área pobre. Então, quando o garimpeiro bamburrava, ele era convidado a cair fora: “Vai embora, que você está ganhando muito.” Aí aquela área era sorteada, sorteio público feito pelo DNPM, quer dizer, um país que não existe!

Cotidiano dos garimpeiros

Todo dia de manhã, os garimpeiros ficavam em formação na frente do palanque, era hasteada a bandeira e cantavam o Hino Nacional, todo dia antes de ir para o garimpo. Cada um tinha o seu barraco. Era uma cidade de barraco de plástico, daquele plástico preto. A Docegeo tinha o seu acampamento, seu posto de compra, tinha o Posto de Saúde. Então, não entrava mulher, não entrava bebida, era um negócio totalmente a seco. Campo de concentração com visões de céu, com tudo perfeito, tudo mais ou menos perfeito. Mas era um campo de concentração. Meio fascistóide. Super fascistóide! Mas a coisa era tolerável. Você fala: “Bom, para garimpo até que está muito bom.”

Pesquisa sobre garimpo

Nós tentamos fazer, o Ministério aprovou mas foi vetado pelo SNI, um estudo sociológico sobre o garimpo. Ia até ser contratada a Fundação Joaquim Nabuco, em Recife. Qual esse estudo? Por que o homem está no garimpo? A maior parte das pessoas eram jovens, na faixa de 18 a 25 anos, a grande maioria era do Maranhão e coincidiu justamente com a entrada do capital no Sul do Maranhão, nas fazendas de soja no Sul do Maranhão. Compraram as terras dos pequenos proprietários, que nunca tinham visto dinheiro na vida, pegavam aquele dinheiro e iam para a periferia das cidades de São Luís ou de Imperatriz, daquelas cidades, e daí aquele pequeno lavrador que tinha uma agricultura de subsistência. Um pobre miserável, mas mantinha a sua família, de forma miserável, mas mantinha. Quando vai para a periferia vira um favelado, com os filhos pequenos, os filhos crescem, as meninas vão para a prostituição e os filhos, no passado migravam para o sul, a década de 80 foi uma década de recessão, então não tinham mais o Sul maravilha para migrar, então a Amazônia com Carajás etc., era o atrativo dessa mão-de-obra do Nordeste, principalmente do Maranhão. Nós queríamos fazer esse estudo de maneira científica mas não foi possível fazer porque a SNI vetou, não permitiu que se fizesse o estudo.

Porque nós íamos mexer com as origens do problema. No Brasil você faz reforma agrária mas você não mexe com as origens do problema. Você demarca a terra indígena etc., mas não mexe com a origem do problema. Isso é proibido, porque o dia que você mexer com a origem do problema, a elite que domina o Brasil há várias décadas ou há vários séculos vai ser desmistificada. Nós estamos começando agora, na mídia, a ter vergonha do Brasil porque nós estamos vendo a nossa realidade como ela é. Até agora tinha uma realidade que não era aquela, era a realidade que nós da elite vendíamos para o Brasil. Hoje uma parte da elite está caindo na real. E o restante do Brasil tem que cair na real porque senão nós nunca vamos ser uma nação. Nós vamos ser um país de donatários, como fomos até hoje. Então, sempre que você quer mexer na origem do problema, o que acontece? Você ia mexer com todo esse problema fundiário no Nordeste, que é complicadíssimo, como fica esse excedente de população que o Nordeste sempre dá. Por que o Nordeste sempre tem excedente de população? Nessa época tinha muita gente, muita gente de Goiás etc.

Reabertura do garimpo e eleições

Aí veio o ano de 81, eles atingiram o lençol freático, começou a encher de água, então as cavas não puderam mais baixar muito e o garimpo, no final de 81, acabou. Era a cultura do garimpeiro que, quando ele não podia trabalhar com os equipamentos que ele tinha, ele tinha que ir embora. E foi todo mundo embora. O garimpo ficou sem uma pessoa dentro do garimpo. Eu tenho fotos do garimpo, tenho no arquivo em Belém, sem uma pessoa dentro. Quando veio a época da chuva o garimpo começou a encher de água, tal e acabou. 80 e 81 ele funcionou. Quando chegou em final de 81 acabou o garimpo. Então falamos: “Bom, agora nós vamos continuar a pesquisa.” E a Vale começou o projeto onde ia ser rejeito, onde ia ser a instalação de beneficiamento, e começou a planejar. Um belo dia eu recebo um telefonema do Coronel Léo, que era subordinado ao Newton Cruz, e era o administrador dentro da SNI de Serra Pelada: “Doutor Breno, o Presidente da República decidiu que o garimpo deve continuar.” Eu falei: “Coronel Léo, não é um pouco irresponsável, a gente conseguiu que o garimpo acabasse sozinho, sem conflito, sem nada. Fomentar o garimpo agora?” “Não, doutor Breno, há outras coisas em conjectura, há um problema agrário na região, há tensão social etc e tal. E ninguém fala bem do Brasil lá fora, só falam mal do Brasil por causa da inflação, por causa disso, daquilo, e Serra Pelada foi a única coisa que vendeu a imagem do país lá fora de que o Brasil é um país rico. E nós não podemos discutir uma decisão do Presidente da República e o garimpo vai continuar. Então, a Vale do Rio Doce, a Docegeo, vai contratar empreiteiras etc, e o garimpo vai ser rebaixado.” O que é rebaixado? Nós tínhamos um buraco. Aquele buraco dá para chegar numa certa profundidade. Para que ele pudesse aprofundar mais os garimpeiros tinham que tirar essas partes laterais, como numa mina normal. Só que quem ia financiar isso? Garimpeiro não ia cavar isso de graça. Então foi contratada uma empreiteira com tratores, com scrapes etc., e o buraco foi alargado, foram colocadas bombas lá dentro, possantes, para secar o garimpo. E mais ou menos, então, em abril de 81, março, abril de 81, foi quando eu visitei, com Lúcio Flávio, pela primeira vez o garimpo. O garimpo foi reaberto com toda a pompa etc., financiado pelo governo brasileiro. Então a Serra Pelada perdeu a virgindade. Até então era um garimpo melhor que os outros. Mas sempre um garimpo. Era um campo de concentração fascistóide? Era sim. Mas dentro da realidade que aquelas pessoas viviam, melhor do que as outras.

Mas, então, o garimpo foi reativado. E por que foi reativado? Havia esse problema social, da tensão social, de usar aquilo como válvula de escape. Mas havia um outro problema sério. Era ano de eleição no Pará. E o Deputado Federal Jader Barbalho estava despontando com uma liderança mais forte do que o Alacid e, para o Jarbas Passarinho, que na época já estava começando a brigar e a se separar. Mas o Pará não teve o equivalente com o Jarbas Passarinho, que é uma pessoa séria, uma pessoa que teve o seu valor como pessoa, embora algumas políticas erradas, principalmente na área da educação. Aquela reforma feita no sistema de educação brasileiro, até hoje estamos pagando isso. Mas é uma pessoa íntegra. Mas não trouxe vantagens grandes econômicas para o Pará. Então começou a ter uma oposição à política oficial do Pará, que era via Arena, via Passarinho e via Alacid. E começou a despontar a oposição pelo MDB da época, que era o Deputado Federal Jader Barbalho. E o candidato da Arena foi o Oziel Carneiro, que na época era o Secretário do governo de Carajás. Era um empresário do Pará, secretário de Carajás, num cargo que eu havia sido convidado quando ele saiu. Felizmente eu não aceitei porque era um simples cargo figurativo. Daí foi o Nestor Jost para o cargo. E o Oziel Carneiro era o candidato. Os levantamentos e as prévias feitas pelo SNI indicavam que a disputa ia ser pau a pau entre o Jader Barbalho e o Oziel Carneiro, Arena e PMDB, e Serra Pelada poderia dar uns 30, 40 mil votos. Então, se lançassem o Curió como Deputado pela Arena, por Serra Pelada, ele acabaria levando os votos de Serra Pelada para o Oziel Carneiro. E assim foi feito. Então, Serra Pelada perdeu a virgindade, porque primeiro, podia entrar à vontade, Serra Pelada aí passou de 15 mil para 30, 40 mil pessoas. Daí começou. Entraram com a mão-de-obra, não mais como donos de cata. Os caras passaram a surgir como formigas dentro daquilo lá. A mão-de-obra braçal, o bóia-fria do garimpo. Você tinha o empresário de fora, tinha o proprietário local ou sócio, ou gerente daquele empresário e, agora, tinha um terceiro personagem que era o formiga, aquele que ganhava por cada saco de terra transportado. Porque você tinha que transportar de lá o estéreo, para o buraco aprofundar em cima da cata, que a gente só... abrimos fora, mas a cata para afundar podia ter ouro, quem ia tirar era ele. E tinha que tirar o que era minério. Cada um tinha o seu curralzinho fora, onde fazia a lavagem daquele material. Então surgiram as procissões de formiga, pessoas que trabalhavam ganhando às vezes um prato de comida, ganhando uma diária, ganhando o saco transportado etc. Na esperança de, de repente, conseguir uma vaga numa cata, isso que eles sonham, de repente ele entrar no sistema também. Por isso foi possível colocar mais gente. Foi o bóia-fria do garimpo que entrou. E no garimpo chamava formiga.

Aí veio a eleição. Jader Barbalho ganhou por 9 mil, 10 mil votos, uma coisa assim. Foi bem apertada mesmo, até o final foi disputado. Mas os votos de Serra Pelada foram anulados pela Juíza porque não tinha domicílio eleitoral etc., então a Juíza de Marabá embargou os votos. Mas mesmo assim o Curió já tinha uma mística regional, e o Curió foi eleito Deputado Federal. Acabada a eleição houve duas visitas do Figueiredo: uma em 80, depois outra em 82, quando foi a abertura do garimpo, ele foi lá. A primeira eu participei, a segunda não. A segunda o Venâncio participou. Então nessa reabertura do garimpo, houve um compromisso quando foi reaberto, que seria para um ano só, ou seja, só para cumprir o objetivo da eleição. E quando o Figueiredo foi lá, na abertura, para falar que no ano que vem uma Companhia ia entrar lá e tudo aquilo, tal, o Curió pegou os garimpeiros mais simples, até alguns com algum distúrbio comportamental, simplórios mesmo, sujou da cabeça aos pés de barro – o garimpeiro se suja, mas não a esse ponto –, para que esses, com bandeirinha, recepcionassem o Figueiredo e depois carregassem ele nas costas, sujassem todo ele de lama. E o Curió falou uma frase que foi o seguinte: “Vocês se lembram que o garimpo já fechou uma vez e nós reabrimos. Agora, quando ele for fechar, nós vamos reabrir de novo.” Porque ele já era deputado eleito. Na frente do Figueiredo! O Figueiredo foi viajando quando parece que com o Eliezer, numa viagem em que foi a São Luís, isso foi contado pelo Deoclécio para mim, não sei se foi verdadeiro ou não, mas que ele teria se referido a respeito do Curió como traidor filho da... Porque ele era um homem do governo e passou a ter vida própria. É mais um dos casos da criatura contra o criador.

As fases e conflitos de Serra Pelada

Então nós tivemos o primeiro ano, que foi o ano da virgindade etc, lá, daquela coisa irreal, campo de concentração de luxo. Depois nós tivemos a perda da virgindade, quando Serra Pelada foi usada como curral eleitoral. E, após esse período de curral eleitoral, veio o ano de 83, que foi o ano de conflito entre o governo federal, que tinha facilitado que o garimpo continuasse, mas dependendo de um prazo. Ele já tinha dado sinal verde para a Vale implantar uma mina de ouro lá, dentro daquela política que a Vale entrasse em ouro. E a reação do Curió com os garimpeiros para que o garimpo não fechasse. Então, em 83, o garimpo cresceu de maneira assustadora. Foi a época que o garimpo teve uma Amazônia bastante rica, parece que nesse ano se produziu 13 toneladas, a maior produção no garimpo foi 2 ou 3 toneladas em 83. E o garimpo chegou a 60 mil pessoas, mais ou menos. Dentro de um único buraco, buraco do tamanho do Maracanã, com 80 metros de profundidade, trabalhando lá 60 mil pessoas! E já sem controle nenhum. Nós começamos a ficar num fogo cruzado, porque o SNI determinando à Vale que a Docegeo tinha que assumir o controle, mas ao mesmo tempo já tentando tirar o pé de dentro. E a oposição forte do garimpo. Eu me lembro de uma visita feita em junho de 83, quando o Figueiredo não entrou mais, mas mandou um vídeo. Ele gravou um vídeo para mostrar para os garimpeiros, determinando que o garimpo continuaria até o final do ano. Porque o prazo era para terminar em junho, então prorrogou até o final do ano. Então fez um anúncio aos garimpeiros, como se fosse uma coisa boa, que ia prorrogar por mais seis meses mas falando que ia acabar. Então o clima já estava bastante hostil. E, nessa visita, foram uns deputados que visitaram Serra Pelada, para ver a reação de Serra Pelada e começou a pressão do Curió para que o garimpo não fechasse. E com esse vídeo do Figueiredo para ser apresentado, eu fui lá no meio. E a visita foi bem agressiva mesmo lá no garimpo, havia muita hostilidade contra a gente, o próprio SNI já estava sendo hostilizado. E na hora que o ônibus parou no garimpo eles desceram. A hora que voltou, entrou um deputado gritando lá, gritando, gritando: “Encontrei ouro, bamburrei!” Quer dizer, um dos deputados que estavam lá fiscalizando era dono de garimpo em Serra Pelada! Então a coisa ali estava totalmente corrompida, e no início de 84, a hostilidade começou a ficar muito grande, o Venâncio monitorando o tempo todo sobre o que estava acontecendo, cada ato do Curió, cada declaração do Curió era monitorada, tudo. As televisões do mundo todo, principalmente Alemanha, as do Brasil foram todas lá fazer cobertura, principalmente a “Globo” e a “Bandeirantes”. Do mundo todo, principalmente do Japão e da Alemanha, de vez em quando iam lá fazer um vídeo sobre Serra Pelada. Veio uma televisão do Japão, pediu para que fosse lá, eu liguei para Brasília e falei: “Tenho mais um pedido da televisão japonesa, vamos dar autorização?” “Não vamos deixar mais ninguém entrar em Serra Pelada, não tenho mais orgulho nenhum de mostrar aquilo para ninguém. Aquilo virou um monte de corrupção e todo mundo se corrompeu lá dentro. Felizmente só a Docegeo não se corrompeu lá dentro.” Foi o que eu falei para ele! E realmente nós não tivemos um caso de corrupção com nenhum empregado nosso. O pessoal da Federal, do DNPM, do SNI, todos eles ganharam dinheiro com Serra Pelada.

Deterioração e conflito

Daí começou a deterioração, até chegar a crise de junho, fim de maio, aí começaram os conflitos, volta e meia era conflito, era televisão entrando na minha casa, às vezes no fim de semana, quando acontecia um conflito. Para lá e para cá. Vinham de Belém para eu dar entrevista, aquela que você nem fala “Bom dia” já tem a câmera na tua cara, ligada, e você é obrigado a falar o que ele pergunta e tal. Até que chegou uma hora e o Venâncio falou: “Olha, não dá mais para ficar.” Aí eu avisei... isso foi em maio de 84... o Rio de Janeiro que ia reter a equipe. Avisei Brasília que não tinha mais condições de ficar, o SNI não garantia mais a segurança da equipe lá dentro. Aí tomo uma ponte aérea, tiramos todo mundo de Serra Pelada para Carajás num dia só. Não ficou mais ninguém lá dentro. Passamos a compra direta para a Caixa Econômica, quer dizer, a Caixa Econômica ia se virar em comprar ouro, e a gente não passou a comprar. A produção já estava caindo também. Aí veio junho, o célebre conflito que eles fecharam. Porque boa parte dos garimpeiros dos 12 garimpos eram de Imperatriz no Maranhão também. Então foram orquestrados pelo Curió, fecharam a Belém-Brasília, fecharam a estrada, e marcharam em direção a Carajás. Nesse dia eu estava em Carajás e, aí, foi uma situação bastante crítica. O km 30 já tinha sido batizado de Curionópolis, em homenagem a Curió, até hoje é o município de Curionópolis, em homenagem ao Curió. Incendiaram bancos lá em Curinópolis, vieram para Parauapebas, incendiaram várias áreas. Teve até um fato interessante. Curioso, não interessante. Quando começou a atividade de empreiteiros em Carajás, construção, havia o problema dos solteiros. E as casas de prostituição que tinha eram barracos pobres ao longo de Curionópolis, no Parauapebas. Bem de peão. E tinha os engenheiros que queriam ter o seu cabaré. Então os empreiteiros construíram, em Parauapebas, uma casa no rio, até bonita, uma casa chique. Era um bangalô com banquinhos, na beira do rio, para namorar e tudo aquilo. E passou a ser a casa de luxo que tinha lá. Então, nessa hora que os garimpeiros tentaram invadir Carajás, marchando para invadir Carajás, as prostitutas dos cabarés rampeiros invadiram a casa chique e tocaram fogo. Foi uma luta de classes! Era o garimpeiro contra a mineração, as prostitutas pobres contra as prostitutas que vinham de avião de Belém para ficar na casa bonita na beira do rio, e a casa foi destruída. Então, foi um conflito de classes. Nesse dia, quando a invasão veio, o Gazzola, que era responsável pela operação, organizou a... Vieram aviões de Belém com a PM. E na ponte do Parauapebas, na base de Carajás, foi colocado tropa de um lado e garimpeiro do outro. Felizmente não atravessaram senão o Eldorado de Carajás teria acontecido em 84. Houve uma negociação, os garimpeiros não atravessaram e com isso se criou um fato político para que o garimpo continuasse. O que era esse fato político? A Vale era titular do direito de pesquisa. Então, um engenheiro de minas de São Paulo, que achava um absurdo entregar aquela área para o garimpo, e era também acionista da Vale, entrou com uma ação popular contra o governo. Dizia que não podia entregar a área da Vale para o garimpo, que ele se sentia lesado como acionista da Vale. Então, foi avaliado quanto a Vale tinha calculado, pesquisado na época, era 27 toneladas que a gente tinha medido na época. Então foi feito uma lei, aprovada pelo Congresso Nacional, que aquele ouro que a Vale havia pesquisado seria entregue ao garimpo e a Vale seria indenizada pela perda do ouro para que seus acionistas não fossem lesados. Então nós, cidadãos, pagamos isso ao garimpo e à Vale. Permitiram que o garimpo entrasse, o garimpeiro recebeu aquele ouro de graça, para poder continuar garimpando. Na realidade, boa parte desse ouro já tinha sido garimpada. Restava talvez lá umas 10 toneladas só ou nem isso talvez. E a Vale recebeu em torno de 60 milhões de dólares, parece. Do dólar na época. Excepcional negócio, porque ela ganhou sem minerar. E é aprovado pelo Congresso Nacional! Depois houve ações populares para que a Vale devolvesse esse dinheiro, uma série de ações, mas nunca conseguiram reverter isso. Então, a Vale saiu de lá. Eu lembro que, nessa época, antes daquela invasão, houve um fato interessante, curioso, e que foi me contado pelo Pitella. Ele, na época, era o Diretor da Vale responsável pela implantação de Carajás, era o chefe do Gazzola. E tivemos Espírito Santo, que era jazida da Vale. E os dois foram para lá para ver esse negócio de tumulto, de invasão, de Serra Pelada etc. e tal. E tiveram uma reunião com o General da brigada de Marabá para pedir segurança para a Vale. Antes da invasão, foi naquele período de tumulto ali. E eles foram de helicóptero da Docegeo até Marabá, desceram em Marabá para pegar o carro da Companhia e ir para a brigada pela Transamazônica. Dava uns oito quilômetros, mais ou menos, do centro de Marabá. Quando ele desceu, o Pitella olhou e falou: “Olha, tem uns caras barbudos ali, olhando, deve ser o pessoal do garimpo, vamos tomar cuidado.” Aí entraram no carro da Companhia e o Pitella falou para o General: “Olha, os caras entraram no outro carro lá atrás.” Aí pegaram a Transamazônica com o carro atrás, seguindo. “Os caras estão seguindo a gente.” Chegaram na Transamazônica, tinha um atoleiro. Aí o Pitella falou para o motorista: “Deixa eles passarem na frente. Não vamos passar na frente que o nosso carro vai morrer ali dentro, vai atolar e eles vão massacrar a gente, os garimpeiros vão massacrar a gente.” Aí fizeram sinal para os caras passar, e eles, fizeram sinal de que era para o Pitella ir na frente. Tiveram que ir na frente. Aí foram, chegou no atoleiro não deu outra, atolou a carro. Aí os caras vieram atrás, desceram, foram ajudar. Era o pessoal da Polícia Federal que tinha sido avisado pelo quartel para dar segurança! Isso foi contado pelo próprio Pitella. Bom, aí em Serra Pelada, o que aconteceu? Serra Pelada acabou, foi indo, foi indo, acabou. E surgiu uma mística, a de Curió ser o semideus de Serra Pelada. E havia uma mística que foi criada, real, mas virou uma fantasia. O ouro, em Serra Pelada inicial, quando a Docegeo comprava, tirava as impurezas, analisava quanto tinha de ouro, pegava aquela amostra de ouro, analisava: “Então isso aqui tem 50% de ouro. 50% de ouro aqui. O resto é impureza.” Sujeira. Podia ser um pouquinho de prata. E o ouro em Serra Pelada tem paládio junto, que é um pratinóide, do grupo da platina, tem o paládio junto. É um metal nobre mas de valor mais baixo que o outro. E chegava a ter até 20 ou 30% de paládio junto com ouro. Logicamente, quando era um pedaço de ouro, a sujeira, parte da sujeira era paládio. E naquelas compras que a Docegeo fez no início, em nome da Caixa Econômica, parte era paládio. Isso depois ia para a Caixa Econômica, Banco Central, quando era fundido na Casa da Moeda, e separava o ouro do paládio. E o Banco Central vendeu o ouro e vendeu o paládio. Mas o paládio entrava no Banco Central a custo zero. Nem a Docegeo ganhava nada e nem a Vale, mas o Banco Central ganhava. E os garimpeiros descobriram isso e entraram com uma ação indenizatória contra o paládio.

Cooperativa dos garimpeiros

Foi criada uma Cooperativa dos garimpeiros em Serra Pelada e Curió era o presidente. Na época avaliaram 10 milhões de dólares. E a Caixa Econômica não ligou muito para isso e acabou perdendo a ação. Isso rola até hoje. E eles colocaram correções em cima daquilo, porque daí não era mais 10 milhões de dólares, ficou pelo valor na época, e correção em cima. Eu sei que já estava valendo em 95, 96, 60 a 70 milhões de dólares. Então, a cooperativa queria receber isso, quer dizer, esse dinheiro ia chegar, entrar por um lado e sair pelo outro, os garimpeiros não iam ver nada. E teve impasse: “Isso não pode ser pago! Vai pagar a quem?” É como o problema do empréstimo compulsório da gasolina. Quem vai receber esse empréstimo compulsório? Como você vai provar que abasteceu com gasolina naquele período? Como você vai pagar um garimpeiro? Como você vai saber quem é aquele garimpeiro? Então surgiram “n” procuradores em nome dos garimpeiros para receber esse dinheiro. Com isso eles não queriam largar mão de Serra Pelada para tentar receber esse dinheiro, não mais pelo ouro que tinha lá. Até que um geólogo, que tinha sido Presidente do Conage, assumiu o DNPM, e, quando ele estava no DNPM, achou que era um absurdo Serra Pelada não poder mais ser pesquisada e começou a forçar a Docegeo e a Vale para que voltasse lá. Isso, então, começou a ser feito em 95, 96, e aí surgiram aqueles conflitos, quando a Vale teve sucesso em achar o ouro. Estava na época da privatização. Então, teve que ser comunicado ao Presidente da República. Fernando Henrique divulgou que existia ouro em Serra Pelada descoberto por lá. Então, os garimpeiros voltaram para querer o ouro de novo. Daí eles fecharam Serra Pelada. Isso aconteceu. Eu estive com o Governador Gabriel para pedir proteção nessa época, e ele falou comigo: “Breno, eu tenho muito medo de colocar força policial em Serra Pelada, porque eu não quero sujar minhas mãos de sangue enquanto Governador do Estado. Que amanhã eu coloco a polícia lá, o garimpeiro ataca o policial, o policial, na hora, se ele atacar, não vai pensar duas vezes, vai dar um tiro e eu vou evitar de colocar força policial lá em cima.” E, poucos meses depois disso teve o negócio do Eldorado, mas aí era uma diferença, o Eldorado tinha os fazendeiros fazendo pressão na polícia, e talvez até dando dinheiro etc., coisa que a Vale não fazia com a polícia. A postura da Vale tem sido totalmente ética. Então, isso deve ter insuflado a polícia a agir, independente da ação do Governador, com maior violência. Embora o Governador fosse contra, numa hora dessas lá a cultura local é que prevalece. Então a polícia não tinha nada contra o garimpo, pessoalmente, porque nunca tinha havido um confronto. Mas contra o posseiro já era um conflito antigo. Contra sem-terra já era um conflito antigo, porque ela sempre foi insuflada pelos vilões que estão na região toda. Então, essa é a história rápida, bem resumida, de Serra Pelada. O Coronel Murad é que conseguiu documentar tudo isso que deve estar em algum lugar na Docegeo ou na Vale. Um histórico desde o início, tudo documentado, com várias entrevistas, tem toda a história do garimpo de Serra Pelada.

Estrutura da CVRD em Serra Pelada

O pessoal da Vale ia ter um contato. Haviam as reuniões no SNI, na qual participavam o Deoclécio, o pessoal da Docegeo no Rio à época, o Zé Adolfo era da Docegeo, ele participou dessas reuniões, José Adolfo, o Darci Germani, que era o Superintendente de Desenvolvimento da Vale participou algumas vezes também, em Brasília. Até houve uma vez que o Deoclécio fez uma irreverência numa reunião no SNI. Quando o SNI veio cobrar algumas ações da Vale, ele falou que a Vale não tinha nada com isso, com Serra Pelada. Que a Serra Pelada era Serra Pelada Gold Company. Então, o Coronel Léo era o Presidente e o Breno era o Gerente. Quer dizer, qual a referência dele? Na realidade acontecia isso. Quer dizer, eu relatava tudo que acontecia comigo, nada foi feito por baixo do pano. A diretoria sabia tudo o que acontecia, e a Vale também. Mas o SNI agiu em Serra Pelada sem consultar a Vale. Ele determinava o que a gente tinha que fazer. Se ele determinava ao Governador, o Governador fazia. E quem era o mísero Gerente regional da Docegeo que ia ser contra? Apenas comunicava ao Rio: “Pediram para fazer isso. É para fazer?” “Faz.” “Então faz.” Quem não viveu no governo militar, é difícil você ter a cor do momento político que você vivia. Quer dizer, você acha as coisas absurdas, mas era assim que acontecia. Houve um período mais negro na década de 70, esse era bem tenebroso, nós tivemos geólogos presos etc e tal, sem nada mais. Tivemos geólogos presos, tivemos um administrador torturado, em Rio Maria.

CAULIM

A história e a pesquisa do caulim

Uma história interessante é o caulim. Ela começou subversiva também, ela começou bastante subversiva e de uma maneira simples. A Docegeo tinha mandado de vez em quando geólogos fazerem trabalho fora, fazer curso fora, e um dos trabalhos que foram feitos, através de um geólogo, que foi professor na Bahia, foi do centro industrial da Finlândia. Ele havia sido professor na Bahia, daí manteve contato. Foi feito um convênio com esse geólogo da Finlândia, de vez em quando eles mandavam geólogos da Finlândia para visitar os nossos projetos. E para os geólogos nossos verem as tecnologias usadas na Finlândia em geologia etc., e tal. E através desse geólogo, em contato com um geólogo nosso, fala o seguinte: “Por que a Docegeo não mexe com caulim? A Finlândia é um grande produtor de papel, um dos grandes produtores de papel do mundo é a Finlândia. E os produtores de papel da Finlândia estão preocupados, porque os dois grandes produtores de caulim para papel, que são a English China Clay na Inglaterra, e os produtores da Geórgia, Estados Unidos, estão com perspectiva de exaustão das suas jazidas.” Dizia que não haviam outras jazidas de caulim no mundo, a não ser na Amazônia. E que a Vale tinha jazida de caulim na Amazônia, onde ela procurou bauxita, a parte de baixo tinha caulim também. E por que a Vale não se interessava em usar toda a logística que ela tem para produzir caulim também? Isso deve ter ocorrido em 86, 87, por aí. Daí, foi conversado, já era o Gazzola que estava aqui, ou o Chico Fonseca, foi nessa transição, entrada do Gazzola como Presidente. Acho que foi antes do Gazzola, em 86. Aí, foi feito o primeiro contato, vieram geólogos lá da Finlândia, visitaram a área de Almeirim, e foi dada a visão do mercado do papel. Por que a Finlândia estava preocupada com ele? Porque a Finlândia era consumidora de caulim e ela via que se acabasse o caulim do mundo, cada vez ia ficar mais caro. Então interessava fomentar outra produção. Então a intenção dos geólogos da Finlândia era fomentar a produção, e estavam usando a gente como meio. E a gente tentando aprender com eles alguma coisa de caulim. Então, começou a ter esse gérmen, mas falar em caulim etc era meio complicado. Daí foi levado ao Deoclécio a idéia do caulim. Na década de 70, quando foi descoberto o caulim pela Jari, no final da década de 60, que hoje é da Cadam, do Grupo Antunes. Foi feito pesquisa também no rio Capim, a Sudeste de Belém, perto de Paragominas, ao longo do rio. Foi feito pesquisa pela CPRM, todas essas empresas, e descobriram caulim na região, mas aquilo ficou morto. E uma das áreas ficou com a Mendes Júnior ou Andrade Gutierrez? Andrade Gutierrez. A Mendes Júnior também mexeu, mas foi a Andrade Gutierrez que ficou. Aí o Deoclécio comentou: “Mas a gente vai mexer com o caulim lá no Almerim? O pessoal da Andrade Gutierrez falou comigo que tem jazidas boas aqui em Capim, já dimensionadas. Porque a gente não entra de sócio?” E daí começou a abandonar a questão do Almeirim, e a se pensar, com a Andrade Gutierrez, a fazer o caulim no Capim. E fui com o Gazzola, com a diretoria da Andrade Gutierrez, para fazer essa joint venture, para pegar a jazida deles e tocar em frente. Havia consenso de que realmente o mercado ia melhorar, que o mercado ia ser bom porque ia acabar o caulim da Inglaterra e o caulim da Geórgia. Na Inglaterra porque a jazida estava acabando, e na Geórgia porque há um problema para expandir jazida. É uma área de agricultura, um problema fundiário, difícil expandir jazida. E, de repente, não sei porque, a Gutierrez não quis mais assinar o protocolo do caulim. A coisa começou a melar, começou a andar para trás e não saiu. Então a equipe da Amazônia, de pesquisa, começou a mexer com as outras empresas que tinham feito pesquisa de caulim, e pegou umas áreas que estavam livres, que tinham sido de uma outra empresa. Então, essa nova área, que foi redescoberta pelos geólogos da Docegeo, porque uma outra empresa havia trabalhado na década de 70, ao iniciar as pesquisas, se verificou que o caulim era de uma excepcional qualidade. E na Docegeo o que aconteceu? Ela era órfã de pai e mãe, ignorante em caulim, não sabia nada. Então tentou correr atrás disso, e duas coisas foram feitas: primeiro foi feito um PHD de curta duração, pelos geólogos das empresa. O geólogo Roberto Assad, o engenheiro de minas Gazolinha, que na época trabalhava na Docegeo, e o Chicão, um engenheiro de processos do Km 14, foram colocados no avião e mandados para a Geórgia. Lá visitaram todas as empresas, as principais, e viram como se explorava o caulim. Como se minerava, como era o processo, como era a purificação, o mercado, como era. De lá foram para a Inglaterra, foram visitar a China Clay, a mina, e de lá foram para a Alemanha visitar uma empresa que distribuía o caulim na Europa, para ver como era o mercado. Então, depois desse quase um mês de viagem, eles voltaram com uma visão muito boa do setor. Quer dizer, foi um “PHD”, entre aspas, rápido, um Mobral rápido. Mas foi incrível porque a gente voltou com uma cultura mais moderna do que a do próprio grupo Caemi, que produzia o caulim para a Cadam. Desde o início já se pensou em colocar a separação magnética, coisa que a Cadam passou a fazer depois que soube que a Vale ia colocar. Quer dizer, então houve todo esse aculturamento rápido da empresa. O Gazzola na época também se entusiasmou, por ser uma idéia nova, e ele, como Presidente, pegar uma coisa nova para Vale. Então deu um apoio muito grande, e isso ajudou. E o Deoclécio também, ele sempre era aberto a coisas novas, também ficou dando um apoio muito grande. E se escolheu como principal sócio a Engelhard. Por quê? Porque nessa visita eles chegaram à conclusão de que a empresa com tecnologia mais avançada, mais agressiva no mercado, era a Engelhard, uma das produtoras da Geórgia. E foram feitos os primeiros contatos com a Engelhard. A Engelhard era totalmente interessada, que ela sabia que as jazidas estavam exaurindo, e que o caulim da Amazônia, enquanto se fizer papel com o caulim, ele vai ser importante. Porque há dois tipos de caulim. Todo papel tem caulim. Este papel comum, papel de xerox etc., tem o caulim de enchimento. Quando se fala que ele é alcalino, daí ele tem carbonato de cálcio, não é caulim. Papel de jornal não tem, mas o papel comum que a gente escreve, de xerox, ele tem caulim. Então o que é o papel? É uma malha. Eu sei porque eu vi a Suzano fazer, quando estava fazendo essas coisas, vendo como fazia, então aprendi, porque eu não fazia a menor idéia. É uma rede de fibra de celulose, como se fosse uma tela, uma trama. E coloca aquela massa de caulim com outros aglutinantes, aquilo é prensado, passa numas calandras para ficar cada vez mais fino, na espessura desejada, e faz o papel. É uma massa de fibra de celulose, e o enchimento é o caulim. Então, o caulim de enchimento é um caulim barato, que você tem prioridade. E existe um caulim mais barato ainda que é usado para cerâmica etc, é um caulim mais impuro ainda. Então esse caulim para papel, de revestir papel, tem que ter algumas qualidades. A brancura etc., mas não é um caulim. Desse caulim só tem na Geórgia, na Inglaterra e na Amazônia. O outro caulim tem em qualquer lugar: tem em São Paulo, tem em vários lugares, tem na Europa, em todo lugar tem. Agora, o caulim de corte, ou seja, caulim de revestimento, é aquele que você usa para a “Playboy”, a “Veja” já usa um pouquinho, aquele papel que dá brilho, para você fazer boas reproduções de fotografia, fazer reprodução de cores. É um caulim que, depois de o papel pronto, passa nos tanques com esse leite de caulim e é pintado em alta velocidade. Então esse caulim ele tem que ter brancura e fluidez. Mesmo depois de beneficiá-lo, ele contém algumas impurezas que tornam ele mais branco, menos branco, também a granometria influi às vezes na alvura do caulim. E a fluidez depende do arranjo dos cristais. Porque se ele não formar uma tinta muito fluida, a velocidade com que aquele papel passa dentro, que são de vários quilômetros por hora, se ele for viscoso cola, e a velocidade tem que ser lenta. Então, essas qualidades são qualidades físicas do caulim, importantíssimas: alvura e fluidez. E esse caulim, no Capim, tem essas duas qualidades excepcionais. Ele tem a qualidade in natura. Paralelamente ao que foi feito nessa viagem, foi contratado um especialista nos Estados Unidos, que ficou extasiado com o caulim que tinha aí, e aquilo deu uma força para o projeto. Vem um dos maiores especialistas dos Estados Unidos, professor de Universidade, vem falar que nunca tinha visto nada igual no mundo, em termos de alvura! Então, aquilo deu confiança para a Companhia para ir à frente do projeto. Então esse caulim tem essa qualidade boa. E ele se complementa na fluidez. O da Cadam, da região do Almeirim, é um pouquinho maior, a alvura do Capim é melhor. Então os dois até são um pouco complementares. Ficou a idéia da Vale entrar em caulim, começou a fazer pesquisa etc. E aí chegou o impasse político: a aprovação da Constituição. O Gazzola já tinha saído da Docegeo e quem estava na Presidência da Docegeo era o Deoclécio. Um dia eu entro na sala do Deoclécio, Deoclécio estava com a Constituição na mão, e fala: “Nós não vamos tocar o caulim.” Eu falei: “Por quê?” “Porque está aqui na Constituição que foi aprovada. Atividade econômica estatal será complementar da atividade privada. Então, com base constitucional, o grupo Antunes vai embargar a entrada da Vale, porque é um grupo que nós vamos ser concorrentes. Só há uma saída: nós temos que nos associar com o grupo Antunes.” Voltando um pouco. Eu falei que a Engelhard estava interessada, e o que aconteceu com a Engelhard? Veio um Diretor da Engelhard, numa reunião com a Docegeo, já com Deoclécio, e essa reunião foi um desastre total. Foi um desastre total porque o cara veio com um representante de São Paulo, que seria mais um intérprete, porque o inglês do Deoclécio é mais ou menos como o meu, meio macarrônico. Estava um outro Diretor, o Darci, que tinha estudado no Canadá, falava bem o inglês. E, no primeiro contato ali, na Docegeo, nós íamos almoçar no Redondo, aquele restaurante giratório que acho que não existe mais, perto da Aeronáutica, do lado da Vale. E antes da gente sair, a gente ficou no impasse, porque o Darci perguntou para o Diretor da Engelhard que tamanho de empreendimento ele pensava em fazer com a Docegeo. Ele falou: “Com a Engelhard um empreendimento inicial de umas 100 mil toneladas, podendo chegar a 300! Sem Engelhard, Zero!” Ou seja: “Sem a Engelhard, a Engelhard acaba com vocês e vocês não vão conseguir produzir nada.” Assim! Eu falei: “Chefe, ele entrou chutando a medalhinha.” A expressão que eu usei foi que ele estava chutando a medalhinha. Ele falou: “Deixa comigo. Deixa comigo.” Aí fomos para o almoço, mal acabamos de sentar, ele falou em inglês macarrônico lá, eu não me lembro como ele falou em inglês, mas depois eu lembro a outra frase que ele falou, essa eu lembrarei para sempre. Falou: “Sem Engelhard zero?”, aí, ele continuou, e falou: “To make shit, brazilian are good.” “Para fazer merda os brasileiros são bons.” A primeira frase que ele falou! Aí ele continuou, emendou e falou o seguinte: que ele sabia que o mercado de caulim é cartelizado, ou seja, poucos produtores dominam o mercado. Então, que o caulim era dos poucos bens minerais que o preço é determinado pelo produtor e não pelo comprador. Porque ferro quem determina é o comprador, não é o produtor. E que os consumidores iam entrar na produção, os papeleiros iam entrar na produção, e que então a Vale ia procurar os papeleiros finlandeses e japoneses para fazer uma joint venture. O cara ficou pálido na hora! Pediu para ir ao banheiro, daí o cara de São Paulo começou: “Não, não é bem assim, vocês interpretaram mal.” Bom, mas foi um desastre. Não saiu acordo, não saiu nada. Quer dizer, o Deoclécio tinha essa característica de, quando o rei estava nu, ele falava que o rei estava nu, ele não ficava botando pano quente, não. Então ficou um impasse com a Engelhard. E daí o Deoclécio procurou o Eliezer. O Eliezer já não estava mais na Presidência, estava no Conselho, e foram falar com o Antunes, para fazer uma associação. Quer dizer, na época, eu não via a dimensão do lance do Deoclécio. Quer dizer, se você tentasse fazer um trabalho sozinho, o Antunes ia se opor, aí a Engelhard se associava ao Antunes e a Vale seria obrigada a vender a jazida porque o governo ia permitir que ela fizesse. Então ele procurou se associar ao Antunes. E o que acontece? O Machado, que tinha sido Presidente da Docegeo, acabou, nesse período, Presidente da CPRM. E, como amigo nosso, sabia o que a gente estava fazendo, ficou entusiasmado. Aí ele falou: “A CPRM tem jazidas no mesmo lugar lá. Eu vou licitar essas jazidas.” Eu falei: “Machado, não faça isso! Por que você vai criar uma CPI na Câmara!”, eu falei para ele. O que vai acontecer? A Engelhard vai querer melar o negócio e vai entrar e vai ganhar. Falei isso para ele na ocasião. “Não, eu tenho supremacia na CPRM, o mercado está bom, está na hora de fazer a licitação, vou fazer a licitação.”. E fez a licitação. E não deu outra. Não deu outra porque se criou o impasse. Agora estou lembrando, acho que não é a Gutierrez, é a Mendes Júnior mesmo. Eu estou confundindo nomes, mas deve ser a Mendes Júnior mesmo. Criou o impasse, foi feita a licitação. Então a jazida que valeria no máximo 1 milhão de dólares, alguma coisa, foi o que a Vale ofereceu, o que a Mendes Júnior ofereceu, a Engelhard ofereceu ao redor de 32 milhões de dólares.

Foi uma coisa complicada, um negócio assim. Bom, aí a Mendes Júnior botou a boca no trombone, saiu na imprensa, a denúncia de lobby. Porque a Mendes Júnior também estava tocando o negócio dela fora da Vale. E hoje existe uma mina da Mendes Júnior também. Existe a da Vale e existe a outra lá, também. E o Guerreiro, aquele célebre Guerreiro que tinha sido geólogo da Docegeo, depois foi Deputado Estadual, na época já era Deputado Federal. Então, criou-se aquele impasse e criou-se uma CPI na Câmara. Era proibido ter capital estrangeiro na mineração. A Constituição de 88 proibiu o capital estrangeiro na mineração. Então a Engelhard não entrou diretamente, ela entrou através de uma empresa de Uberlândia. Uma empresa de meio ambiente é que fez a proposta em nome da Engelhard. E foi convocada uma reunião na Câmara dos Deputados, o Presidente da Comissão era o Guerreiro, e nós fomos lá. Eu fui com o Deoclécio. E daí o Deoclécio usou toda aquela irreverência genial que ele tinha, para dizer que o rei estava nu. Então começou a reunião, numa sessão aberta, não era sessão fechada, era preparatória. Estava o pessoal da CPRM, o pessoal do DNPM, a Mendes Júnior, nós, e o representante dessa empresa de Uberlândia. E o Deoclécio entrou, antes de começar a reunião, sentou lá, ao redor do Guerreiro, que era Presidente da Comissão, dentro da Câmara do Deputados em Brasília. E o Deoclécio começou a olhar muito para o cara e a cair na gargalhada. E o cara começou a ficar vermelho. E o Deoclécio olhava e ria, ria. Eu comecei a ficar incomodado. Eu falei: “O que deu no Chefe? Endoidou de vez?” E olhava para o cara e dava risada, o cara não sabia mais o que fazer, olhava para cá, olhava para lá, não sabia do que o Deoclécio estava rindo tanto. E o Guerreiro começou a ficar incomodado, falou: “Deoclécio, vamos começar a reunião. O que houve?” Ele falou: “Não, é porque está escrito.” “O que está escrito?” “Na testa dele.” “O que está escrito?” “Testa de ferro!” E acabou a reunião. Acabou a reunião, daí melou todo o processo. Foi feita a associação da Vale com a Caemi, com a Cadam estando junto. Houve uma aproximação, isso foi contado por um ex-Diretor da Vale, que na época era Diretor da Caemi, uma tentativa com a Engelhard para pegar o mercado americano. E essa pessoa que não era nada ufanista, contando para mim e para o Deoclécio, falou o seguinte: que ele foi lá na reunião com a Engelhard, e a Engelhard não abria mão da comercialização. Topava entrar de sócia no mercado. Aí interessava, porque se a gente se associa à Engelhard para ter o mercado, e no mercado eles iam colocar só o que era marginal do caulim do Capim. Quer dizer, tem uma reserva futura para eles, mas por enquanto eles só vão colocar o que fosse deles, e o nosso só entraria quando houvesse espaço. Daí não interessava. Então, esse Diretor da Caemi na ocasião, que não tinha nada de ufanista, falou: “Olha, eu tive coragem, tive vontade de me enrolar na bandeira brasileira, trepar na mesa e cantar o hino nacional na reunião com a Engelhard.” Porque a prepotência deles é nesse nível. Quer dizer, se o negócio é bom, vamos ganhar dinheiro junto! Não entrar já cerceando a liberdade de empreendimento. Aí o projeto acabou saindo, já no final de década de 90. E parece que hoje a Cadam saiu e está novamente a Vale sozinha. É um negócio relativamente pequeno, mas enquanto houver caulim para fabricação de papel, é um negócio com espaço futuro, quer dizer, com uma sobrevivência longa enquanto houver o uso de caulim. Então, as histórias de uma grande empresa sempre começam com as histórias pequenas. Houve o paralelo do Gazzola, que descobriu o caulim na região do Espírito Santo. Nós chegamos a pesquisar aquele caulim, mas não tinha qualidade, só para uso local. Tentamos inclusive aproveitar esse caulim para a fábrica de papel lá da Bahia Sul, mas não houve interesse da Bahia Sul, da qual a Vale é sócia, em usar esse caulim para fazer papel.

PESSOAS

Deoclécio Rodrigues

O Deoclécio... eu entrei na Docegeo no início da década de 70, quando o contato com a Vale era esporádico, eventual, muito raro mesmo. Depois, na segunda metade, quando houve o Roquette Reis, todo o pessoal da Vale saiu, e o Deoclécio foi para o BNDES. Então nessa parte eu não conheci o Deoclécio. Conheci o Deoclécio já quando o Romeu era Presidente da Docegeo, e quando houve toda aquela onda, que a Docegeo ia ser fechada etc. e tal, e o Deoclécio era o responsável pela área da Docegeo na Vale. Então a gente não sabia até que ponto o Deoclécio teria alguma coisa. E nas visitas que aos poucos eu fui fazendo em Belém, começou a surgir uma amizade mútua, um respeito mútuo, com ele. Várias vezes fui a Carajás, ele acompanhava as comitivas, eu acompanhava também. E começou a surgir essa amizade. Quando eu passei a ser Diretor da Docegeo, ele era Diretor de Desenvolvimento, continuou, até quando ele deixou de ser Diretor de Desenvolvimento para ser Presidente da Docegeo. Ele encerrou a carreira na Vale como Presidente da Docegeo. E daí eu tive um convívio muito grande com ele, e fiquei sabendo do passado dele pelas histórias que ele me contava. A gente almoçava todo dia juntos. Estava em contato constante, viajávamos sempre juntos etc. Então ele era uma figura muito apaixonante, irreverente, bastante irreverente. Às vezes você ficava numa situação meia complicada com ele, pela irreverência dele. Mas uma inteligência rápida, perspicaz ao extremo, e muito alegre. Era muito agradável trabalhar com ele. Quer dizer, todo gênio tem um pouco de “porra-louca”. Então, para as pessoas mais “quadradas” ele era considerado “porra-louca”. As pessoas mais ortodoxas consideravam até o Eliezer um “porra-louca”! Quando a pessoa chega a gênio, ele é a pessoa que está com a visão que os outros não têm de imediato. Então, o Deoclécio foi uma das pessoas geniais com que eu trabalhei. Trabalhei com excepcionais profissionais na Vale, pessoas carismáticas, pessoas com competência profissional, mas sem esse brilho da genialidade. Quer dizer, se o cara não for bem heterodoxo acho que ele não chega a gênio. Tem que ser bem heterodoxo, para não seguir o comportamento do cidadão comum para ser um gênio. O Deoclécio já chegou a essa genialidade. E, pelo que eu senti, pelas histórias que ele contava, ele era o homem de projeto do Eliezer, uma lealdade absoluta ao Eliezer, e era um homem que com a equipe dele transformava as idéias em realidade. E a prova dele foi essa, que quando ele foi Diretor de Desenvolvimento, vários projetos que estavam engavetados na Vale saíram. Saiu a Albras. A Alunorte já foi depois dele ter saído da Docegeo. Mas o caulim ele deu incentivo, o ouro foi viabilizado quando ele era Diretor de Desenvolvimento. Então era um homem essencialmente de desenvolvimento de projetos, de criar coisas novas. Uma pessoa extremamente simples, de diálogo fácil, emocional, daqueles que quando tem que estourar estoura mesmo. Mas uma grande figura humana.

TRAJETÓRIA CVRD

Os anos 90 foram os anos onde eu me afastei bastante de geólogo. Até os anos 90, até 92 eu ainda fui Diretor de geologia, Diretor Técnico, então eu ainda estava mais próximo da geologia. Em 93, quando o Schettino assumiu, ele me colocou como Presidente da Docegeo, e daí a atividade foi mais de homem de empresa. Então já passei a ter uma visão diferente do trabalho. Antes eu defendia o trabalho do qual eu era parte. Daí eu passei a tomar conta do trabalho que outros faziam parte. E talvez esse tenha sido um período grande de amadurecimento, porque você deixou de jogar na defensiva, e passou a ser mais aberto, inclusive na visão que você tinha da empresa como um todo. Eu fiquei um ano como Presidente, depois houve a convocação para ir para Brasília, e foi uma experiência muito boa, quer dizer, fiquei o tempo suficiente. Não adiantava ficar mais tempo que ia ser perda de tempo para mim. Mas o tempo que eu fiquei foi suficiente para ter uma visão da cultura de Brasília. Foi bom para ter uma visão da Vale. Muito boa, porque eu tinha uma visão da Vale, de quem está embaixo da Vale, e a Vale representava aquela força toda poderosa, que está tudo certo, que está tomando conta do meu trabalho na Docegeo.

PRIVATIZAÇÃO- CVRD

A decisão da privatização

Quando eu era Secretário, tive uma única reunião com o Fernando Henrique, quando ele era Ministro da Fazenda, junto com o meu Ministro. Uma reunião de 40 minutos mais ou menos, e o assunto, quando eu soube que era a Vale, foi sobre a privatização. E o próprio Fernando Henrique defendeu, nessa reunião, uma privatização integral, como ela realmente foi. Quer dizer, não cortar a Vale em pedaços, para que fosse mantido o poder de fogo da Vale, mas defendia uma privatização pulverizada ao máximo possível. E disse que não seria imediata, que ele queria primeiro cuidar do setor elétrico, para depois cuidar da parte da mineração, da Vale. Que a Vale era uma empresa que não estava dando grandes problemas, não tinha problema de investimentos, nada disso, então ia ser mais lenta. Não sei se foi a Elena Landau que declarou que a Vale ia ser privatizada logo no início do governo dele, mas ele, de pronto, desmentiu. A Vale só foi precipitada à privatização por causa da crise do México. Com a crise mexicana já havia a previsão de que ficaria frágil o setor econômico-financeiro brasileiro. Então a Vale foi mais ou menos a jóia da rainha, que foi colocada na privatização. E ia ser privatizado, e era necessário, eu reconheço que era necessário, ia ser impossível a Vale continuar crescendo subordinada à burocracia de Brasília. Totalmente impossível! O cerceamento que havia do dinheiro dentro da empresa era muito grande. Então era necessário, para a própria sobrevivência da empresa que ela fosse privatizada.

Debate da privatização

A gente esperava que o processo fosse mais aberto, e foi um processo extremamente fechado. Por exemplo, o processo de Carajás, a implantação de Carajás, em plena ditadura militar, foi amplamente discutido. Nunca eu foi proibido de falar. Na privatização da Vale, toda a diretoria e todos os empregados foram proibidos de se manifestar.

O dono determinou à diretoria e aos empregados que não se manifestassem. “Eu sou o dono, não quero que ninguém dê palpite.” Quando você tem uma empresa estatal, você tem um dono de plantão que é o governo. Mas ela é uma empresa da sociedade. Então, por ela ser da sociedade, a sociedade tem que participar. Não é apenas um gerente de plantão que deve dar as diretrizes. Com Carajás aconteceu isso. E por isso que Carajás acabou sendo tão bem-feito. Houve erros da nossa conjuntura política, econômica, que você acaba não tirando o melhor do projeto, porque o país não tem esse amadurecimento para tirar o melhor do projeto. Mas falar que o Projeto Carajás foi mal-feito? Não foi mal feito! Do ponto de vista ambiental, em relação à questão indígena, tudo isso. Não é o Projeto Carajás que vai resolver o problema social do país. Você sempre atrai mais migrantes do que o projeto pode comportar. Agora, em relação à privatização, não houve isso. Uma das visitas que eu recebi um pouco antes, e o Ulisses também recebeu essa visita, foi um ex-ministro do Canadá, através de amizades que eu tenho no Consulado do Canadá em São Paulo, essa pessoa foi encaminhada para ter uma reunião comigo na Docegeo. E ele foi o Ministro do Canadá que coordenou o processo de privatização no Canadá. Ele procurou a Vale, o BNDES e a Docegeo, para manifestar o interesse de empresas canadenses de mineração de participar da privatização da Vale. Não mais, com 5% de participação. O que elas queriam era apenas ter espaço para crescer no Brasil, espaço que elas não têm lá no Canadá, porque no Canadá, boa parte das reservas estão sendo exauridas. E eu me lembro da pergunta que eu fiz, porque o Alexis [Stepanenko], que era Ministro, defendia muito a privatização pulverizada. Ele era até meio sonhador, ele achava que as ações deviam ser vendidas até em correio, e que cada cidadão que fosse lá pudesse comprar sua ação, como foi feito mais ou menos na Inglaterra, boa parte da Inglaterra foi assim, e no Canadá também. Mas ele, quando eu fiz a pergunta: “Como ele achava que devia ser privatizada a Vale?”, ele falou: “O mais pulverizada possível. Uma empresa estratégica do país como é a Vale, ela não pode ficar na mão de um único grupo de controle. Ela tem que ficar na mão de grupos de controle que sejam obrigados a negociar entre si, e onde os outros acionistas tenham algum tipo de força também. Assim nós fizemos a privatização no Canadá. Nós só fizemos uma privatização dirigida, que foi de uma companhia aérea, que estava em dificuldade financeira e se ela não fosse dirigida ela ia ser fechada. Essa foi a única privatização dirigida que nós fizemos”. E falou mais: “E o governo ganhou a eleição.” Fizeram a privatização no ano eleitoral e o governo ganhou a eleição. Aqui era para ser feito assim e, com o andar da carruagem, dentro da ótica do BNDES, que coube no processo, e depois coordenou das teles, também, passou para grupo de controle. A questão toda era preço. Que se obteria maior preço! Se a gente tiver uma visão de passado, não se obteve vantagem econômica nenhuma, ficou só a preço de mercado, e só. E isso seria possível de ser feito com pulverização. Numa privatização pulverizada você consegue preço de mercado. A idéia é que ia se conseguir preço acima do mercado. Não se conseguiu preço acima do mercado. Mas isso não pôde ser discutido, quer dizer, eu não sou contra a privatização, não sou. Na ocasião do grupo que ganhou, eu fui recebido pelo quadro técnico, até com uma certa alegria, que a gente tinha receio que fosse carta marcada para entregar a uma empresa estrangeira. Mas, se fosse mais aberto talvez pudesse ser melhor. Não que a Vale seja mal dirigida. Estou falando o processo de privatização, estou questionando o processo. Então, o processo poderia ter sido mais aberto, mais participativo.

A Docegeo e a privatização

Houve dois impasses na privatização: nós, na diretoria da Docegeo, com o Godoy e com o Armando, a gente discutia muito o problema da fotografia da Docegeo, na época, e o retrato estava ruim. A chapa estava queimada, quer dizer, a Docegeo ia ser fechada. E era ruim, uma empresa que tinha um passado tão brilhante de repente virar pó. A preocupação nossa era para que a empresa continuasse. E, aí, nós começamos a questionar: “Como melhorar a fotografia?” Isso, nós estávamos no ano de 96, quando a Docegeo completou 25 anos. E, em 97, a gente sabia que ia ser privatizada. Então, nós tínhamos seis meses para mudar a fotografia. Tinha havido no começo do ano Serra Pelada. Mas Serra Pelada não conta, porque Serra Pelada é algo que sempre vai ficar na história, a descoberta lá de garimpeiro e, não era um trunfo suficiente, era um triunfo político, que deu Ibope, causou a nova invasão de garimpeiros, mas não era o suficiente. E nós estávamos com vários projetos, mas nenhum andando. E foi feita uma reunião em Petrópolis, onde foi feito um brainstorm com toda a equipe, bastante traumático, bastante difícil, e foi naquela semana difícil em que o Brasil foi eliminado no futebol, nas Olimpíadas. Daí, o dia que ia se tomar a decisão foi o dia que as meninas perderam no vôlei para Cuba, e eu fiquei até de madrugada assistindo. Não dormi a noite toda. E de manhã eu encontrei o Godoy e o Armando, eles perguntaram: “Como é? Que decisão vamos tomar?” Eu falei: “Não sei. Não sei.” Não sabia se ia ter que demitir Gerente, porque cada Gerente estava... a gente queria tomar uma decisão no consenso para que desse certo. Porque sabia que se fosse ter oposição de diretoria a chance de haver, não sabotagem, mas haver má vontade de a coisa ir para frente era muito grande. Isso é normal. Então a gente queria que todo mundo chegasse naquilo que a diretoria já tinha chegado à conclusão, a gente queria que o grupo que estava discutindo, umas dez pessoas, chegassem a essa conclusão. Até, nesse dia, eu tirei uma fotografia com o grupo, e falei: “Essa fotografia é para a gente jogar no lixo ou para ter o orgulho de colocar na parede, dependendo do que a gente decidir aqui.” Essa fotografia até hoje eu mantenho na parede da minha casa! E aí, nessa reunião, mudou o clima, o pessoal foi se acertando, acertando, e foi canalizando a idéia que a gente tinha.

A polêmica do Corpo Alemão

Concentramos todos os recursos numa área que a gente achava muito boa, que era uma área vizinha de Igarapé-Bahia. E daí se concentrava o recurso, no próprio mês de agosto, primeiro furo, encontrou uma mineração espetacular de cobre e ouro, que é onde hoje o Corpo Alemão. Aí o que aconteceu? Aconteceram várias coisas. Aquilo foi levado à diretoria. Eu tinha acesso ao Ministério, falei com o Secretário que estava no meu lugar, e mostrei o problema que seria não divulgar aquilo. Se você não divulga, iam falar que você estava omitindo o fato na privatização. Até que ponto você vendeu a informação para o novo dono por baixo do pano? Se amanhã aparecesse carro novo ia falar que era dinheiro do novo dono que tinha passado etc. Se você divulga, vão falar que você está querendo melar a privatização. Colocar areia no BNDES. Ficou aquele impasse. E a preocupação nossa, como Presidente da empresa, era a sobrevivência da Docegeo. A gente não estava agindo com carta marcada, a idéia era muito clara, a gente queria que a Docegeo sobrevivesse, que ela estivesse com uma fotografia boa. Aí surgiu um problema: o Assad visitava a gente lá, e soube da informação, daquele fato. Aí, visitando a ex-mulher, em Belo Horizonte, deixou escapar que estava acontecendo aquilo. A ex-mulher estava envolvida com o pessoal de esquerda, com o nacionalista, com o Frota, com não sei quem lá, e tal, começou a ativar, daí estourou na imprensa. Estourou na “Tribuna da Imprensa”, no Rio. Eu já tinha ido a Brasília apresentar a descoberta para o Fernando Henrique, Fernando Henrique tinha me deixado esperar duas horas na sala de espera. E não tinha se interessado pela área, falou que aquilo era irrelevante. Nessa linha. Bom, daí veio ordem de Brasília, quando saiu essa reportagem, que eu tinha que fazer um desmentido ao jornal, ao diretor do jornal “Tribuna da Imprensa”, aquele famoso lá, e foi uma cópia para o gabinete da Presidência, que não houve nada daquilo, que eu não estive lá, que eu não dei entrevista para o jornal. Então começou esse tipo de patrulhamento. Quer dizer, não bastava a minha palavra, falar que eu não tinha nada com isso, que não tinha falado nada para o jornal, não tinha nada com o negócio. Isso ainda foi em 96, mais ou menos em agosto. Aí começou aquela dinâmica toda, e ele começou a ver que o negócio era muito grande. Na ocasião a Docegeo tinha desenvolvido uma tecnologia que começou a reentender Carajás. Carajás teve três picos, vamos chamar assim, porque a gente tinha dado um choque tecnológico para Carajás, com as novas descobertas. Primeira descoberta foi aquela que você tropeçava manganês, o níquel, o ferro, ou seja, quem chegasse primeiro e entendesse alguma coisa, descobria. A segunda já foi quando a gente começou a usar alguma tecnologia de geofísica, geoquímica, descobrimos o cobre no Salobo, o ouro em Andorinhas, com nova tecnologia. Se você continuasse usando, ad eternum, essas tecnologias, você não ia descobrir mais nada. Por quê? Não tinha mais lugar para tropeçar, e tudo que podia ser descoberto indiretamente por aqueles processos lá na década de 70, já tinha sido mexido. Então, não tinha mais o que descobrir. Isso não significa que não haja outras coisas para descobrir. Que tinha que dar um choque tecnológico. E surgiu, quando o Zé Adolfo assumiu a Docegeo na década de 90, e na época o Victor, que era Diretor de Desenvolvimento, ele cobrou do Zé Adolfo, e o Zé Adolfo motivou muito a empresa para que a gente se atualizasse do ponto de vista tecnológico. Então, no início da década de 90 a gente não fez grandes descobertas, mas o pessoal começou a viajar, fazer curso para fora, ver o que estava fazendo de informática etc. E a empresa, quando chegou em 96, 97, estava redondinha, do ponto de vista de informática, e fazendo tudo que as melhores empresas de geologia faziam no mundo, em termos de tecnologia. Inclusive, inovamos, várias coisas que foram feitas no Brasil a primeira vez foram feitas pela Docegeo, em Carajás. E tudo isso amadureceu em 96. E trazendo um consultor de fora, quando ele viu tudo aquilo, ele viu que Carajás podia vir a ser o segundo maior centro produtor de cobre do mundo, logo depois do Chile. Então, tudo isso efervescendo dentro do projeto de privatização, cuja reação da galera era a seguinte: “Estão querendo melar a privatização.” Mas foi uma coincidência histórica, dentro de uma linha política numa empresa voltada para a sua própria sobrevivência.

A imprensa e Carajás

Aí começou. Houve reuniões com o Governador do Pará mostrando o que existia, reuniões com o Ministro, mostrando o que existia, foi informado ao Fernando Henrique, indiretamente. O Eliezer um dia me chamou para a gente mostrar aquilo, a gente mostrou, o Eliezer ficou de queixo caído, porque era um novo cenário que a gente tinha lá para Carajás. Então, tudo isso foi acontecendo durante o processo de privatização. Aí houve umas inconfidências, umas escorregadinhas que eu dei na história aí, junto com um ex-funcionário da Vale, que usava num cargo relevante também. Enquanto a diretoria estava viajando com o Fernando Henrique em Angola, tivemos um almoço com um jornalista, e daí nós questionamos o processo, e esse jornalista tem uma coluna no “Globo” muito importante, e ele falou: “No dia que o Fernando Henrique chegar, eu sei que ele lê minha coluna, eu vou publicar.” E publicou duas vezes, então o que estava acontecendo nos bastidores da privatização, que o processo não estava bom, que não era transparente. Aí deram um puxão de orelha no Schettino. Eu estava com um pessoal da Argentina, o pessoal da SOS, em Carajás, de Brasília, quando eu liguei para a minha secretária para saber o que estava acontecendo, e ela: “O Schettino quer falar contigo urgente.” Aí eu liguei, levei uma... Que ele estava tentando contornar a questão da privatização, e que eu tinha jogado tudo no ventilador, tal. Eu falei: “Eu me arrisquei. Chega uma hora que alguma coisa tinha que ser falada do processo, e eu falei o que eu penso e o que todo mundo na Vale pensa.” Ele: “Não, o que a gente pensa não era para falar”. Aí eu entreguei o cargo na hora, falei: “Está bem, Schettino, então eu pisei na bola, o cargo é seu. Você me colocou, você me tira.” “Não, não, não. Vai com calma, mas não abre mais a boca. Não abre mais a boca.” Aí veio o final de 96, aquele desconforto dentro da Vale, e as pessoas me dando corda para que eu escrevesse alguma coisa, que escrevesse alguma coisa, pá, pá, pá e tal. E, pessoas de fora da Vale: “Você tem que escrever, porque o pessoal vai ler o que você escrever.” Aí consegui escrever um artigo, mas não tive coragem de mandar em frente porque achei que ia ser pesado demais. Do artigo, até hoje, só eu tenho cópia dele. Não foi publicado, uma pressão em cima muito grande, da própria diretoria da Vale, para que eu fizesse alguma coisa. Pelo fato de eu ter sido Secretário, então tinha algum espaço político. Mas daí não escrevi, e surgiu um outro impasse. Essas notícias todas, não sei de que forma. Há várias versões, eu não vou falar nenhuma versão, porque eu não sei qual é, então eu posso estar sendo injusto com alguém. Chegaram ao conhecimento do Mesquita, do “Estado de S.Paulo”, e daí começaram a querer entrevistar o Schettino. O Schettino daí me chamou e falou: “Você que fez o rolo, você se vira agora. Você se vira.” Eu falei: “Você me proibiu de falar, eu não vou receber jornalista nenhum.” Quer dizer, ficou aquela conversa de cerca Lourenço, cada um cai fora. Até que, finalmente, houve todas as garantias de que o negócio seria feito em bom nível, e eu segui para Carajás com o jornalista e o Mesquita Neto... não é nem o Neto, acho que é filho do Neto... é o que era diretor do “Jornal da Tarde”.

E existia aquele relatório secreto daquele consultor estrangeiro. Aquele, também, ninguém podia falar nada. Daí nós fomos com o José Casado para Carajás, e com o Mesquita. E daí mostramos tudo que havia, foi um bom nível a ser atendido lá. Foi mostrado a história toda, tudo que havia de bastidor dentro do processo de privatização, e que a gente não podia falar, foi falado naquele dia. Falando para “O Estado de S.Paulo”, sabia que não ia ser um jornal panfletário, que não ia usar aquela informação. Aí nos despedimos em Brasília, eu vinha para o Rio, ele ia para São Paulo, eu falei para o Mesquita: “Bom, e agora, qual é?” “Não, eu já falei com o meu pai, e ele já falou com o Fernando Henrique, e só sai com o acordo de Brasília, senão não sai.” Isso foi na sexta-feira, na segunda-feira à noite o José Casado ligou para casa e falou: “Olha, amanhã a criança nasce.” Só sabiam desse negócio três pessoas: Eliezer, o Schettino e eu. Ninguém mais sabia. Ninguém mais sabia dessa história toda aí. Daí eu falei: “Brasília sabe?” O José Casado respondeu: “Ele sabe!” Só falou isso. “Brasília não sabe, ele sabe.” Aí saiu aquela reportagem, e pelo menos a gente ficou com a consciência tranqüila, que a sociedade brasileira... dali em diante o processo era um pouco mais transparente. Sabia-se que estava sendo privatizado. Em termos de geologia, não estou falando de outra coisa. Em termos de geologia, que é o que era responsabilidade nossa, com o compromisso que a gente tinha, por ser dirigente de uma empresa estatal que responde ao governo mas também responde à sociedade. Então a gente sabia que o processo, do ponto de vista da geologia, era transparente. Nesse dia, eu estava na sala do Schettino lá vendo a reportagem, entrou a diretoria e falou: “Quem foi o porra-louca?” E tal, não sabiam que era uma carta marcada, até com o Presidente da República, para sair aquela reportagem. Foi a forma que a própria... para ficar bem com o Presidente da República, de ser divulgado e o próprio Presidente da República não ser cobrado no futuro de que alguma coisa tinha ficado escondida. Seria desastroso, depois da privatização, se isso fosse revelado. Quer dizer, ia ter uma ação popular contra o processo de privatização. Então foi bom, eu fiquei feliz de ter sido usado, porque na realidade fui usado. Eu não fui autor do processo, eu fui parte figurante do processo, que divulgou isso através do “O Estado de S.Paulo”, o “Jornal da Tarde”, mas acho que foi bom até para o próprio governo que isso fosse divulgado. Então, a atuação nossa nessa privatização foi só isso: uma pequena escorregadela numa entrevista, e o resto foi com carta marcada.

O processo interno da privatização

A visão da Diretoria era a seguinte: a de cumprir o que o seu mestre mandar. O que nós abrimos de arquivos para essas consultoras que vieram, a gente tinha o maior receio, abria informações que eram guardadas a sete chaves, que eram o futuro da empresa, os planos estratégicos da empresa! Nós fomos obrigados a abrir tudo para essas consultores do BNDES. Até que ponto essas empresas podiam usar essa informação para terceiros? Não sei, os caras não param, hoje, amanhã, um cara que está nessa empresa está em outra. E nós fomos, eu, toda diretoria da Vale, da Docegeo, os técnicos, fomos de uma submissão total no processo, quer dizer, nós fomos submissos totais, não questionamos nada. A gente questionava internamente, questionava isoladamente, entre nós, o processo. A gente achava que o processo era um pouco injusto em relação à Vale, que a Vale merecia um tratamento melhor na sua privatização. Mas então, a reação da diretoria, é que ela estava muito preocupada em não agredir o chefe, que era o governo de Brasilia, o dono da empresa. A reação da diretoria foi: “O que o dono vai pensar agora?” Não sabia que era algo que tinha sido feito com o ok do dono. E eu e o Schettino estávamos totalmente tranqüilos, porque a gente sabia como tinha sido o processo. Agora, o restante da diretoria estava apavorada.

O estilo dos novos donos

O novo grupo que entrou teve que pegar dinheiro emprestado para poder entrar na privatização. Então, é lógico que quem tem dívida tem que pagar a conta. Então ninguém vai estar preocupado que alguém vai descobrir alguma coisa que daqui a 20 anos vai ser algo que vai dar dinheiro. É lógico, não estou criticando o estilo deles, só estou falando que eu estava acostumado a trabalhar num outro estilo. Porque o estilo que você trabalhava na Vale antes era o seguinte: você trabalhava para descobrir alguma coisa que virasse um negócio para Vale o mais rápido possível. Assim foi com o ouro, assim foi com o caulim, não foi com o cobre, que até hoje não virou negócio. O alumínio já virou negócio também. Então você trabalhava sempre visando a Vale ter lucro numa área nova. Agora, na pior das hipóteses, se você descobrisse alguma coisa que não virasse negócio, a não ser que aquele minério não fosse mais utilizado no futuro, algum dia ele ia ser importante para o país, por você ser uma empresa estatal. Então, você tinha duas visões: você tinha a visão de empresa, de lucro, de retorno para os acionistas, tinha essa visão de empresa, mas tinha por trás... você não podia deixar de ter essa visão, de futuro do país. Nenhuma empresa privada... eu já havia trabalhado em duas empresas privadas antes, na Steel e na Icomi, elas todas têm essa visão. Não ia só deixar você colocar dinheiro, para você pensar numa coisa que vai virar negócio daqui a 30 anos, e talvez na mão de outra pessoa. Então existia esse conflito de estilo. Esse número macro. Mas com a conjuntura que foi aplicada à privatização, havia também o conflito desse tipo exacerbado, quer dizer, a visão imediata era que...

Contrato de risco com a Docegeo

Com a Docegeo dentro desse contexto todo, desse embrólio todo que houve aí na história do jornal, o que aconteceu? Isso praticamente garantiu a sobrevivência da Docegeo. Quer dizer, aquela descoberta do Corpo Alemão, que acabou saindo na mídia, e depois todo o potencial de Carajás acabou sendo revelado por aquela reportagem do “O Estado de S.Paulo”, criou um impasse junto ao BNDES e, em última análise, junto ao governo. Porque a privatização da Vale foi feita na base da apuração do Ministro, da apuração de uma empresa comercial numa empresa de serviço. Mas era o quê? No valor presente. Você calcula quanto você vai ganhar, durante 20 anos, com aquele empreendimento, quanto você vai gastar para ganhar aquilo, tira o custo financeiro etc, e você tem o valor presente. Agora, a questão realmente que a gente fazia sobre esse método, uma empresa do porte da Vale, que tem um valor estratégico fabuloso, um valor de futuro fabuloso, qual o valor presente da Amazônia hoje? Certamente é negativo. Se coloca mais dinheiro lá do que se tira, hoje. Quanto custa manter Roraima, por exemplo? Quanto custa manter o Acre? O governo coloca mais dinheiro do que tira de lá. Porque o valor presente é negativo. Então por que não dá de graça para quem quiser? Nós passamos a ganhar dinheiro. Então, a questão do valor presente não era muito bem aceita pela cultura da Vale, e em particular pela cultura da Docegeo. Então, chegou-se à conclusão, pela equipe que fez a avaliação da Vale e pelo BNDES, que o valor presente de Carajás, tirando as jazidas, era zero. Porque é em Carajás que vocês tem os seus sonhos de novas descobertas. E sonho é zero. A não ser para o Yuri, que sonho pode virar um filme, mas para o restante é zero. Então, o questionamento que a Vale fazia com o BNDES: “Então, Carajás sai da privatização, e volta para o governo, e o governo faz licitação caso a caso”. “Não, mas se tirar Carajás da Vale, cai o preço.” A gente fala: “Bom, mas se tirar zero num porto, não muda nada.” Mas era a azeitona na empada. Então, criou-se um impasse. E quando aquilo saiu no “Estadão” o impasse aí... o rei estava nu. Ninguém podia falar que aquilo valia zero. Então a própria Vale, Ulisses e Schettino, bolaram uma saída política para o governo, do BNDES. E o que foi? Tudo que em Carajás não se conhece ainda, algumas coisas já eram em associação com o BNDES, algumas eram com a iniciativa privada, e outras já são minas em produção. Então, tudo que se conhece você pode avaliar, embora discutível. Mas tudo bem. Você pega Carajás, considera Carajás só o valor presente de 20 anos, quando você tem reserva para 400 anos, então a coisa fica meio complicada. Mas foi assim que foi feito. Mas tudo que tiver em Carajás e não for conhecido passa a pertencer ao governo, via BNDES. Quer dizer, o governo estatizou Carajás durante a privatização. Reestatizou Carajás durante a privatização, da seguinte forma: foi calculado quanto já se teria gasto em Carajás, a partir da associação do Salobo. E quando foi feita a associação do Salobo? Tudo que a Docegeo havia gasto para descobrir o Salobo, até chegar o Salobo, foi colocado no valor do Salobo, para que o BNDES entrasse com uma parte. Então, já fazia parte do Salobo. Então, o que se gastou de 85 para cá em Carajás, se calculou quanto a Vale gastou. Daria mais ou menos em torno de 100 milhões de dólares. E se calculou quanto seria necessário para avaliar todo Carajás como pesquisa, para se ter certeza do que tinha e do que não tinha. E se chegou a 400 milhões de dólares. Então, se estabeleceu que dali para a frente haveria uma associação entre a Vale e o BNDES de 400 milhões de dólares, onde o BNDES entrava com 200 milhões, a Vale colocava mais 100, porque ela colocou já 100. Então o valor da avaliação total de Carajás é 400 milhões de dólares. Isso acabou sendo uma saída política para o governo, porque se tornou transparente, quer dizer, continua o governo sendo dono de 50%. Antes, o governo era dono de 50% e continua dono agora, via BNDES. E, um ótimo negócio para os novos sócios, fossem eles quais fossem. Porque eles vão ser donos de metade, mas colocando 25. Porque os outros 25 o próprio governo já colocou antes enquanto era estatal. Então isso acabou sendo o ovo de Colombo para você resolver a questão de Carajás na privatização. O governo continuou sendo o dono de 50, via BNDES, o que descobrir, o BNDES é dono de 50, daqui para a frente. Os novos sócios vão ser dono de 50, mas vão colocar 25. Então foi uma saída mesmo. E isso acabou viabilizando politicamente a privatização, na questão Carajás, porque a principal discussão na mídia, era essa, de Carajás valor zero. Então, Carajás não está mais em discussão. E isso permitiu a ressurreição da Docegeo. Porque o contrato com o BNDES foi assinado com a Docegeo. Não, foi assinado com a Vale, determinando a Docegeo como operadora. Contrato de pesquisa de Carajás. Então, esse contrato foi um contrato parece que de quatro anos para fazer a pesquisa. Ele deve estar acabando, precisa também ser renovado porque aquilo não vai acabar. Foi em 97, 98, 99, 2000 e 2001. Acabaria o ano que vem. Mas certamente não vai ser possível acabar. Então acabou sendo uma coisa. Nós cumprimos a missão de a Docegeo sobreviver. Para o governo foi uma saída política e o novo sócio ficou satisfeito também. E o dono ficou satisfeito também.

Os novos donos

Eu fiquei lá até assumir. Tudo indicava que era o grupo do Antônio Ermírio, da Anglo American. A mídia toda estava falando isso, a gente também acreditava que o processo era coisa parecida com ela, outro grupo a gente achava que a gente tinha cacife para ganhar. Quando esse grupo ganhou foi uma surpresa, até parte do quadro técnico achou que seria melhor, porque era alguém da área financeira, então a área financeira ia se apoiar mais na área técnica, não tinha a cultura técnica. Fosse uma multinacional traria sua própria cultura técnica e daria um certo conflito. Mas, de início, para nós, começou a haver um choque cultural, quer dizer, uma questão de estilo. Porque o contato com essa visão mais financeira do negócio, a gente estava acostumado a trabalhar mais com uma visão de médio, longo prazo, então, o pessoal de desenvolvimento e de geologia começou a sentir mais isso. Tanto que o pessoal de desenvolvimento e geologia foi o primeiro a sair da empresa. Quando a gente percebeu que havia um problema de estilo, de equação de gestão de empresa, a gente sabia que ia mudar, sabia que era um dono, mas o choque de estilo ia ser muito grande. Então acho que a única solução ética para nós e para a empresa era sair. Para nós, para que a gente continuasse, até certo ponto, virgem no processo histórico da Vale. Quer dizer, nós formamos uma história, e saímos com essa história, sem nenhum conflito com a empresa. Então nós não tivemos nenhum conflito com a empresa enquanto ficamos. E para os novos donos, para que eles tivessem liberdade de colocar pessoas mais afinadas com a linha política de administração deles. Então saímos sem conflito, tristes com a nossa saída na empresa. Num lugar que você fica 25 anos, quando você sai você sai triste. Mas eu já pretendia sair. Quando eu fui a Brasília, na volta eu pretendia sair, o Schettino pediu que eu ficasse mais algum tempo até a privatização. E foi bom, valeu a pena ter participado, eu me senti feliz de poder ter contribuído junto com os outros diretores e os outros administradores da Docegeo para a sua sobrevivência. Isso foi muito bom. Para uma empresa de geologia que foi criada para durar três anos, e vai completar, o ano que vem, 30, eu acho que está bom.

SAÍDA DA CVRD

O último dia foi uma tristeza. Quando nós ainda tentamos, eu e o Ulisses, a gente trabalhava muito naquela época, eu era muito unido ao Ulisses. Até que ponto havia espaço para algumas idéias nossas dentro da empresa, a linha de desenvolvimento. Quando percebemos que essas idéias não seriam mais possíveis, eu falei para o Ulisses: “Vamos sair!”, a frase que eu usei foi essa: “Vamos sair enquanto a gente pode sair com dignidade.” Porque dali para a frente você entraria em conflito e era muito difícil você preservar a dignidade entrando em conflitos com a empresa. E, daí, ele falou que ia sair, eu também falei, o Marreco também, na mesma época tomou a decisão, Mário Perry também, que era de Nova Iorque, no mesmo dia, numa sexta-feira, nós tomamos a decisão de sair, aliás numa quinta-feira. Tomamos a decisão na quarta, na quinta nós assinamos. Eu pedi o afastamento do cargo, para voltar a ser empregado para eu poder sair, e na sexta-feira eu comuniquei à empresa. Comuniquei ao Rio, comuniquei aos distritos e ao Rio. E por incrível que pareça eu estava profundamente emocionado e não consegui chorar. Quer dizer, a emoção impediu que eu chorasse. O Godoy já não era o Diretor da empresa, tinha saído, já estava na Fundação. O Armando chorou muito quando eu comuniquei, o outro Diretor, que eu tinha pouca intimidade com ele, chorou muito também. A equipe toda chorou. Eu não consegui. A emoção chegou a um nível que eu não conseguia chorar, que eu não conseguia colocar para fora. Aí no dia 11, segunda-feira, os quatro foram assinar no seu trabalho a demissão. Nesse dia o Eliezer me chamou. Ficou sabendo que eu estava saindo. Fez um comentário bastante gratificante para mim, e de surpresa eles prepararam uma despedida para mim na quarta-feira. Eu continuei já não mais como empregado, mas na terça e na quarta, na terça principalmente, esvaziando gaveta etc, orientando o Armando, que ia ficar interinamente no meu lugar, o que estava em andamento. E, na segunda-feira, então, minha secretária entrou comunicando que os menores aprendizes da empresa queriam fazer um convite, mas estavam com vergonha etc, se eles podiam entrar. Mandei eles entrarem, então eles vieram me convidar para no dia seguinte eu ir almoçar com eles. Naquelas reuniões que a gente fazia, de cafezinho com o Presidente, eu sempre colocava um menor aprendiz, para que alguém que estava dentro da empresa tivesse uma visão bem aberta, bem crítica, da empresa, e ao mesmo tempo para que eles amadurecessem bastante e aprendessem a criticar o lugar que eles trabalham e dar até idéias interessantes. Porque de vez em quando uma idéia brilhante saía de um menor aprendiz sobre coisas erradas na empresa. E eles então falaram, com uma simplicidade, que gostariam de me convidar para almoçar, mas que não podiam levar num restaurante chique, que eles tinham pouco dinheiro. Eu falei: “Tudo bem, eu vou no restaurante que vocês estão acostumados a comer. Vocês não vão pagar nada, eu que vou pagar o almoço. Mas terei o maior prazer.” Foi muito legal, cada um falou o que pensava da sua vida, o que pretendia fazer na vida. Depois de algum tempo, interessante, é que eles ainda telefonavam para mim em casa, para pedir orientação. Mas depois aos poucos eles foram seguindo a vida e o contato acabou. Então foi muito bom, foi um momento de emoção muito grande, almoçando com eles. E no dia seguinte o pessoal no escritório do Rio organizou uma festinha, que foi muito bonita também, e foi quase o baile da ilha fiscal da Vale, da antiga Vale, porque todos os diretores, na época, o Anástácio era o Presidente em exercício. Então foram todos os diretores da Vale, o Schettino já não era mais Presidente, mas foi também, vários amigos de fora da empresa, e o pessoal do Rio todo, o pessoal da Vale. A antiga Vale se despediu porque as outras despedidas já estava um ambiente não muito bom, já não foi o mesmo clima, não conseguiu reunir todo mundo, foram almoços simples, um aqui, outro ali, não teve mais a mesma coisa.

ATIVIDADE ATUAL

Eu me aposentei para não trabalhar. A homenagem que me fizeram na despedida, o pessoal do Rio duvidava que isso era possível, porque era workaholic, deixei minha família de lado muitas vezes, largava minha mulher grávida no hospital e ia para o campo, desse tipo assim. E... Não só eu, mas outras pessoas aposentaram, alguns que pensavam em trabalhar, chegaram à conclusão de que na terceira idade é gostoso trabalhar, mas, é mais gostoso não fazer nada. O não fazer nada meu não é que eu fico vendo televisão, ou fico sentado na praia. Acho que depois que eu me aposentei eu não fui à praia nenhuma vez. E moro na praia. O máximo é caminhar na praia, mas tomar banho de mar não fui uma vez. Mas eu comecei a trabalhar com 15 anos. Então uma série de sonhos que eu tinha, de mexer com fotografia, escrever, de ver filmes que durante a vida eu acabei não vendo, e que agora tem vídeo, que pode se ver, viajar, mexer com a minha maquete que até agora, depois de quase três anos é que eu recomecei a mexer, enfim... mas agora eu posso. Pode ser que eu não faça, mas eu posso fazer. Então aquela sensação de poder é muito grande. E falei a quem duvidava que eu ia ficar sem trabalhar, eu falei: “Só volto a trabalhar por dois motivos: por tesão ou por necessidade.” Quer dizer, logo que eu saí, o Eliezer mesmo falou: “Eu vou avisar todo mundo para te contratar.” E avisou mesmo. Quer dizer, o Guilherme da Caemi me chamou para ir trabalhar com ele, o Eike Batista me chamou, mas eu fui honesto com eles, falei: “Olha, não vai ser bom para mim nem para vocês. Porque eu vou ficar como assessor de vocês aí, eu não vou ser mágico de ficar ao lado de vocês e a jazida aparecer, não existe isso. Vocês vão estar gastando dinheiro à toa, o meu currículo não vai acrescentar nada, eu vou ficar frustrado de ficar aqui sem fazer nada.” Fui honesto com eles, quer dizer, foi bom para eles, bom para mim. Depois o BNDES me chamou para ser o fiscal do contrato pelo BNDES. Quer dizer, eu tinha cultura de geologia, tal, e já tinham conversado com o Armando. Tinham achado muito bom, eu falei: “Para mim não vai dar certo. Vai dar conflito.” “Não, não dá. Eu já conversei com o Armando.” Eles estavam pensando que eu vou entrar no contato com a camisa da Docegeo. Eu não vou entrar no contrato com a camisa da Docegeo, eu vou entrar no contrato com a camisa do BNDES. Meu patrão é outro agora e vai dar conflito. Aí eles andaram sondando lá, e tal, e viram que não ia dar certo mesmo. Então surgiram mais umas três empresas estrangeiras que quiseram me contratar. Era, dava tesão, era interessante, mas para trabalhar com a Vale, em Carajás. Eu falei: “Não dá certo.” Não dá certo, quer dizer, é muito difícil. Na hora que tiverem o contrato, às vezes uma rusga do passado, só, é capaz de prejudicar a empresa para me prejudicar. Quer dizer, em vez de eu ajudar a nova empresa, eu vou estar prejudicando a empresa. Eticamente fica complicado. Então as coisas que deram tesão era para trabalhar junto com a Vale. Então eu falei: “Estou fora.” Fiz isso. Nesse período o que eu fiz? Fiz umas palestras na Unicamp, na USP, sobre profissão de geólogo, fui chamado para ir para a Unicamp fazer um doutorado, que eu nunca tive tempo para fazer. Falaram: “Você faz o doutorado, o doutorado é seu e a gente faz do jeito que você quiser.” Eu falei: “Não dá, eu não vou mudar para Campinas para fazer um doutorado. O que interessa um doutorado agora?” A USP queria me contratar como professor residente, um negócio assim, para ficar só contando história para aluno. Eu falei: “Fazer uma palestra você tem assunto. Você vir aqui e ficar durante seis meses inventando historinha para aluno não dá!” Não dá certo também. Então eu fiz palestra aqui na UFRJ, fiz palestra no Fundão também, sobre os problemas que tem na profissão de geólogo. Dei algumas entrevistas para revista, alguma coisa, a Lourdinha ia organizar aquele livro, que ela foi apresentar na Alemanha o ano passado, e eu escrevi um capítulo e fui com ela, o Ab’Saber, uma semana espetacular que nós passamos, em Berlim, super-gratificante, ficar o tempo todo com o Ab’Saber, com a Lourdinha, aquele pessoal de inteligência vivíssima, então, é enriquecedor, foi uma experiência fabulosa. Você ir a Bonn, em Berlim, e a Embaixada, lançamento do livro na Embaixada brasileira, depois no aniversário de Berlim, um negócio muito gostoso. E tenho feito isso. E o tempo tem passado depressa demais, não dá tempo para nada. Aposentado não tem tempo. De vez em quando tem que tirar férias para descansar um pouco. Fiz umas reformas na casa, que ocupa tempo também.

AVALIAÇÃO

Me aposentei oficialmente, assinei o contrato dia 11 de agosto e me despedi no dia 13 de agosto de 97. Dia 13. Quando eu caí de helicóptero também foi dia 13. O Assad, eu converso muito com o Assad. O Assad fala comigo sempre: “Nós vivemos. Nós tivemos a chance de ter vivido toda essa aventura.” Quem for para a Amazônia hoje não tem essa chance mais. É tudo diferente hoje. Hoje é tudo já muito mais empresarial, Não tem aquele negócio que você está na linha de frente, você depende só de você. Hoje não é mais isso. Hoje, se você estiver numa linha lá na frente, temporariamente, pode depender só de você, mas o conjunto todo é diferente. E a gente pegou todas aquelas transformações. Quer dizer, a chance de ter vivido isso foi muito grande. Numa época que a geologia era o quente no Brasil, que foi a década de 70. Só se falava em geologia, só em mineração. Então, nós participamos de toda essa aventura no momento que ela estava dando Ibope. Hoje, a mesma aventura não daria Ibope nenhum. Então foi uma aventura. Foi muito bom. Quer dizer, de alegria, que eu levo, foi o fato de ter vivido. De tristeza que a gente sonhava que o que fosse feito ia realmente ajudar para mudar o país, e não ajudou nada. Quer dizer, essa é a tristeza que a gente leva. Que a gente sonhava muito que o conhecimento das riquezas do Brasil, essas riquezas podiam ser usadas para melhoria do país, mas os problemas do país são bem mais complexos para uma simples jazida resolver. Bem mais difícil, vem de muito tempo atrás e nós pouco estamos conseguindo fazer para melhorar. Acho que do ponto de vista ético nós estamos até piores. A não ser que haja uma reviravolta. Parece que agora a gente ligou o ventilador e está jogando. Isso já é bom. Agora, a gente vai precisar ter competência para depois limpar a sala. Isso é difícil, e é capaz da gente cair nos mesmos erros do passado. A gente vê a sucessão de erros que a sociedade brasileira vai tendo o tempo todo. Tem todos erros, quer dizer, o próprio Figueiredo teve chance de se transformar num estadista no Riocentro. Mas, a partir do Riocentro, o governo dele acabou, perdeu toda a credibilidade. Ele podia ser o Presidente da abertura e o Presidente da democratização. Ele perdeu essa chance de fazê-lo. O atual teve a chance de com um mandato só ter feito um governo excepcional, para preparar o país para um outro Presidente que realmente fizesse o país crescer. Mas a ambição pessoal, a vaidade, acabou dando no que deu. Então, a gente está perdendo muitas oportunidades. O fenômeno Collor que a população toda parecia criança acreditando em Papai Noel e Branca de Neve e caiu no engodo do Collor. Muito difícil, muito difícil mudar. Eu acho que mudanças do país, para ser um país digno, um país normal como um país europeu comum, não precisa ser uma potência, mas um país normal, que tem eleições como uma Bélgica da vida, uma Suécia da vida, que tenha decência para a população, eu acho que não é para os nossos filhos, não.

Pelo fato de você já conhecer o caminho, talvez você quisesse conhecer uma coisa nova. Então, talvez eu seguisse ou a própria agronomia, ou talvez a arquitetura, eu tenho umas idéias para arquitetura. Meu irmão acabou sendo arquiteto e não é muito feliz com a profissão porque não tem muita sorte no emprego dele. Não tem muito espaço para realizar as idéias dele. Não sei, quer dizer, no escuro eu acho que valeu a pena demais, poucas pessoas tiveram a sorte profissional que eu tive. A sorte profissional que eu tive foi muito grande. Você vê uma criança nascer e conviver com ela até a maturidade, você não consegue isso com filho! Quer dizer, eu convivi com Carajás de 67 a 97. 30 anos eu convivi com Carajás. A nenhum outro brasileiro foi dada essa sorte. Que brasileiro teve essa chance de conviver com Carajás 30 anos? A maioria me fala: “Bom, e o que me interessa conviver com Carajás?” “Bom, para mim me interessa porque eu sou geólogo.” Qualquer outro geólogo gostaria de ter tido essa chance. Se for perguntar para a Xuxa se interessaria ter convivido com Carajás, não vai interessar, mas para mim interessa. Então, acho que a vida foi, como diz o poeta: “Tudo vale a pena se a alma não é pequena.” E eu tive a chance de conviver com almas muito grandes ao longo da minha vida. Quando eu falo alma grande não era o chefe, não era essas pessoas que me influenciaram, como o Rico, o Manuel Rico na Icomi, o Tolbert, mais recentemente, a convivência com o Deoclécio, que foi uma influência interessante. Mas a riqueza humana não foi só desses líderes que despontaram. A riqueza humana foi das pessoas que estiveram comigo, fossem braçais, fosse geólogo, foram pessoas muito ricas. Eu guardo memórias espetaculares de pessoas extremamente simples, do ponto de vista humano. A riqueza dessas pessoas, pessoas simples. Quer dizer, vou só usar o exemplo: o Raimundo, que tem aquela crônica ali. Trabalhou comigo na Icomi, era uma pessoa que quando estava no acampamento tinha uma convivência com ele, mas no dia-a-dia passava meses sem encontrar com ele. Depois ele escreve uma crônica de uma coisa que aconteceu comigo, que eu nem lembrava que tinha acontecido e que para ele foi um fato marcante. Então é a riqueza, até hoje tem amizade, até hoje de vez em quando a gente se fala. E há outras pessoas assim. Então isso eu acho que é o que mais conta. Eu talvez tenha dado mais atenção a esse lado da minha vida, o lado dos meus companheiros de trabalho do que até a minha família, passei a dar mais atenção a minha família mais recentemente. Quer dizer, eu estava tão envolvido nessa aventura que o dia-a-dia da empresa passava a ser quase mais importante do que o dia-a-dia da família. Do ponto de vista não só profissional, empresarial, mas do ponto de vista humano também, o envolvimento humano era muito grande. Acho que isso aí é o que fica. A gente não deve viver de lembranças, eu acho que a gente tem que viver. Até hoje eu estou voltado para a frente, tanto que eu não estou preocupado mais em trabalhar em geologia, eu estou preocupado em trabalhar com outras coisas, mexer com fotografia, mexer com vídeo, com coisas desse tipo. Quem sabe qualquer dia eu não estou do outro lado da câmera? Então eu estou voltado para o futuro. Mas infeliz aquele que chega a idade que eu cheguei sem ter boas lembranças do passado. Eu acho também que a gente não deve viver de passado, mas também tem que ter um passado.

SONHO

Eu agora não sei se vou viver um ano, dez ou 20, quer dizer, a minha família, todo mundo entrou na década com 80 anos, a minha mãe está com 83 e meus avós morreram na faixa de 80, 88, por aí. Então, eu estou achando que talvez eu chegue até os 80. Embora o lado do meu pai tem ficado na faixa dos 70. Lado da minha mãe, dos 80, lado do meu pai, 70. Então eu estou jogando com 70 e 80. Então, é muito pouco tempo! Para tudo que eu quero fazer, é muito pouco tempo. Eu gostaria de viajar bastante. Viajar bastante não é viajar por viajar, é viajar, conhecer partes do Brasil não conhecidas, eu quero conhecer pequenas cidadezinhas em Minas, conhecer o Sul do país, pequenas cidades, não as grandes cidades, conhecer a vida. Como é o Brasil que a gente não conhece. Sou fanático por Tiradentes, essa região toda ali. Fui para São João del Rei e entrei em Tiradentes. Ia para Belo Horizonte e ia aproveitar e ir em São João del Rei com a minha mulher. Daí: “Então vamos conhecer Tiradentes!” Daí entramos em Tiradentes, e a gente só ouvia falar de del Rei. Daí fiquei em Tiradentes, dormi, del Rei só passei, e nunca mais fui em del Rei, nem conheço del Rei, só conheço Tiradentes. É realmente apaixonante Tiradentes, quero voltar àquela parte, conhecer o Caraça, voltar em Diamantina, eu estive rapidamente em Diamantina a serviço, Serro eu quero conhecer, quero ir lá na Serra da Canastra, que eu estive a serviço próximo, mas quero passar, conhecer bem aquilo lá. Isso em termos de Brasil. Em termos internacionais, gostaria de voltar a Quito, gostei muito de Quito, e conhecer Machu Picchu. Talvez fazer uma viagem de carro pelo Oeste Americano, já fiz uma de ônibus, agora fazer uma pelo Oeste, mas conhecendo os parques, conhecer a Torre do Diabo, parques que eu não conheço, aquela região toda que tem geologia. Eu conheço o Grand Canyon, gostei. Passar talvez um tempo no Grand Canyon, só para ficar meditando. Eu passei rapidamente, ficar lá só vendo aquele vale e ficar curtindo. Curtir os netos, as netas, as três netas. Tentar ajudar um pouco os filhos a se encontrarem, já estão mais ou menos encaminhados, alguns não tanto, mas ver até onde eu posso influenciar. Hoje eu já não influencio muito mais, quando já passa dos 25 fica difícil influenciar alguma coisa. E é só. Se possível, acabar de escrever as crônicas que eu tenho na minha cabeça, se eu conseguir ter... combater a preguiça e conseguir escrever mais algumas crônicas, que isso talvez componha um livro no futuro, contando toda essa aventura profissional. E viver. E viver. E sonhar que o país permita que a gente viva. Que a gente está com um problema não só a nível pessoal, ter a segurança ameaçada, mas, a nível ético, de consciência, é difícil a gente começar a ter alegria individual. Está muito difícil. Quer dizer, hoje você se sente culpado de estar bem. “Ah, isso é culpa burguesa.” Talvez seja. Eu embora tenha sido um técnico um pouco intelectual, mas não deixo de ter uma formação burguesa, como nós todos temos, nós vivemos num mundo burguês, e somos burgueses. Não podemos fugir disso. Mas existe essa conscientização de que alguma coisa tem que ser feita por esse país, está muito ruim. Está muito ruim mesmo.

DEPOIMENTO

Apaixonante. Eu estou triste de ir embora agora. Não tem uma vaguinha, não, para ficar desse lado aí? Interessante que meu irmão é arquiteto, ele agora está mexendo com história. Está mexendo com a história de São Paulo. Eu falei que ele tem que começar a escrever. Falei: “Vai colocando no computador tudo que te vier na cabeça, porque senão as idéias vão embora e você, quando for escrever, não lembra mais o que você está criando agora.” Não sei se ele está fazendo isso. E eu também comecei com agronomia, geologia, gosto de arquitetura, e fui mexer com fotografia, gosto de jornalismo e, até certo ponto, mexo com negócio de memória – essa seção na “Brasil Mineral” foi inspiração minha, de ter a memória, que acho que nós somos um país sem memória. A gente copia tudo de errado que tem nos Estados Unidos. Agora, não copia nada de bom que tem lá nos Estados Unidos. É incrível, como nós somos macacos, numa forma errada. Macaquice nossa para copiar tudo que for de pior! Porque o que tem de pior nos Estados Unidos vem para cá. Quando você vai nos Estados Unidos você nem vê, não existe. Está isolado, está nos guetos, nas gangues, nos grupelhos etc, que fazem aquilo; tem muita coisa errada na sociedade americana, também. Mas tem muita coisa de bom. E, uma das coisas que os Estados Unidos tem de bom é respeitar o seu passado e preservar a sua memória. Você vai em qualquer cidadezinha, tem um museu, e tem a história da cidade, o que foi feito, tem uma boa biblioteca, tem tudo lá. Hoje não se consegue ter isso nem nas grandes cidades. Então, esse trabalho de vocês eu acho apaixonante, conversei com o Godoy ontem, falei que foi muita coragem dele e da Vale lançar um projeto desses. Uma empresa lançar um projeto desses é um negócio que tem que ter coragem empresarial. As pessoas que decidiram por esse projeto têm que ter visão de empresa, visão de futuro, visão do país. Porque é uma empresa que não é uma empresa qualquer. Não é uma fábrica de botão, uma fábrica de linha, embora a fábrica de botão deva ter a sua memória, a fábrica de linha deva ter a sua memória também, e deva ser preservada. Porque há pessoas ali trabalhando, que fizeram a história daquele grupo, e deve ser respeitado o passado e a história dessas pessoas. Mas a Vale é uma empresa que mudou a história de duas grandes regiões do país, que foi o vale do rio Doce e o sul do Pará. Ela mudou. E se a história dessa mudança não for preservada, não vai ficar nada. No futuro, vão reclamar só dos buracos que ficaram. Então, é necessário que os buracos que estão sendo feitos, que seja testemunhada a história que está por trás desses buracos, que há pessoas envolvidas nisso, que há objetivos envolvidos nisso.

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